Poemas declamados

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31 maio, 2009

«« verde ««


Carrego o verde nos meus olhos
O verde em campo aberto
Arrecado-o sempre em molhos
Com a esperança os aperto

Carrego o verde esmeralda
O verde mar, o verde serra
Enfeito de verde esta casa
A que chamo primavera

Quem dera que este verde
Se espalhasse até ti
Que ele te falasse da sede

De te ter ao pé de mim
Ai verde dos meus afetos
Veste-me de esperança, antes do fim

30 maio, 2009

«« Sou maldito comigo só ««


Penas que carrego no coração
Só eu as entendo, só eu as transporto
Pesadas como chumbo, minha solidão
Habituei-me a elas, já não me importo

Sou apenas maldito, comigo só
Vagueio sem rumo ou passaporte
Pari os meus versos por entre o pó
Não tenham pena, não chorem a sorte

A sorte que me embalou ao nascer
Dotou-me com as palavras fáceis
Palavra de que me sirvo a belo prazer

Sei que sou difícil de entender
Pouco importa, sou aquilo que sou
Poeta louco, que se perde ao escrever

29 maio, 2009

«« Aqui começa uma nova etapa neste espaço... tenho fascinação por contos tradicionais , sem grandes pretenções vou tentar escrever alguns.


««« PIRILAMPOS EM NOITE DE LUA CHEIA ««««


O Feliciano Mau Tempo é um rapaz um tanto ou quanto fora do normal, fala a vizinhança à boca pequena que em noite de lua cheia vagueia pela casa completamente ás escuras com uma rede na mão. Natural de Trás - os - Montes veio morar para o Alentejo de tenra idade, quando o seu pai fugido de um marido ciumento teve que se esconder por estas bandas, trazendo a família a reboque, por cá se instalaram os Mau tempo, sempre se comportaram de modo estranho e singular, para os costumes da região, sua mãe, Ermelinda, uma mulher sisuda,afastava-se das vizinhas, dada a poucas conversas, mantinha-se no recanto do lar, tomando conta do marido o Manuel calceteiro como ficou conhecido, ninguém lhe levava a palma a calcetar as ruas estreitas da vila, mas tinha o grande defeito de se embeiçar pela mulher alheia, e dos dois filhos, um rapaz o nosso Feliciano e uma rapariga sardenta tísica de aspecto, a Matilde, existia ainda uma avó mulher carrancuda mãe do Manuel e que lhe moía o juízo a torto e a direito.
Desta ilustre família só resta o Feliciano todos morreram uns atrás dos outros há quem diga que foi por pirraça quiseram deixar o rapaz abandonado à sua sorte, vá-se lá saber, mas que o rapaz é esquisito lá isso é, sempre sozinho, gosta de ler, escreve poesia e ainda por cima perde horas a fio perdido por esses matagais fora desenhando a natureza, diz quem viu que os desenhos até são jeitosos, mas onde é que isso leva comenta a Genoveva, rapariga mais ou menos para a idade do Feliciano a entrar na casa dos trinta, e em tudo contrario a este, namoradeira, pouco dada ás lide domesticas, mal sabe ler e escrever, porque o tempo que devia ter andando na escola passou-o na maior parte aos ninhos, com os rapazes da vila, dominar as letras na perfeição para quê? Se todos sabem qual vai ser o seu destino, trabalhar no campo, principal actividade da terra ou com um pouco de sorte alguns serão serventes e os mais prendados chegarão a pedreiros, as raparigas essas as que não forem trabalhar a terra encontrarão sustento como criadas de uma qualquer casa de família das muitas que por aqui existem, oram digam-me lá saber ler e escrever com mestria para quê isso lá enche barriga. Resmunga a Genoveva.
Genoveva, quem a conhece sabe o quanto gosta de falar da vida alheia, também pudera a dela é uma monotonia constante.
Aproveitando um dos passeios matinais do Feliciano embrenhou-se pelo carreiro que leva à casa deste e em surdina conseguiu entrar, arregalou o olhar, quando era criança tinha entrado uma meia dúzia de vezes naquela casa, nas alturas em que a mãe do Feliciano estava disposta a ouvir a correria e os risos das crianças, tudo estava igual, imaculada, parecia que tinha acabado de sofrer uma faxina total, nem um único objecto fora do sitio, lá estava o velho baú de madeira onde se gostava de esconder quando jogavam o jogo do esconde esconde, é isso, de repente Genoveva teve a feliz ideia, na próxima noite de lua cheia entra na casa esconde-se dentro do baú, será ela a desvendar o mistério das deambulações pela casa em noites de lua cheia na mais completa escuridão.
