Poemas declamados

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30 dezembro, 2009

«« Lendas ««


Chamei-te deus…
Mas esqueci que os deuses são lendas


Chamei-te deus…
Pecados meus
Chamei-te homem
Pecados me consomem
Acabei por chamar-te amor….
Logo ficou algum desamor
Daqui para a frente vou chamar-te …
Pelo teu nome
Talvez o dia não tome
As direcções das lendas vivas
Talvez a minha boca repita
Amor…com algum sabor…

26 dezembro, 2009

«« Lábios fechados ««


Elevei a expectativa aos picos mais altos
Fiquei esperando que lesses nas entrelinhas
Talvez, que lesses nos meus lábios fechados
Cega sou, quem espera sempre definha

Elevei a expectativa por robustos telhados
Pensei que tapavam o frio que tinha
As telhas soltaram-se, foram os ventos dobrados
Que teimam em chegar pela noitinha

Acreditei que encontrara o mar salgado
Onde as sereias bailam e cantam um hino ao amor
Mas não, encontrei um lago parado

Que também esperava numa muda dor
Que lhe lessem os lábios fechados
Sabes, agora sei, porque os lírios mudam de cor

«« Frases banais ««


Frases banais, deixadas em campo aberto
Ferem como punhais, ferem mas não verte
Sangue, não, vertem lágrimas em riacho
Aberto na face cada vez mais inerte

Frases banais, sinónimo de desalento
Porque será que o silêncio não adverte
Que um coração em chaga é cata-vento
Que se espreguiça na esperança que liberte

O grito calado pelo silêncio imposto
Numa noite escura e fria de nenhures
Talvez a luz mortiça lhe tape o desgosto

De ser um ser, que passa algures
Entre o ter e o perder, o ser ou não ser
Com frases banais, não mais me procures.

«« Sina ««


Porque pedes tu, o que pensas dar
Porque queres tu, o sol e a lua em partes iguais
Porque é que teimas em barafustar
Porque sonhas tu, com estios e madrigais

São tantos os limites, olha ao longe o mar
Sereno, num repente as ondas são abismais
Assim é a vida, ondas incansáveis num balançar
Momentos calmos, são como os olivais

Por onde o vento caminha, fica o aroma
A brisa ligeira, água cristalina
Que enche de esperança, afasta o sintoma

De vazio, olha meu amor o sol ilumina
As almas sozinhas, desfeitas de sonhos
Olha amor, o sol se tapou, será nossa sina

«« O sol já vai alto ««


O sol já vai alto
Um sol tímido,
Raiou sem sobressalto
O seu brilho cândido
Eleva o meu pensamento ao alto
O sol já raiou
Que é feito de ti
O tempo parou
E o sol sorri
Da espera que não cessou
O sol riu eu vi
Vi o brilho no olhar
Reflectido no espelho
Vi um ai soluçar
Morrendo de velho
Vi alguém a esperar
Com um vestido vermelho
Vermelho vivo
Como viva é esta espera
Exasperar abrasivo
Que mata qualquer quimera
E volta o ai aflitivo
Recordei a primavera
Quando o amor floriu
As árvores ganharam vida
Foi há tanto tempo, fugiu
E eu aqui, perdida
O meu sonhar ruiu
Ficou preso no telefone
Que ficou mudo coitado
Será que ele consome
Os dias que já são passado
Toca, toca telefone
Trás noticias do meu amado.

O sol já vai alto
Que é feito de ti
Eu em sobressalto
O telefone não ouvi…

25 dezembro, 2009

«« Meu amor o tempo urge ««


O amor na ausência deixa-nos irrequietos
Envolve-se de fissuras, de névoas cruas
Deixa-nos num marasmo, boquiabertos
Como se a ausência fosse folhas nuas

Que deslizam pelo tronco em nós
Corredios, e as saudades são faluas
Que deslizam em mares revoltos
Onde as águas se transformaram em lágrimas

Quase sempre a tua ausência me traz, dor
Aliada de uma visão conturbada e fria
Quase sempre a tua ausência carrega o pavor

Meu amor, o tempo urge é voraz e não fia
Os momentos que se perdem, na distância
Entre o ir e o vir, o tempo, é gorda agonia.

