Poemas declamados

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30 abril, 2009

«« Pensamento ««


Navega o meu pensar
Entre o quero e o não quero
Rodopios a cismar
Entre o ser e o inferno

Penso, penso sem parar
Ideias em turbilhão
Vagas em alto mar
Que me inundam o coração

Mas que raio de visão
Que não pára o dia inteiro
Quando estou em dia não
Sou o meu próprio carcereiro

Pensamento és o primeiro
Que me acordas de manhã
Pegaste-te ao travesseiro
Tal qual um talismã.

29 abril, 2009

«« Pássaro negro ««


Pássaro negro
De olhar brilhante
Cortas os céus de lés a lés
Pássaro negro
Diz-me quem és

Trazes nas asas
Uma luz incolor
Nas garras
As guerras perdidas
No olhar
Buscas conquistas
Em terras longínquas
Debicas a vida

Pássaro negro
Envolto em fumo
Nas mentes a germinar
Nas consciências a segredar
Afinal o homem
Sabe odiar
Nas clareiras
Onde deixou de sonhar

«« Dois pólos ««


Andado numa demanda constante
Entre a minha e a tua razão
Entre o meu e o teu coração

Não é que não te ame
Em ti vejo as estrelas do céu
O luar a brilhar
O meu crer a desbravar
Em ti encontro-me a mim
Perto e longe por fim

Esta demanda
É muito mais profunda
Não é quezília
Balança-me entre dois pólos
A lógica e o irreal

Pensarás que bato mal
Mas…a lógica,
Porque,o sentimento
Não se compra
Nem se vende,
Entrega-se
Quando o coração sente
Que chegou a hora
O irreal,
Porque nem tudo está bem
Nem mal
Tu és a minha quimera
Afinal,
E eu…
Simples mortal

28 abril, 2009

«« O ópio da ira ««


Vai loucooooo, alguém se apressa a gritar
Numa ira conturbada pelo ódio
Faíscas luzentes das pupilas a saltar
Num olhar, sem ver, extasiado em ópio

Ópio de uma loucura colectiva
Que nos mantém cativos, soterrados
Enlameados em lamas sem vida
Nessa ira que nos arremessa enviesados

Nos meandros da demência corrosiva
De uma sociedade que tudo julga
Tudo aponta, mas não se acha abrangida

É superior ao triste louco apontado
O rei vai nu, todos gritam em clamor
Povo… já te olhaste, assim, tão irado

«« Vaidade««


Engoli um balão…
De vidro
Vidro!…Cristal
Tão fino de beleza tal
Que fugiu do paraíso
Porque se recusa
A ser igual

Engoli um balão
Sofreguidão descabida
Que me regula com leve mão
Não olho para a esquerda
Muito menos para a direita
Só vejo…
A minha imagem perfeita
No espelho do meu viver

Até custa a crer
Que tenha que ver
Mais outra coisa qualquer
Que a minha imagem…
Divina, como ser
Belo, esbelto, completo
Nada circunspecto
Com ideias…
Que se medem a metro
Mas quem liga a essas coisas

Engoli um balão
Desde tenra idade
Um balão
Chamado vaidade…

«« Sisuda ««


Olho-te na distância de um poema
Escrito no delírio da noite sem lua
Delirando entre aromas de alfazema
Olho-te à distancia, por ventura serei tua

Encontro dos sentidos nefastos que balançam
Rompem as ideias em delírios obscuros
Segredos que jamais se alcançam
Tão sós , perduram em recanto escuro

Presa nas clareiras já sem vida
Vastas e secas terras da imaginação
Presença ténue ao de leve tingida

Tingida de sangue e dor corcunda
Balançar sem musica ou compasso
Que me torna nada, apenas sisuda

27 abril, 2009

«« Claro que é gula pois então ««



É comer até mais não
Primeiro lá vem o pão
Traz a reboque acepipes

Um pires de azeitonas
E não me chateies a mona
Outro com umas manteigas
Um chouriço ás rodelas
Um bocado de mortadela
Mais a orelha de coentrada
Claro que não falta a salada
De polvo pois então
Um bacalhau desfiado
Mais um queijo de Azeitão

A seguir a refeição

Primeiro…
Uma sopa à maneira
De entulho pode ser
E convém não esquecer
Qualquer bom vinho pra beber

De seguida encho o bandulho

Com um cozido à portuguesa
Com linguiça e farinheira
Um naco de boa carne
Não falta o chispe e o toucinho
Tudo regado com o tal vinho
E tragam também um arrozinho
Que é para atamancar
Este singelo cozidinho

Mas como ainda não estou bem

Um prato de peixe aí vem
Pode ser linguado, sim senhor
Ou então, pargo de bom sabor
talvez uma postita de imperador

Mas ainda tenho um buraco
Aqui no fundo do estômago

Peço logo ao empregado
Uma mousse de chocolate
Um pudim de abacate
E entorno mais uns copitos
A seguir um cafezito
Um licor de absinto
E não pode faltar… o cigarrito

Assim se come por cá
Comem tudo ao Deus dará
E a miséria onde está
A crise não chegou cá
Ou já…