Nos dias que se seguiram a pobre rapariga mal conseguia comer, tal a ansiedade, a descoberta tinha um doce sabor ainda mais quando já passaram quase dois anos desde que o rapaz começou com aquele comportamento tão estranho e ninguém sabia o porquê de tal descalabro.
Finalmente noite de lua cheia, pelas dez da noite, tal gato vadio que não sabe o que é obstáculo para atingir os seus propósitos, a rapariga entra sorrateiramente pela porta dos fundos, assim que entrou aos seus ouvidos chegou uma doce melodia, parecia-lhe piano mas pouco entendida nessas coisas ficou na duvida, falou-lhe ao coração essa melodia, enquanto se enfiava dentro do velho baú, imaginou-se uma princesa de conto de fadas e o Feliciano o seu príncipe encantado, a arca essa era o castelo assombrado onde o rei maldito a mantinha cativa. A musica calou-se, passaram-se longos minutos que lhe pareceram anos, Genoveva manteve-se imóvel dentro da arca, chegou a passar pelas brasas, de repente os passos de Feliciano despertaram-na como se de um terramoto se tratasse, a medo levantou a tampa do baú a enorme sala apareceu-lhe fantasmagórica sob os reflexos frios da lua que inundava todo o espaço com a sua luz esbranquiçada, avistou Feliciano imóvel de rede em punho, os braços á altura da cabeça de onde pendia a rede, essa imagem recordou-lhe um soldado em pleno combate, tinha visto isso uma vez no cinema, um soldado de calções que se debateu até morrer numa luta desigual com um leão, pensando bem não era nenhum soldado, o nome era outro , mas que importa isso agora.
Num arremesso Feliciano jogou a rede pelo chão da sala, e caiu sobre si mesmo de joelhos, sem antes fechar as vidraças da enorme janela de sacada virada para nascente, lentamente retirou a rede, milhares de luzinhas elevaram-se por toda a sala, brilhantes de todas as cores, Genoveva, esquecendo-se que tinha entrado sorrateiramente na casa lentamente saiu da arca, seus olhos nunca tinham visto nada com tanta beleza, não sabia se chorava ou ria de felicidade, Feliciano tomou-a pela mão dando a impressão que sabia perfeitamente da sua presença e que não se importava nada com isso.
Passaram longos anos, Genoveva e Feliciano ainda hoje caçam pirilampos nas quentes noites de verão, ele ensinou-lhe tudo o que sabia, ela voltou á escola e amou-o com devoção, neste instante estão os dois de braços abertos cada um com a sua rede dando asas à fantasia.
Por incrível que pareça em metade da vila com as casas num silêncio total iluminadas pela luz da lua, apanham-se pirilampos, passou a ser normal andar no escuro com uma rede na mão por aquelas bandas, as pessoas gostam de poesia e os mais jovens aproveitam os anos escolares para adquirir sabedoria e conhecimento, tudo isto porque um dia uma jovem quase analfabeta meteu na cabeça que haveria de descobrir o que um certo rapaz fazia em noites de lua cheia.

28 maio, 2009

«« Onde me queres ««


Poderia dizer-te
Devolve o que tens meu
O sonho, a vontade,
De acreditar
Principalmente em mim
De ti nunca duvidei
Consegui ler por entre as linhas
Tudo o que retinhas
Aquilo que escondeste
Em tudo o que disseste

Foi fácil
Chegar ao fundo do teu eu
Talvez seja isso que não suportas
Quem sabe é isso a força torta
Que te afasta de mim
Viste-me morta
Sem saber
Pouco ou nada me fiz entender

Para quê
Cedo vi a minha realidade
Nessa ansiedade
Que tudo quer, tudo teme
Nada aceita
Sem ser a forma perfeita
Dos erros esconder
Dos meus bitola fazer
Num dedo a apontar
Num caminho a desencontrar

Viste o fácil que é desacreditar
Basta um momento
Para matar e enterrar
Tantas pernas para andar
Mas preferes gatinhar

Poderia pedir-te de volta
A confiança
Em lufadas de ar fresco
Mas como
Se tudo vês negro
Tudo é deserto
Onde derreto.
Onde te esqueces de ser feliz.
Onde me queres infeliz.