«« Quando um filho nasce ««




É natal… quando um filho nasce,
É Natal quando a vida rebenta,
Em vivas forças, resplandecente maré.
É Natal, quando acontece em todas as horas.

Natal, a palavra mágica de todas as cores.
Natal, é a  hora de um parto, deslizar de lágrimas.
Alegria , expectativa , saudades.
Resvalam  ao primeiro minuto, são asas...

Saudade da criança traquina, mãe a chamar.
Saudades das brincadeiras, sorrisos abertos,
Saudades dos ralhos. Quero-te homem a sonhar.

Pelos trilhos do mundo sem arreios,
Quero-te filho gerado num dia de sol.
E que o Natal seja em todos os momentos.

«« Natal surdo ««


Por entre as paredes caiadas a luz brilha
Descanso o olhar no vazio infinito
Os sons apagaram-se como que por magia
No silencio meu olhar afoga o grito

Que teima em sair da garganta seca
Teima em libertar-se no espaço, aflito
Porque te esqueceste de mim nesta hora
Volto a olhar as paredes brancas, o meu espírito

Vagueia por entre a luz amarelada que
Envolve a casa vazia de nada, e de tudo
Tentando obter a resposta ao porquê

Do silêncio nesta noite em que expludo
Sinto-me corrompida nas minhas crenças
Afinal, serei eu , serás tu ou o natal que é surdo.

24 dezembro, 2009

«« Feliz Natal ««


Feliz Natal


Olha…
Lá fora a chuva cai
Bate no beiral e se esvai
Como quem corre apressado
Olha, o tempo parece cansado
É noite de Natal
No meu peito soa o sinal
Dizem que Jesus já nasceu
Que será que ele entendeu
Das mensagens das crianças
A pedir caras lembranças
Ele, que nasceu na manjedoura
Teve por vestes a aurora
Que será que ele pensa
Deste mundo força imensa
Um descomunal compassado
De pressa num supermercado
Olha …
Lá fora a chuva cai
Corre, corre e lá vai
É natal
Que a prenda seja real
Na árvore que trás a vida
Muito carinho, ternura aquecida
Pelo espírito de Natal
Amanhã de manhã, olha, olha para o beiral
Por onde a chuva escorreu
Lá estará digo-te eu…
O meu voto de boas festas
Muito amor, umas lágrimas delicadas
Que teimaram em escorrer
Teimaram em aparecer
Ficaram no teu beiral
Meu amor, feliz Natal.

Júlia Soares ( Pseudónimo )

«« Feliz Natal 2009 ««


É Natal…

A chuva cai lá fora
Lava as ruas num vendaval
O pássaro pia ao relento
Como pia o meu pensamento
É Natal
Queria ser brasa viva
Aquecer aqueles, que andam à deriva
A criança que chora com fome
O velho que um dia foi homem
Na noite de Natal
Aqueles que não tem chão
Nem amor, nem compaixão
A quem todos viram as costas
Baixam a cabeça,horas mortas
Vagueiam num lamaçal
É Natal…
Peço desculpa por não escrever bonito
Não consigo, um apelo ao meu instinto
Mas… não sai nada
Segredo-lhe meio zangada
Digo-lhe, é Natal
Mas, apenas me saem palavras sem graça
Fortes , talvez lhe ponha mordaças
Não… deixo correr a tinta
Deixo escrever o que dita
O espírito de Natal…


A todos um bom Natal

19 dezembro, 2009

«« Abraço apertado ««


Envolve-me com o teu abraço apertado
Afaga os meus cabelos, quero adormecer
O dia que passou preciso esquecer
O corre, corre da vida é vil e ingrato

Aninha-me no teu peito meu amado
Deixa entrar a lua que vem absorver
As penas que sinto enquanto mulher
Que o mundo olha, olhar nublado

Deixa entrar a lua e com ela a noite fria
É de noite que a alma se liberta
Se renova, deixa-me esquecer o dia

Frio cinzento, afastada da coberta
Que são os teus braços, sempre que
Neles me anafo, renovada descoberta