«« Ridículo... da inveja ««


Ridículo…
Uma pedra no sapato
Que tira o sono
O brio, a lucidez
Se envolve no véu fino
Da mesquinhez

Coisa pequenina
Ali ao virar da esquina
Na sombra
Na ombreira da porta
Uma espera
De quem já está morta

Salta rodopia
Atira-se de cabeça
Nem percebe a agonia
Em delírio
mostra simpatia
De manhã ao fim do dia

Ridículo
Sinónimo tremulo
Para a dor de cotovelo

25 abril, 2009

«« Abril da Esperança ««


Liberdade ideais em decomposição
Esfumaram-se com os delírios da Nação
Liberdade, vermelho de sangue vivo
De quem tombou numa luta desigual
Pela pátria, pelo sonho,
Portugal

Se a soubessem entender
Deve ser dividida, repartida
Sem nunca favorecer

Liberdade, liberdade,
Na força de um alvorecer
Um cravo na espingarda
Que a memória rasga

Liberdade,
Que teimamos em não ver
Tudo fazemos por não a merecer

Vá-se lá este povo entender

24 abril, 2009

«« O pincel ««


Diz-me lá Manel
Estás com azia
Olhando o pastel
Estou sim Maria

Diz-me lá Manel
O que te aborrece
Olhando o pincel
O que te parece

Mas é o pincel
Ai mas que chatice
O que te entristece
A tua maluquice

Mas que maluquice
O que foi Maria
Deixa lá, gostava que risses
Valha-me a Sra. da Agonia

Ainda tens azia
Agora arreliado
Claro que tenho azia
Estou todo mijado

Mas que tristes fados
Tia Maria e tio Manel
Prá li abandonados
Nos pêlos do pincel

«« Preciso Gritar ««


Preciso gritar…
Mas não consigo
Mal estar…
Que me estrangula o peito
Me abraça no leito
Quero gritar

Abro a janela da mente
Vislumbro uma luz demente
Inocência de uma paixão
Que me rouba a razão
Tamanha aflição

Preciso gritar…
Aos quatro cantos do mundo
A razão porque te quero
A razão porque te espero
Teimas em tardar

Amargo respirar
O que me sustêm
Com tino…
Nesta espera de alcançar
Um fluxo de sol garrido

Quero gritar…
Meu delírio amargurado
Quero gritar o meu fado
Ou fadário
Mal fadado

Gritar… já não sei não
De rir já me esqueci
Agonia translucida
De ideias inquietas

Esta coisa a que chamo vida

23 abril, 2009

«« Medos ««


Medos… do coração
Já nada sei do amor
Medos do meu coração
Transformados em suor sem cor

Medos… mandei-os embora
Bateram o pé e ficaram
Triste, minha alma chora
Por medos que me enganaram

Ai se eu pudesse fugir
Quebrar as algemas, partir
Voltar de novo a sorrir
Um só instante sentir

Que me querem, pelo que sou

22 abril, 2009

«« Raiz ««



Raiz cravada em mim
Sugas-me a seiva
Arrancas-me as entranhas
Sem compaixão,
Ou razão

Amordaças-me as ideias
Sou cobaia na tua mão
Ai, não, não
Não me turves
A visão
Não me queiras dominar
Não...

Raiz cravada em mim
Solidão...
Solidão raiz, no coração

21 abril, 2009

«« Prumo ««


Embrenho-me nas vagas do teu pensar
Cismando chego a esta conclusão
Trespassas-me em medos a desbravar
Evocas-me na correnteza da ilusão

Atraio-te no reflexo da imaginação
Na singeleza das manhãs orvalhadas
Refluxo que nos incendeia a visão
Queixumes de quimeras tresmalhadas

Perdidos em nenhures pelo sol pôr
Corremos ao encontro da razão
Afastamos os delírios, a raiva, dor

Estamos tão perto, ao alcance do olhar
Teimamos em não ver, visão obstruída
Basta esticar o prumo, a nossa alma se tocar

20 abril, 2009

«« Centelha de ideias ««


Embrenhada por entre papoilas delicadas
Caminho sem pressa ao romper da alvorada
Nesta imensidão de planícies espelhadas
Sinto-me leve, de esperança renovada

Deleito-me no verde dos campos em flor
Gotas de orvalho reluzem em marfim
Aguarela sonhada, beleza, de luz e amor
É na Primavera que me fundo em ti

Alentejo meu sangue, meu corpo devastado
Terra enraizada na alma dos poetas
Verso tingido de sonhos enfaixado

És o meu despertar, minha centelha de ideias
Meu suporte, pedaço de chão sagrado
És tu que me aqueces, na hora que me desfaço em águas

«« Maltrapilho ««


Caminho por entre a multidão, só
Deambulando ao encontro do nada
Já sem vida, confiança ou dó
Olho sem ver, estendido na calçada

Aquele corpinho de criança enfezada
Que me fita com olhos arregalados
Com a confiança de quem não espera nada
Dos passantes que correm tresloucados

Criança defraudada pela sorte
Triste de mim que passo, não te vejo
Quanto eu aprendia, com esse humilde porte