«« Tu e eu ou eu e tu ««


Tu, sim tu
Tu que exiges, em tão pouca entrega
Momentos fugazes de paixão e, carinho, momentos
Contados pelo relógio da aflição, do que deixaste pelo caminho
Mas exiges, nem te dás conta, tantas as cobranças tantas as desconfianças
Cobranças, palavra que não existe no teu dicionário
Por vezes penso que é fadário, mas não, é calvário
Um calvário a que te entregas, tentando que tudo tenha métrica
Contabilizas as emoções pela bitola dos matemáticos
Tudo se resume as fracções, porque te queixas das desilusões
Dos cansaços de quem tenta acertar o passo, mas perdeu-se no espaço
De tantas equações
Tu,
És tu que enegrece o dia, a alegria , quando tudo julgas,
Quando tudo pensas que muda, só porque não me apetece sorrir
Ou ouvir, porque sinto a vida a fugir, sem ninguém para me acudir
Era tão fácil mentir, dizer-te um Deus na terra, mas em tudo, tudo se erra.
O erro maior é o da hipocrisia, do amem todos os dias, do sim quando é não
Tu e eu
Átomos inconstantes agora como antes, na procura do perfeito
O nosso pecado foi esquecermos que em tudo existe imperfeição
Basta saber dizer, não, basta querer dizer sim.
Tu
Que um dia me fizeste sorrir.
Eu que nunca deixei de te mentir
Era isto que querias ouvir?

«« Perde a razão ««


Perde a razão por tudo e por nada
Quem julga, só por julgar, sem medir
Quem das penas faz sua caminhada
Quem se esquece que os outros sabem sentir

Perde a razão quem não sabe ouvir
Quem se perde em pré julgamentos
Quem esqueceu que fácil é fazer sorrir
Quem se contenta com um pouco de alento

Perde a razão mas não tenhas pena
De ti, deixa isso para quem te conhece
Aprende a ouvir, a vida fica mais serena

De que serve virar as costas em dilema
Por ventura viverás mais feliz
Cobrando da vida, afogando-te em pena

26 maio, 2009

«« Penas ««


Tantas são as penas que me envolvem
Tamanhas as magoas já esquecidas
Tantas são as duvidas que me consomem
Tantos conhecidos, alguns amigos, de vida

Desfolho um rosário de penas gastas
Deixo cada pena ao Deus dará
Uma lágrima cai, a pique como facas
Destas penas nenhuma restará

São penas que se esfumam no tempo
Penas que carrego, minha aflição
São penas, não deites lágrima ou lamento

São minhas, são o meu tormento, alento
Que me segura, a uma vida já tão gasta
Esquece a pena, não olhes meu sofrimento

25 maio, 2009

«« Sei que vais lá estar ««


Nas pedras lisas da calçada
Revejo a minha imagem já tão gasta, imagem que desconheço
Rolam pedras em delírio pela chapada do tempo
Levam na corrente, os meus anseios, os meus sentidos
Empurram sem ter dó, os meus sonhos, mostram-me um caminho,
Frio e nu, onde o pó da desilusão tomou conta da paisagem,
Por vezes a fria aragem, que corre a par pela chapada, diz-me…
Que o meu destino foi escrito, muito antes de nascer, como posso entender
Que o ventre que me fez viver, nada sabe de mim, como posso compreender
Que o mundo onde vou morrer, não me tenha escrito o fim
Quando me revejo nas pedras, sinto-me de alma nua, sinto que já fui tua
Sim tua, desconhecido em viagem, névoa parda da miragem, daquilo que sonhei ser
Daquilo que não sonhei ter, mas que um dia vou colher.
Pedras soltas na calçada
Pisadas por todos a eito, pedras soltas no meu peito, chocalham as ideias
Ideias que adormeço no leito, gelado em dia não, gelado na confusão
Na correria medonha, no barulho ensurdecedor
Que as pedras fazem ao rolar, como elas gritam sem parar
Parecendo me alertar, para o que me falta encontrar
Mas como,
Como podem elas, me levar, nesse mar a navegar, sem ter medo de naufragar
Porque sei que vais lá estar, esperando
Mesmo que nunca te encontre
É isso que as pedras me dizem, rolando.

