Poemas declamados

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26 fevereiro, 2010

«« Beija-me as mãos ««


Beija-me as mãos
Como se fossem rosas
Transborda a emoção
Nas horas mortas

Beija-me as mãos
Como se fossem cravos
Acabados de colher
Mesmo brancos desmaiados
Beija-me as mãos
Os cravos cheiram tal como as rosas
Ao despontar alegre e viçosa
De uma manhã de verão.


Júlia Soares ( Pseudónimo )

«« Contigo falo de amor ««


Contigo falo de amor
Mesmo quando estou zangada
Contigo falo de dor
Outras vezes falo de nada

Palavras repito no vento
Meu amor, és vida minha
És meu sol o meu alento
Minha chuva miudinha
Meu amor, és guardador
Do acordar na madrugada
Das lágrimas de tudo e nada
Do rir, e do meu clamor.

Júlia Soares ( pseudónimo )

25 fevereiro, 2010

«« Mulheres ««


Falo de rosas brancas
De vermelhas, amarelas
Falo de rosas, rosa, lindas e singelas
Falo de mulheres brancas
Negras e asiáticas
De mulheres, livres e francas

Falo também das outras
Das mudas e oprimidas
Das cansadas, ressentidas
Daquelas que já estão mortas
Mesmo estando ainda vivas
Falo das oprimidas
Pela sorte e p`las adagas

Falarei das que já morreram
Pela mão da hipocrisia
Filhas sem dinastia
De um reino que sustiveram
Com o suor do dia a dia
Massacradas na acalmia
Pelo desprezo que lhes deram.

22 fevereiro, 2010

«« Esvai-se o verão ««


Que serve falar de amor, em frases banais
Porque nos montes o cume fica no alto
Porque se finge em gestos de sobressalto
Afinal porque pia o melro nos olivais

Falas de amor, palavras mil, são milheirais
Por onde o vento corre rumo ao planalto
São orquestra sem maestro, são frio asfalto
Por onde os meus sentidos se esfumam em ais

Falas de amor, palavras ditas em contra mão
Por um momento, perco o tino e a razão
Logo a seguir, deito-me à terra, num abanão

Que me gela a alma, estou sozinha que aflição
Lá adiante está o sol, foge apressado
Vai deitar-se em outra cama, esvai-se o verão

21 fevereiro, 2010

«« Silêncio ««


Falei das minhas mágoas a uma gota de água
Enquanto falava, outra gota apareceu
Falei ás duas, de alguém que envelheceu
Andando à deriva a bordo de uma tábua

Tábua rasa, que me encobriu da mingua
Do frio, do escuro da noite que me envolveu
Do silencio que veio, e a mim se prendeu
Ouve-se ao longe, subindo a minha rua

Falei ás gotas de água, da falta de barulho
Que me rodeia na devastação ingrata
Que mostra a frieza ferindo o orgulho

Por suster o grito na seca garganta
Por calar o choro de alma amarfanhada
Pelo silêncio que fez da minha, a sua morada.

12 fevereiro, 2010

«« Pergunta à noite ««


Pergunta à noite ou então pergunta-me a mim
Ambas te responderemos que a solidão
Vagueia pelo Alentejo em combustão
É a sina das gentes que nasceram aqui

Pergunta à noite ela te falará assim
O sangue que desliza no vento suão
É o meu e o teu, é o de um milhão
De sonhos, e sorrisos que vagueiam e por fim

Se cruzam na planície velha e cansada
Mas mesmo assim consegue virar a página
Em cada gota de água tresmalhada

Pelo agreste do frio que nos gela a alma
Pergunta-me a mim, eu te direi que a ausência
Por vezes é a força que me trás átona

«« Pote translúcido ««


No dia em que as estrelas caíram, com elas
Caiu um pote de vidro, vidro fino
E translúcido, onde tranquei o destino
No mesmo pote guardei algumas lágrimas

As que deixei de chorar em criança, as agruras
Também lá estavam, ao lado um violino
Tocava uma música infernal sem tino
Sempre que em menina sonhava com brisas

As brisas que imaginava que o teu olhar traria
Os beijos, os afagos, nas horas mortas do dia
E os sonhos de que seria feliz por um só dia

E agora que o pote caiu, esbateu-se a alegria
Deixei de sonhar, de olhar e saber ver o sol
Onde a nuvens teimavam em pairar, quem diria…

11 fevereiro, 2010

«« Cair da noite ««

Se eu dissesse que não tenho saudades
Mentia, não te mentia a ti, iludia-me a mim
O dia parece maior, as flores murcharam, enfim
Como murchou o rir daquela que conheces

Mas, porque haveria de rir, talvez penses
Porque as mulheres devem rir, imagino-te sim
Olhando o dia desgastado, venha depressa o fim
Que a noite caia, e um apagão destrua as cores

Que envolvem a cidade, talvez encubram
A gélida realidade, a tua, e quem sabe a minha
Que o escuro tape o lado funesto, que cubram