«« Barco ««


Num remoinho que eleva a alma que chora
Cai-se em queda livre, sempre que a dor aperta
Sempre que uma nuvem cinzenta se acerca
E derrama sobre nós fria trovoada

Tantas dúvidas e tantas ilusões
Somos feitos de matéria incompleta
Vagueamos, mortos vivos na cauda de um cometa
Atracamos nosso barco num mar de queixumes

Meu amor, a vida é cor de rosa
Sempre que se acorda de manhã
É doce como o sumo da romã
Afinal a vida é airosa

Somos nós que a complicamos
Ajustamos o dia em nosso favor
Somos nós que tapamos o esplendor
Da manhã ensolarada, somos nós que a desfeamos

Meu amor
Somos nós que atracamos
Nosso barco num breve momento
E dizemos bom dia ao amor

Mas depois corremos, corremos,
Já cansados perdemos os remos
Afundamos,
Boa noite, finalmente adormecemos!

Júlia Soares ( pseudónimo )

17 dezembro, 2009

«« Olho a distância ««


Calo o grito amarelecido pelo tempo
Um laivo de infelicidade e nostalgia
Ai quem me dera que o dia não fosse lento
Quem me dera não ter que fingir que ria

Da distância que me desfaz o alento
O sonhar, o crer, estranha assimetria
Que assimila um ressentir sonolento
Meu amor perco o tino quem diria

Ao pensar na distância que separa
O portal da tua porta e da minha
Meu amor perco o tino, mas quem repara

Que quando acordo de manhãzinha
Corro p´rá janela e olho ao longe
Meu amor…vou esperar pela noitinha.

Júlia Soares ( pseudónimo )

«« Distância ««


A distância amordaça algumas vontades
Anula o fascínio de um toque um olhar
A distância é a mãe de algumas ansiedades
É mentor infeliz do talvez, se calhar

Se calhar a gente ousa ouvir, as realidades
Tantas vezes ditas, em frases por escutar
Se calhar a gente ousa aceitar as vontades
Camufladas em sinais tão simples

Como simples é a aragem que corre suave
Numa tarde de verão intenso
Aragem que transporta tanta saudade

De um tempo em que o olhar era imenso
Via através da cortina esgaça do pensamento
Mas a distancia, deixa tudo em suspenso.

«« Aqui Estou ««


Transporto no sangue um raio azulado
Uma esperança, uma dúvida, um grito calado
Transporto na alma, um energia fugaz
Que num silencio irrequieto, me diz tanto faz

Que corras, que grites, que digas que não
O sol está em brasa, não estendas a mão
Levanta-as aos céus, numa prece singela
Olha meu amor, entrou pl`a janela

O vento suão, transporta nas asas
Saudades tuas, são faúlhas em brasa
Olha meu amor, o tempo parou
À espera que voltes, meu amor aqui estou.

Júlia Soares ( pseudónimo )

«« Pensamento ««


Nas curvas e contracurvas do pensamento
Enrosco-me como quem se embrenha num tear
Nos altos e baixos que deslizam no tempo
Anafo-me na preguiça de um dia abalar

Serra abaixo como quem salta prá morte
Ou será como quem espera a chegada
De um dia que adormeceu, esqueceu a sorte
Quem diria que me sinto confusa e cansada

Assim o tempo passa e eu perco-me do crer
Principalmente perco a noção da realidade
Sinto que sou uma moira malfadada, e o ver

Esse , tapo o sol com a peneira, mas que maldade
O meu pensamento é atroz, leva a vida a correr
Porque corre tanto, o dia termina, e eu finjo não ser.

11 dezembro, 2009

«« O poeta aos meus olhos ( XX final de um ciclo)


Bocage

Assim te cantei nobre poeta sem norte
Tuas dores vesti fiz delas meu burel
Nos versos que espalhei em branco papel
Matizei ao de leve, a tua infeliz sorte

Aqui e ali revi tua devoção a trote
Nos sonetos que escreveste, doce mel
Sim poeta, meu instinto me impele
Que pegue no teu verso, te roube o mote

Tentei moldar-te ao meu jeito dolente
Pobre de mim, tua aura não se prende
Foste e serás um poeta diferente

Do Bocage que o mundo ri e canta
Encontrei-te perdido, num todo se sente
O Bocage, que o mundo de hoje espanta

«« Ao sul ««


Mais ao sul encontro a paz
Quando olho a paisagem sonolenta
Ao longe avisto o vulto ambíguo da esperança
Aquela que recolho na flor que teima em nascer
Sob a terra gretada, pelo Inverno que ri
Do ar desolado desse chão gretado
Pelas lágrimas de uma criança que chora
Chora quando canta o melro
Chora quando canta o gaio
Apenas ri quando o vento sopra

Ao sul encontro a paz.