«« O meu barco ««


Escancarei o olhar, reflexo, um novo dia
Vislumbrei o mar, lá longe fantasmas á deriva
Velas brancas que o vento fustiga em fúria
Neblina esbranquiçada, ténue expectativa

Fui espectadora num instante de alquimia
Cativa irracional, sim tornei-me seiva
Das ondas do mar, do cheiro a sal a maresia
Presa no reflexo, um olhar, uma vida

Expectante fiquei, não me vislumbrei nem revi
Muito menos te reconheci, sem sentido
No mar revolto, afastei-me de ti, do que vivi

Vi o negrume que nos envolveu perdido
Não restou nada, sei, mas não me arrependi
Apenas retomei ao meu barco, há muito ido.

24 maio, 2009

«« Aos poetas que estiveram presentes fisicamente e em pensamento no encontro Luso.««


A chuva límpida caiu em cascata
Regozijo da primavera
Acompanhou a visita guiada
Que se deu por entre a bela,
Terra de moira encantada
Valente guerreira errante
Guarda as arcas sagradas
Dos poetas viajantes
Não vão abrir a da peste
E ficarem cambaleantes

Eram vinte, todos atentos
Ás pedras que contaram
A história da velha muralha
Tantos séculos já passaram
Ela sobrevive á batalha
Por entre o sol e o vento
Mantêm seu porte altivo
Defende senhores e gentios
De moiro guerreiro vingativo
Chamado tempo.

Muralha doente e velhinha
Vai contando a sua história
Ao poeta que caminha
Pela terra da memória
Aqui e ali se deleita
Com a imagem sempre perfeita
Que descansa a seus pés
Cidade de Montemor
Abraça a muralha de lés a lés
Vai dizendo ao poeta com graça
O quanto é vaidosa por ser como é.

21 maio, 2009

«« Sedento««


Acordei
E vi o mundo ao contrario
No sitio da terra estava o céu
O céu esse, banhou-se no mar
Junção de dois corpos
Sedentos, de se amar

Os campos em flor
Cruzaram-se entre vielas
Becos e ruelas
Encheram-se de cor
As cidades
Vibraram de esplendor

As serras
Uniram-se ás planícies
Os pobres
Deixaram de o ser
Os homens
Esqueceram mesquinhices
Acreditaram
Como na meninice

Acordei…
E vi o mundo ao contraio
Caminhando lado a lado
Tornou-se solidário
Dei um passo…
Esfumou-se num ápice

20 maio, 2009

«« Pensei falar-te ««


Hoje pensei falar-te ,
As palavras não saíram, os verbos não se conjugaram
As ideias não fluíram, perdi a vontade de conversar
Hoje pensei dizer-te que te amava, não consegui
Não penses que deixei de te amar, não
Deixei de acreditar, de confiar
Simplesmente perdi a capacidade de imaginar mais além
Penso que deixou de existir esse além
Será que alguma vez existiu, ou foi imaginação
Quando uma lâmpada se funde, e não temos outra para a substituir
Assim acordei esta manhã
Num qualquer sonho agitado perdi parte dos meus sentidos
Perdi a parte que conversava contigo
Conversas em silêncio, em que só eu te ouvia
Falava-te da terra, da fonte de água fria
Contava-te as minhas dores, os meus desamores
Os sonhos perdidos num qualquer recanto coberto de pó
Falava-te das minhas esperanças, da necessidade de sorrir
De ser feliz
Disseste um dia, num desses longos diálogos quase em silêncio
Nunca a tristeza te vai abandonar, já é tarde para sorrir
Pensei nas tuas palavras dias a fio
Recusava aceitar, recusava imaginar
Esta manhã quando as palavras teimaram em não sair
Finalmente aceitei…
Não sei sorrir, nunca aprendi
E tu…. Não me ensinaste.
Esse foi o nosso erro.

18 maio, 2009

«« Fim de linha ««


Cansei de mim
Sim de mim
Do meu eu, do meu ego
Que não renego
Cansei, triste fardo
Que carrego
Aqui e ali escorrego
Quem me acode,
Não me acode
Foge, vai a trote
Saltando ladeiras, ribanceiras
Por entre os pedregulhos,
Que caiem ao passar
Fazem fileira
Tanto barulho
Por nada, acontecer
Tanto barulho
Como vou me conformar
Como vou adormecer
Neste gélido escurecer
Fim de linha
Que se avizinha
Que teimo em não ver.