As estrelas que teimavam em cintilar
No meu olhar, aquele com que te olhei
Ao mesmo tempo em que entreguei o meu acredita

«« Só ««


Um dia acreditei na vida simples
Acreditei, que encontrava o amor
Numa esperança renovada, esvaia-se a dor
Um dia fui outra mulher, vibrava com as cores

Do arco íris, conseguia ver-me através
Do cinzento da vida, conseguia sentir o odor
Do rosmaninho, bebia o orvalho com sabor
A terra molhada, e era feliz, apesar dos cortes

Que a existência ia escrevendo no meu olhar
Depois, veio a primavera e acreditei
Que o campo floriria para não voltar

A ficar árido, louca, na loucura me abstraí
Acreditei, de seguida esqueci-me de olhar
O Inverno chegou, estou só… só agora é que vi

10 fevereiro, 2010

«« Escasso ««


Não me dói a indiferença de quem passa
Tão pouco daqueles que só me conhecem
Não me dói o não em palavras que caem
No vazio de um aperto de mão, escassa

É a confiança no dia por detrás da vidraça
Por onde os sonhos se esvaem, nada os retêm
Escassa é a ilusão de que se tem alguém
Tão ténue que é que se esvai na fumaça

Que circunscreve o limite do horizonte
Por onde nos é permitido ir, retaguarda
É o limite que fica por detrás da ponte

Chamada ilusão, a minha alma está cansada
No limite de um monte agreste e vazio
Tão vazio que nada renasce, o tudo é nada.

05 fevereiro, 2010

«« O trinar da guitarra ««


Os nosso olhar se entre-cruzou, assim
Que o vento amainou e a chuva parou
Tal qual as cordas de um bandolim
Nosso olhar se cruzou, o dia avançou

Em direcção ao tudo que chega por fim
Depois da espera que a vida traçou
Floriram as rosas num belo jardim
Trinou uma guitarra, baixinho chorou

Fundem-se as almas em comunhão
Unem-se os corpos, quente madrugada
Bocas unidas, dadas as mãos por essa estrada

Plana ou em ziguezague, em abolição
Germina o amor, numa farta colheita
Duas lágrimas que caem, é o gemer da guitarra

«« Cadeira de palha ««



Esperei eu pelo amor
Sentada numa cadeira
De palha
Palha tão gasta e branca
Que a confundia com o alvor

Que inundava o meu céu
Sempre que a manhã sorria
Sentada nessa cadeira
Fui definhando, sombra minha
Até que a cadeira quebrou

Ao entrar uma andorinha
Que no meu colo poisou

Falou-me então ao ouvido
Num trinar suave e fresco
Levanta-te dessa cadeira
Desbrava o terreno árido
Estás viva, estás inteira

Olhei-a placidamente
Estou louca agora sei
As andorinhas não falam
És ilusão aparente
Vai-te, sozinha ficarei

Esvoaçou a andorinha
Pelo quarto abafado

Bateu asas e voou
Deixando atrás de si
Um recado

A cadeira já não volta
Quebrou-se com o bolor
Que o pensamento inundou
Acorda e faz-te à vida
O sol lá fora raiou

Acenei-lhe num adeus
Abri os olhos acordei
Entrou um ramo verde
Que apressada agarrei
Eram os braços teus

Caminhei à luz do dia
Mão na mão, uma jornada
Depois da chuva a acalmia
Duas vidas uma estrada.

04 fevereiro, 2010

«« Agora Penso ««


Ao chegar a noite descobri um campo de trigo loiro
O sol de Maio, um planalto de rubras papoilas
Encontrei, o meu chão, uma trave, o meu tesouro
Encontrei num areal um mar de brancas conchas

Despi-me por entre as sombras difusas e abstractas
Banhei-me nas conchas semigastas, retive um suspiro
Que encobriu as palavras gastas, por entre as lágrimas
Que fechei num pote, argiloso de um amarelo oiro

Que contêm o amor que te tenho, a forte corrente
Que me mantém suspensa átona de água, fria
Como fria era a falta que no meu intimo sentia

Sempre que chegava a noite e o silencio me envolvia
Esta noite meu amor, o meu sonho foi diferente
Agora penso, semearei esse campo e sigo em frente.

Júlia Soares ( pseudónimo )

«« Adeus Rosa ««


Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.


Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
a saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.


Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.


Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.


Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.


Rosa Lobato de Faria ( 1932... 2010 )

01 fevereiro, 2010

«« Realidade ««


Porque será que a realidade, se
Sobrepõe à vontade ao sonho e ao crer
Chega fria e sinistra, sem sequer dizer
Acautela-te, aqui estou com leviandade

Vou manipular-te, visto-me de vaidade
E tu, não passas de ventania a bater
De encontro ás minhas fantasias, o teu ver
É mera passagem tão leve como a aragem

Que se esvai sem retorno, a realidade
É assombração, chega sem avisar
É água gelada, é dia não em alto mar

A realidade por vezes colhe a vontade
De seguir em frente, turva o olhar
Mas, só nos comanda se a gente deixar.