A paz que perdi na infância
Encontro-a quando te recordo
Quando lembro o teu olhar adocicado
O teu ar embriagado
Pelas minhas emoções.

Meu amor, ao sul encontro a paz
Porque te encontrei.

Júlia Soares ( pseudónimo )

«« O poeta aos meus olhos ( XIX ) ««


(A chave)

Viver ou morrer

Não, não soube viver, trilhei caminhos de pó
Desenraizado neste mundo doido e cruel
Servi-me das palavras sem pudor ou dó
Por vezes saíram doces, outras de sabor a fel

Escrevi sobre o que vivi, sobre o que mais amei
Pedaços de mim que soltei nas asas do vento
Deixei ao mundo retalhos que enfeitei
De esperança e sonho num breve momento

Vivi em ânsia e desatino, tudo e nada
Buraco negro que me devoraste, sim
Aguas revoltas, espada de ponta afiada

Nau Catrineta onde naufraguei, ai de mim
Naveguei esses mares em busca acidentada
Regressei de bolsa vazia, ai morte vieste enfim.

06 dezembro, 2009

«« Lágrima ««


Enxuga-me as lágrimas, sim enxuga
Recolhe-as numa taça de barro
Vermelho da cor da terra
Enxuga-me as lágrimas, deixa-me ser quem era

Deixa-me chorar, lembrar a criança
Que um dia sonhou que crescia
Junto à mortiça lareira
Onde brilhava a minha fantasia

E tu estavas lá, embalaste-me os sonhos
Um dia partiste o sonho quebrou-se
Mas, enxuga-me as lágrimas

E quem sabe um dia as lágrimas caiam
Na terra vermelha morrendo de sede
E quem sabe o sal dessa lágrima, lhe dará vida.

Júlia Soares ( pseudónimo )

«« O poeta aos meus olhos ( XVIII ) ««


( Penúria )
O Silva das Luminárias

Café Nicola teu berço, és apego
Velho amigo que vens de longa data
Nos improvisos que a moléstia arrebata
Achaste um meio de me dar aconchego

Josino amável em tuas mãos entrego
O derradeiro que nasce em cascata
Que consegues trocar por ouro e prata
Dás-me alguma paz, algum sossego

Não foras tu de fome já morrera
Não fora Deus, descrente viveria
Mas a paz ombro a ombro me acolhera

Desfiz-me do velho valor errante
Vestígio louco que me antecedia
A mocidade repousa em dor bastante

«« O poeta aos meus olhos ( XVII ) ««


( Inimigos)
Reconciliação

Excitação em turbilhões de ciumes
Desequilíbrio de uma vida anormal
Tantas vezes me afundei no pantanal
Lamacento de agruras e ansiedades

Inimigos de outras eras de qualquer cor
Se abeirarão de mim de afiado punhal
Agora trazem-me rosas de um roseiral
Anália, em tua lágrima relembrei o amor

Curvo Semedo, em lutas renhidas
Dilaceramos o ventre das palavras
Vejo-te caírem lágrimas sentidas

Padre José Agostinho de Macedo
Em sátiras sangrentas rimavas
Agora te abeiras, e me rezas um credo

05 dezembro, 2009

«« O poeta aos meus olhos ( XVI )


( Desequilíbrio)

De copo na mão

De copo em copo vou naufragando
Acendo cigarros tal arma na mão
Morro de amores, devaneio e paixão
Doutrina de vida, que me vai matando

Abraço a pena, vou escrevendo voando
Estátuas que me olham sem asas, ou ilusão
Piedosamente cultivo retalhos em abolição
Na fragrância em que me vou observando