Bendita água que a sede mata
Fonte perdida, minha quimera
Cantarolando, desliza em cascata
Jacto de vida sem primavera

Olhar brilhante de oiro e prata
Nascente de vida por encontrar
Moira encantada, querendo amar
Principio, de amor maior

Navegas em rude fragata
Palco da vida, vazio de actor
Olhos ao céu, tom sonhador
Percorres os campos
Fresco sabor
A fruta madura, a trigo a loiro
Esqueces no vento,
Que vem do sul

Perdeste-te em tons de azul
Cetim que desliza suave
Pelos meandros do pensamento
Convences-te por breve momento
Que encontraste, moiro moreno
Montando cavalo alazão
Cavalgando em verde clareira
Olhos nos olhos, mão na mão
Brasas de amor, viva fogueira

Bendita água que a sede mata
Quimera minha, sonho enjeitado
Alma dorida escorre em cascata
Leito de vida, que jorra em lágrima,
Solta um murmúrio desajeitado
Pelo vento é apagado.

15 maio, 2009

«« O teu olhar ««


Enleio-me no teu olhar
Vejo estrelas a brilhar
Vontade de te abraçar

Busco nesse olhar
Desejos a germinar
loucos,
Anseios a matutar
Doces prazeres,
Sabor a mar

Desnudo-me no teu olhar
Dou por mim a pensar
Que bom,
Que é puder olhar
Esses olhos puder amar
Ter esse olhar,
Para me embalar.

14 maio, 2009

«« Bom dia ««


Digo bom dia..
Ao sol
Ao dia que nasce
Aos campos floridos
Aos madrigais
Digo bom dia
Aos meus ais

Por não te ter
Por só viver,
Em mim,
De mim para ti
Só, me reconhecer
A escrever…
Mesmo que nunca
Vás ler

Digo bom dia
Ao novo poema
Acabado de nascer
Nasceu da solidão
Que a noite trás
Conta-te
Todas as vidas
Que deixei para trás
Conta-te
Todas as rimas
De que fui capaz,

Digo bom dia
Ao poema
Procuro nele
A minha paz...

11 maio, 2009

«« Mão na mão


Apetece-me caminhar por aí
Mão na mão, calor no coração
Apetece-me caminhar por aí
Ir ao encontro da vastidão
Dos campos em flor
Das aguas que correm
Longos caminhos percorrem
E nunca, nunca se cansam

Apetece-me viver
Apenas por viver
Sem precisar entender
O significado seja do que for
Principalmente da dor

De não ter quem caminhe
Lado a lado
Quem se fascine
Quem me olhe abismado
Quem saiba do que escrevo,
Porque escrevo
Para quem escrevo
Mesmo antes de escrever

Talvez me expresse mal
Por isso não tenho ninguém,
Deve ser a razão de certo desdém
Deve ser isso
Tem que ser isso
Só pode ser isso…afinal.

«« Preciso do teu abraço ««


Preciso do teu abraço, tanto
Como preciso de ver a luz do dia
Como o céu precisa das estrelas
Tal como os rios precisam da chuva

Assim eu preciso de ti
Assim eu me perco de mim
E no final chego à conclusão
Que nada sou sem a tua mão
Mesmo que isso
Me aperte o coração

Preciso do teu abraço
Para me aquecer nesse Inverno, de mim
Quando o ver se transforma em gelo
Quando o ter se transforma em nada
Preciso me sentir aconchegada
Preciso saber que sou desejada

Preciso de chorar no teu abraço
Por um instante acreditar
Que vais estar aqui
Sempre que acordar
Aqui e não ali,
No canto frio da razão
Onde cada vez me afasto mais de mim
Preciso do teu abraço, sim.

09 maio, 2009

«« Não tentes ««


Tudo o que incomoda, se esconde
Debaixo do tapete invisível
Da memória, onde não ouve ou responde
Acaba por esfumar-se como papel

Papel que arde em lume brando
Amarrotado, pela indiferença
Sempre que se afasta do comando
De quem tenta, julgar as nossas crenças

Não caias na tentação de me comandar
Sou brasa que arde em delírio
Não tentes dizer-me por onde caminhar

Sou pedra gelada e dura de moldar
Prefiro estar só, comigo mesma
Quando adormeço, prefiro sonhar

08 maio, 2009

«« Carrapatos colados na alma ««


Vejo e revejo
E não me reconheço
Perdi-me em dia de vento
Perdi pedaços no tempo
Esqueci o endereço

E agora…
Onde larguei o meu ser
Já não consigo enxergar
Nas rugas que vão vingando
Já não consigo encontrar
Os trilhos que fui pisando

Olho-me sem ver, cismando
Não reconheço os traços
Que teimam em mostrar
As marcas da vida
Ao passar…
Os amores por amar,
As raivas por acalmar
Os medos que teimei
Em não mostrar

Marcas nuas de sentimento
Que teimam em vingar
Parecem carrapatos
Colados na alma
Manipulam o silêncio
Que quase sempre me embala
Extravasam em doloroso sentir
No meu intimo a zunir

Que sou pedra por moldar
Pedra dura a teimar
Rolar, rolar
Sem o tempo ver passar
Sem trave para me agarrar.

07 maio, 2009

««Estou presa ««


Estou presa ao preconceito
De viver por bem parecer
Queria cantar bem alto,
Saltar, pular e correr

Correr daqui para fora
Onde não houvesse hora,
Nem agora
Brincar como uma criança
Que desconhece o amanhã
Saltar à macaca, ao eixo
Num trambolhão partir o queixo
Chorar bem alto, porque não
Sem me apontarem o dedo
Queria fazer da noite dia
Do dia esquecer a data
O ano, nem fazia falta
E o depois para trás ficasse
Que este delírio parasse
Que o vida girasse
Ao sabor da fantasia
Sem ironia
Correr abraçar o mundo
De mulher lúcida virar louca
Saltar de boca em boca
Demência mais sã não existe
Ali vai a pobre louca.

Estou presa ao preconceito
Por viver segundo o conceito.

06 maio, 2009

«« Delírio constante ««


Ando em delírio constante
Perdi-me de mim algures
Ando em delírio constante
Procuro por ti, nenhures

Coração partido em pedaços
Espalhei-os em campo aberto
Pensando encher o espaço
Com pedaços de incerto
Com nuvens negras de cansaço
Areias finas do deserto

Pobre de mim a descoberto
Só penso no teu abraço
Vejo em ti o céu aberto

Céu aberto que me falta
De manhã ao fim do dia
Lufadas de maresia
Arejam-me o pensamento
Pensando qual será o dia
Como será o momento
Em que cais na tentação
De me ler o pensamento

Irás ler o meu coração
Ai que aflição, contentamento
Será que me trás alento…

«« pedra no sapato ««


Falta-me não sei o quê
Talvez a razão do porquê
Falta-me a trave mestra
No tempo que ainda me resta
Tão somente o meu quinhão
De terra em composição
Aquele ombro amigo
Que esteja mesmo comigo
Dói esta pedra no sapato
Que me rói ao desbarato
Sem penas ou compaixão
Queria só o meu quinhão
De terra , só tenho mato.

Por vezes sou um ingrato.

05 maio, 2009

«« Sem volta ««


Percorro um caminho sem volta
Sem desvios, ou encruzilhadas
Percorro um caminho sem volta
Estrada fora sou arrastada

Arrastada ao Deus dará
Ora aqui ora acolá
Salto muros e barrancos
Rebolo feito uma bola
Salto, salto aos solavancos
Pedindo aqui e ali esmola

E se algo me consola
É saber que não vou só
A todos a vida enrola
Todos cabem na sacola
De nenhum ela tem dó
Afinal viramos pó
Nada somos nada seremos
Desde o dia em que nascemos
Até ao dia em que morremos

Somente o que fizemos
De bom ou errado na vida
Apenas isso levaremos
No dia da despedida
Amanhã serás esquecida
Teu corpo de terra coberto
Tua alma destemida
Voará em céu aberto

Nem isso temos de concreto.

04 maio, 2009

«« No teu abraço ««


Escondi-me no teu abraço ternamente
E, dormi o sono dos justos,apenas incompleto
Acordei e vi que sonhei simplesmente
Sono conturbado, meu sono encoberto

Abracei-te numa manhã de sol , quente
Senti o bater compassado do coração
Chamei-te meu verbo incandescente
Anafei-me, conduziste-me pela mão

Percorremos alamedas em botão
Ao som do chilrear da passarada
Fiz-me tua nesse instante com paixão

Perdia-me no teu abraço, novamente
Percorria esse caminho incompleto
Para te amar, nada seria diferente

03 maio, 2009

«« Longas conversas ««


Tenho longas conversas, com o despeito
Umas silenciosas, outras de viva discussão
Confesso que até lhe ganhei o jeito
Tornou-se fácil, conversar até mais não