As fraquezas que passo, os dias sem almoço
A janta que não chega, no pão que se definha
A cada dia que passa sou um cão sem osso

Labaredas que me consomem sem
Resistência, morte que se avizinha
Poema de todos que não é de ninguém

04 dezembro, 2009

«« Os teus passos ««


Os teus passos são uma valsa de Schubert
São o lago dos cisnes de Tchaikovsky
São o vento que desliza charneca fora

Esse toc, toc na calçada
Elevam-me ao pico de uma ilha deserta
Por lá me fico, de tudo alheada

Ao som dos teus passos quero adormecer
Nessa melodia quero me perder
Ao som dos teus passos

Eu quero viver.

Júlia Soares ( Pseudónimo )

«« O poeta aos meus olhos (XV)


( Esforço)

Lar

Nos claustros do convento, se abeira a luz
Carrego em meu seio o aprendizado
Finalmente homem aprimorado
Empresto meu dom àquilo que seduz

Irmã te acarinho carrego a tua cruz
O pão-nosso-de-cada-dia te é dado
Honradamente ao trabalho adaptado
Passado errante vejo-te a contraluz

Mas eis que me rasteira o demente
Abominável juízo que me é tecido
Ao mostrar o erro concreto ao velho mestre

Tebaida poema, épico latina
Nicola porto onde entro perdido
Pega em papel e lápis, escreve a tua rima

03 dezembro, 2009

«« Desculpa amor ««


Desculpa amor
Por hoje não me apetecer sorrir
Não repetir em frases banais
Está tudo bem
Desculpa amor
Por hoje ter visto um vazio cinzento
Em gestos rotineiros
Desculpa amor
Mas hoje olhei-me no espelho
Assustei-me com o que vi
Uma sombra difusa

Sabes amor
Há quanto tempo não passo daqui
Os filmes que nunca vi
Os lugares que não visitei
A palavras que nunca escutei

Desculpa amor
Mas hoje tive pena de mim.

Júlia Soares ( Pseudónimo )

«« Sobrevivência ««


Olha ali está o pico da sorte, ao lado está Deus
Ali está o norte, mais à frente a frustração
E eu perdida julgo que sei tudo

Navego num mar de acalmia, em nó corredio
Tento disfarçar que nada sei, nada sou
Afinal, porque caio e me levanto, porque choro

No meu choro abafado disfarço o riso
Rio da vida, contra-senso
Afinal sou uma árvore tombada

Sou madeira cortada, na qual a raiz sobrevive.

Júlia Soares. ( Pseudónimo )

«« O poeta aos meus olhos ( XIV ) ««


( Hospício )

Clausura

Deus misericordioso, ampara
As fraquezas da alma humana
Pavorosa ilusão que me chama
Eternidade, mulher sem máscara

Morte, alma negra moléstia barbara
Sepulcro que soterra, pobre insana
Questiono morte tens vida alem chama
Ou és apenas ladainha que proclama

A doutrina dum santo que é oficio, e são tantos
Os mandamentos, os pecados o cristianismo
Enclausuram-me no convento no meio de santos

Pina Manique, mui nobre e benevolente
Príncipe Regente amparam-me no abismo
Os meus versos, são a paga, o meu presente

«« O poeta aos meus olhos ( XIII ) ««


( Censura )
As moscas

Pobres tolos julgais vós que me calais
Venham policias de malha apertada
Clandestinamente grito na alvorada
Os versos em sangue pelos arraiais

Negros sois vós sim homens banais, iguais
A moscas que morrem antes de nascer
O poema vivo é força, e há-de vencer
Escutem, não me calarei, mudo jamais

Por entre as grades do limoeiro
Apelo na minha aflição ruidosa
Marquês de pombal, nobre cavalheiro

Nobres senhores, império de gigantes
Errarei na minha fé, sublime e majestosa
Liberdade no génio, mãe dos simples

02 dezembro, 2009

«« O poeta aos meus olhos ( XII ) ««


( Labareda )

Mundo novo

Renasce das cinzas de velhos incautos
Surge um mundo novo, as ideias a seus pés
Transportam-se nas aguas de novas marés
Destituem arcaicos e valores antigos