Converso, converso, de coisa nenhuma
Desilusão descabida de nada ser
Sonhos imperfeitos viraram espuma
Esfumaram-se entre os dedos sem doer

Nestas minhas conversas, pergunto
Mas o meu companheiro nada me diz
Parece desconhecer o dito assunto

Responde despeito, será que é peçonha
Ou a vida perdeu-se de mim ao nascer
Responde despeito, terás tu vergonha

«« hoje apetece-me chorar ««


Hoje, apetece-me chorar
Não sei se é por mim
Ou por nada
Hoje apetece-me chorar
Pelo que não vi
E já esqueci
Apetece-me chorar
Aqui e ali, mais adiante
Ou mais atrás tanto faz
Apetece-me chorar
Pelo que esqueci
Apetece-me chorar
Por mim
Amanhã chorarei por ti.

02 maio, 2009

«« Lágrimas em decomposição ««


Lágrimas em decomposição
De mão em mão
Nevoeiro negro, de luto
Vagueia pelas clareiras
Da imaginação aos solavancos
Pernoita em fundos barrancos
Do egoísmo
Pensando quase agonizo
Mas finjo , e vejo, e,
Digo não , e digo sim
Ai de mim

Lágrimas salgadas
Sem dores
Sofrimento portador
De angustias e desamparos
Compassados pelos acertos
Do raciocínio
Empresta-me o fascínio
Irreal do sobrenatural
Daquilo que não domino

Lágrimas de lamurias contidas
Virgem negra distraída
Caminhando pela tumba
Vazia da dúvida
Duvida que se abeira
Sempre que perco a estribeira
Com lágrimas em demasia
Asfixia
Afogo essas lágrimas
Em aflição

Rezo um credo incompleto
Ao correcto
Realismo secreto
Do nada concreto
Do certo ao incerto…

«« Não me ensinaram a ser mãe ««


Não me ensinaram a ser mãe
Fui-o por instinto, verdade
Necessidade de amar com vontade
Vontade de conceber a vida, um outro ser
Vontade de ser mulher
Não me ensinaram a ser mãe,
Com isso tenho que viver
Talvez isso, tenha que agradecer

Sou mãe na dor, na alegria
Na fantasia das horas felizes
De alguns momentos infelizes
Saro as cicatrizes

Sou mãe quando digo não
Quando digo sim, mesmo,
No assim-assim
Não me ensinaram a ser mãe
Plantei flores no meu jardim
Tratei-as e reguei-as, sim

Sou mãe por convicção
Pela continuação do ser
Sou mãe quando finjo não ver
Em tudo o que ensinei
Mãe em tudo o que desejei
Sou mãe, e orgulho-me
Das sementes que plantei.

01 maio, 2009

«« Luxúria és rainha ««


Luxúria erva daninha
Do prazer és rainha
A culpa não é tua
É minha…

Encontro-me nua
E… crua
Envolta na lua
Prazeres carnais
E outros que mais
Luxúria,
Estandarte em arraiais
Abres as portas
Aos vícios mundanos
Dos pobres humanos
Insanos…

Masturbação dos profanos
Desvios morais
Dos seres normais
E, outros que tais
Luxúria,
Vendavais, em ais

Tantos prazeres consensuais
Nos pecados capitais…

«« Maio ««



Maio sofrido Maio
Perdido nas gerações
Cantaram-te como o gaio
Entre lutas e revoluções

Mar de multidões
Ideais soltos sem tempo
Tentas soltar os grilhões
Desde o norte ao barlavento

Maio do meu contentamento
Perdi a vontade em cantar
As lutas em movimento
Perdi, perdi a vontade em sonhar

«« Diz ««


Diz o que a alma atormenta
O que tarda a dizer
Nesse olhar a entristecer

Quais os segredos que guardas
Os desejos que resguardas
O que não, consigo ver
Diz, porque páras a olhar
Como se fosses abraçar
O vento que teima em passar
O céu, as estrelas a bailar
Abrigaste-te em altos muros
Os muros do silencio
Ladeados por extenso rio
Prisão que te mantêm cativa
Tal qual andorinha ferida
Suspiro solto sem tempo
Que transporta a neblina
Que desvanece esse olhar
Olhar, que quer falar
O medo de arriscar
O tentar ser feliz
Diz…