Como não comungar digam-me vós
Poetas do preconceito gasto em que crês
Que são senhores de palavra cortês
Deixem este mundo evoluir em anelos

Deponham os velhos valores, sem norte
Deixem que a luz apareça brilhante
Fechem o despeito em cofre forte

Carreguem nos ombros a nova palavra
O mundo caminha para um rumo distante
As vozes que me criticam, morrem na safra

28 novembro, 2009

«« O poeta aos meus olhos ( XI ) ««


( Regresso )
Lisboa a seus pés

Voltei nos braços nus da branca aurora
Regozijo em madrigais orvalhados
Ai saudades desta Lisboa e seus fados
O trinar de uma guitarra pra sempre chora

Nova Arcádia acolhes-me, agora
Reconheces os meus versos inebriados
Seduzes-me nos poemas declamados
Mas logo, bato a porta e vou embora

Gentinha em rodopio bate no peito
Poeta maldito sim mas de génio
Nunca poeta mudo ou contrafeito

Felinto mestre, grande e senhor
Em missivas arrasas este convénio
Que por força me quer mudo, o coesor

27 novembro, 2009

«« O poeta aos meus olhos ( X ) ««


( Macau)
Amigos

Encharcado de misérias existência torta
Avistei Macau terra da sobrevivência
Vi a morte, abracei tristemente a falência
Por milagre bons amigos me abriram a porta

Abraçaram o infortúnio que me transporta
Por caminhos tortuosos de dor e carência
Deram nova esperança à coexistência
Aprendi que amizade é aquilo que importa

D. Maria, Silva Ferreira, Pereira de Almeida
Até vossos filhos me aconchegaram no peito
Mostraram-me a aurora, julgara-a perdida

Com Beckford chegou o reconhecimento, sim
Brilhou minha estrela, merecido respeito
Versátil encantamento se abeirou de mim.

«« O poeta aos meus olhos ( IX ) ««


( Falência)
Triste

Apregoam-te pelo preço do brilhante
Que tentam a todo o custo impingir
Goa vaidade vil, decadente, prestes a ruir
Aparente ganância, soberba abundante

Na boémia, me esmago lentamente
Por entre amores, deixei de saber sorrir
Na cama agonizo, em pesado sentir
Recupero, entre pintos sigo em frente

Hoje promovido a tenente, vou a Damão
Sitio, sem apego, deserto, vou embora
De bagagem, levo miséria em cada mão

Macau sigo o sonho, num barco à deriva
Em Cantão me achei perdido, na desonra
Pátria minha triste hora, a da partida.

26 novembro, 2009

«« O poeta aos meus olhos ( VIII ) ««


( Amores )
Gertruria

Gertruria a flor primeira, do meu jardim
Desponta, nas horas leves da mocidade
Flor de beleza tal, perdi-te nessa ansiedade
Que me sepultou, em águas frias, te arrancou assim

Ritália, Márcia, Marília, sereias, amores sem fim
Borboletas que me trazem felicidade
Em outras noites transportam a saudade
Da pátria, do Tejo, dessa Lisboa, ai de mim

Perdido por entre amores, como corais
Os carrego no meu peito, nas horas mortas
Recordam-me os tumultos em vendavais

Elmano, grito no derradeiro instante
Não olhei para trás, me afastei da porta
Gertruria amor cimeiro, mas tão distante

«« O poeta aos meus olhos ( VII ) ««


( Mar )
Consciência


Águas calmas tranquilizem a existência
Do que sou, homem perdido, de vida parca
Filho de um tempo regido pelo monarca
Rei e senhor, de um império em efervescência

Mar dos deleites, nos medos a consistência
Entre o sonho e a realidade, pobre abarca
Que me calças, ilusões, assim que embarca
Nessa nau, onde navega, a minha consciência

Mar revolto, não, não me olhes jamais
Vira-me as costas, sou filho infame
Sou poeta renhido, tentando igualar os demais

Enraizado nos delírios existenciais
Que fustigam a que bem alto brame
Homem, poeta, não me calarei jamais.

«« O poeta aos meus olhos ( VI ) ««


( Camões )
Agonias

Camões, o teu grito chega por entre as vagas
- O modelo serás dos desgraçados.
Enxofre onde afundo os meus brocados
Tempestade de nuvens assombradas

Nuvens negras de chumbo disfarçadas
Fantasmas que me ferem, os malfadados
Camões, poeta, para mal dos meus pecados
Vida que desfazes nas minhas lágrimas

Porque teimas e aproximas na grandeza
Nereida marco teu rumo, e conto estrelas
Senhora da vida faz-me ver com clareza

O clarão do poeta que me lembra alegria
Ajuda-me, arranca as dolorosas lágrimas
Ou então, cala p`ra sempre a minha poesia.

24 novembro, 2009

«« O poeta aos meus olhos ( V ) ««


( Duvida )
Poeta triste

Fui clássico, ou será que fui romântico
Duvida em que agonizo, pouco a pouco
Fui marinheiro, poeta triste, e louco
Fui sonhador, transbordei o ser num cântico

Embrenhado entre musas e esse Atlântico
Oceano onde perdi a alma, num grito rouco
Nem o Pacifico me amparou, tampouco
Morte que espreitas nesse universo quântico

Ah , Gertrúria paixão sublime onde agonizo
Nesse silêncio que me mata, meu delírio
Ansiedade onde facilmente ajuízo

Por ventura o meu amor renegaste
Já não me queres, definho nesse martírio
Será, que algum dia por mim choraste.

23 novembro, 2009

«« O poeta aos meus olhos ( IV ) ««


( Grito )
Mãe

Pobre mãe que já partiste, estou tão só
Sinto-me perdido, com frio e há deriva
Cruel vida madrasta, vil enegrecida
Sim preciso de ti, mãe, que viraste pó

Criança, caminho coberto de penas e dó
Encalhei em rio negro de agua conturbada
Falta-me o teu doce carinho mãe amada
Volta, nem que seja por um instante só

Aperta-me em teus braços doces, aconchegantes
Embala-me nesta noite fria, e tão escura
Deixa-me acreditar, que tudo é como dantes

Um afago teu e abraçava o sol, acreditaria
Que um dia, navegarei em mar de gigantes
Que lá longe ao sul, existe uma estrela luzidia.

22 novembro, 2009

«« O poeta a meus olhos ( III ) ««


( Mágoa )

Miséria tosca

Ai gente, em teu delírio me amas e matas
Sou popular ando de boca em boca
Anedota burlesca de miséria fosca
Cruz que carrego, remoinho que me tragas

Meu povo rude, pensando que me afagas
Em chalaças que proliferam como moscas
Recordas-me em linhas perdidas e toscas
Tanto me cantas, tanto te ris, e disparatas

Mais de dois séculos carrego esta sina
Já é tempo de me olhares com novos olhos
Procura-me, no soneto que encanta na rima

Onde desfolhei meus sonhos em molhos
Atados com uma fita de seda leve e fina
Engalanei-os de cor rubra e soltos folhos.

«« O poeta a meus olhos ( II ) ««


( Existo )

Eu, Manuel Maria du Bocage

Manuel Maria, pelos amigos chamado
O Bocage, como o povo me sonhava
Escrevi meus versos, dor que anunciava
Lembrança viva de poeta, tresloucado

Triste sina, de era em era recordado
Na anedota e chalaça que me cantava
Obra encoberta, pi-léria que matava
O poeta nobre do soneto aprimorado

Manuel Maria du Bocage, sim senhor
Filho segundo de um pai que era juiz
Boémio errante, escrevi meus versos em suor

Envolto em sofrimento, deveras infeliz
Eu poeta, eternizei-me em trovas com clamor
Versos revoltos, de quem não foi, na vida aprendiz

20 novembro, 2009

«« O poeta aos meus olhos «« Inicio de um ciclo de vinte sonetos dedicados à vida e obra de Manuel Maria Barbosa Du Bocage ««


.......................I

............O poeta aos meus olhos

Olho-te poeta do retiro da minha existência
Tento sondar-te o fundo da alma em turbilhão
Tento decifrar as dores, que te mataram de paixão
Diz poeta, será que te olho com clarividência

Ou será que é apenas difusa pertinência
Ai de mim aprendiz das palavras, guardião
De poetas doutras eras que moldaram a razão
Tu, Bocage, rei e pedinte, sonho e essência

Peço licença para te tomar os feitos
Para te cantar em trovas singelas, sim
Guia a minha pena, ensina-me os acertos

Mostra-me o caminho que me eleve a ti
Guia os meus passos por alamedas de jasmim
Que o poema se enleve em tudo o que aprendi

17 novembro, 2009

«« Sonhos imperfeitos ««



Na minha pele cravaste o olhar abismado
Talvez visses um fruto de leve tom rosado
O teu olhar seguiu-me por um instante alado
Num tempo em que o tempo esteve parado

Seguidamente o tempo virou passado
Envolveu-se num baço manto agastado
Ao som de um trinado de um triste fado
Ondulou os sentidos num mar revoltado

Na minha pele uma nova ruga nasceu
Com o timbre dos sonhos imperfeitos
Afinal o fruto de maduro apodreceu

Mas, caiu no chão adubou socalcos amargos
De uma terra que teima em ser vida
Quem sabe amor, a terra criará forte laço.

«« Em uma esquina ««



Cruzei-me com a tristeza numa esquina
Olhou-me, era minha conhecida
Abraçou-me um abraço enternecida
Afinal só eu te resto, sou tua sina

Segredou-me ao ouvido, eras menina
Embalei-te nos meus braços, estarrecida
Que fizeras para me teres por toda a vida
Respondeste num sussurro, força divina

Que fazer quando o sol fica sem brilho
Que fazer quando as dores são a dobrar
Diz-me minha amiga qual é o trilho

Para um aconchego me embalar
Ter um sorriso logo pela manhã
Quem me dera adormecer, não te encontrar

12 novembro, 2009

«« Amanhã ««


Amanhã se o sol não nascer, dormirei
Envolta na névoa bastarda que resguarda
O nada, das vidas ocultas numa mansarda
Sebenta, olhos esbugalhados…não reflecti

Que o sol nasce todos os dias, fui eu que me abstraí
Num hoje agoirento de um nada em faca afiada
Guiei-me através da mente baralhada
Tive pena de mim, apenas eu me traí

O sol esse, brilhou no horizonte de frente
Olhos nos olhos, mostrou-me o amor sincero
Embrulhado em fino papel transparente

Que mostra o interior do que sinto e quero
Talvez não saiba dizer as minhas aflições
Mas tu chegas lá, quando menos espero.

08 novembro, 2009

«« Espaço ««


Não existe espaço… podemos ser um,
Escaparate, até mesmo um grande amor
Mas vivemos apressados, tudo é incolor
Não existe tempo nem sonho algum

Que se imponha à lei da sobrevivência, num
Momento andamos em frente, uma flor
Nos chama a atenção, lá vem uma força maior
Viramos as costas, em instante algum

Nos expomos à nossa vontade, inútil
Somos telecomandos ao sabor do quê
Do supérfluo, daquilo que é fútil

Adiamos a existência sem olhar o porquê
Da flor que cruzou o nosso caminho
Por vezes já tarde… acordamos em choque.

06 novembro, 2009

«« Pressa ««


Deveria o amor saber ouvir, saber ler nas entrelinhas
Não perder tempo a contar as cintilantes estrelinhas
Que ofuscam a razão, mas apelam ao coração
Num toque suave fascinação
Deveria o amor saber dizer, que o tempo pára
Sempre que olhos nos olhos a paixão se encontra
Que os dias viram noite e vice versa, sem muita conversa
O amor nunca deveria ter pressa

Mas… e a dor, deveria o amor reconhece-la
Mesmo no silêncio, deveria escutar compreende-la

Num tempo longínquo acreditou que sim
Que um dia o amor se abeirava de si
Num pequeno toque trespassaria a alma
Num deslizar suave exponha com calma
As suas fragilidades
Mas o amor é apressado procura emoções de todas as cores
Esquece que deveria ser o porto seguro
De um certo coração imaturo
Na arte de amar
Deveria ter a força para aconchegar
O corpo cansado na noite fria
E reparar na lágrima enquanto sorria

O amor não a viu, estava apresssado…