Minha vida sombria perdeu o brilho
Embrenhada nas aparências irreais
Talvez, ainda acorde e me veja… maltrapilho

18 abril, 2009

«« Costumo falar-te rimando ««


Costumo falar-te rimando,
Mas perdi a rima, ou ela perdeu-se de mim,
Decidi falar-te como posso, meias palavras de encantamento,
Espero que o vento te as entregue, em pensamento,
Espero que estremeças nesse momento,
Tremor em que sintas o meu amor,
Mesmo na ignorância, marcada pela distancia,
No desencontro da existência.
Olho a lua lá no alto envolta no seu manto estrelado,
Imagino-te esculpido em azul celeste, sentado ao seu lado,
Eu,
Morrendo de inveja dessa lua feiticeira,
Que te envolve com a sua luz esbranquiçada,
Te seduz ternamente enamorada,
Ai como queria amar-te assim, como eu queria que me amasses a mim,
Costumo falar-te rimando,
Mas a rima perdeu-se no pranto, de não te ter, de não te conhecer
A rima perdeu-se em cada amanhecer,
Por viver,
Perdeu-se no entardecer , na espera de morrer,
A rima perdeu-se… numa vida mal fadada,
Quase sempre de fachada disfarçada,
Perdeu-se… sem eu ver…sem tu saberes.

«« Candeia onde vagueio ««


Ouvi-te na água a correr, ilusão
Ribeiro da fantasia em devaneio
Onde estás, porque me foges, aflição
Ouvi-te murmurando com anseio

Imaginário que carrego na alma
Definhar da matéria já sem vida
Por vezes perco o rumo, até a calma
Sinto-me morta, giesta amarelecida

Ouvi dizer, quero-te neste mundo
Era a saudade falando comigo
Esta saudade de quem me queira,tudo

Escutei palavras ternas na corrente
Grilhão que me sustêm à tona do sentir
Candeia onde vagueio, quase descrente

17 abril, 2009

«« Alma em decomposição ««


Alma em decomposição
Esvaída na imensidão
Deste Alentejo sem rumo
Alma que perdeu o prumo

Sou eu…

Só tenho o que Deus me deu
Noite que não amanheceu
Ai de mim, nenhures

Não me procures

Passa e não me olhes
Não quero sequer que chores
Ao veres a triste sombra
Fria pedra que desponta
Num matagal de receios

Grossa silva de enredos
Tal qual negro penedo
Desponto em ceara de medo

De musgo coberto
Sou eu a descoberto
Nos desvaires deste mundo
Buraco negro, profundo

Não me olhes

Não passes por perto
Se me vires em céu aberto
É o que me resta, como tecto
Não olhes, nem passes perto…

«« Os teus cabelos ««


Imagino o toque dos teus cabelos
Como será acaricia-los, tacto
Sensações de um reflexo nato
Enleio nos meus dedos, como novelos

Imagino-me simplesmente a tecê-los
Perdida nos teus olhos, sem aparato
Resguardada, na solidão do meu quarto
Ilusão, por instantes julgo tê-los

Espero um momento, e acontece
O meu corpo num reflexo, estremece
A tua cabeça poisou nos meus joelhos

Curto instante, milagre breve
Visão desfeita, em flocos de neve
Baixo o olhar os teus cabelos, nem vê-los

16 abril, 2009

«« Pedra fria ««


Sinto que sou pedra fria
Gelado sepulcro
Sem corpo, ou finado

Estou gelada
Tão grande é a geada
Que a alma arrefece

Ai, como corro
Sem norte, sem senso
Corro em desalento
Ao encontro da morte
Naquilo que me esquece

Pedra fria que arrefece
O meu sangue,
Jaz sem vida
Esvaiu-se pela ferida
De um coração de ninguém

Estou só, e aquém
Das vidas que me renegam
Porque em vida me enterram
No tanto que me esquecem

De pedra fria talhada
Ando só por essa estrada
Em campo de espinhos coberto

Aqui e ali a descoberto
Os meus medos e anseios
Vão deixando largos passeios
Onde pisam sem ter dó

Reduzem-me a pó
Mas não sabem…
Que o pó se entranha sem dó
Por mais que o tentem afastar
Ele acaba por voltar

Pedra fria a sangrar
Gotas de sangue quente
Gotas de suor na mente
Tentando ser gente


Mesmo que não venha a alcançar
Um recanto seguro.
Onde possa estar comigo
Brilhe na luz, sem ser escuro
Onde encontre um ombro amigo…

Que se sente na pedra comigo
Me ensine a acreditar
Me deixe de novo sonhar

«« Monologo ««


Passo horas falando, comigo
Um monologo extenso, profundo
Por vezes custo a ver-lhe o fundo
Falo comigo, respondo ao que penso

Meu amigo, vazio
Converso contigo, comigo
Horas a fio

Porque me falta a metade
Que me fale a verdade
Que me oiça com sinceridade

Aquele que nunca veio
O que me esqueceu
Porque nunca me reconheceu
Ou então só me perdeu
Fez do meu mundo
Um mundo feio

Deixou esta espera por encontrar
Com sua alma quero conversar
Os meus medos lhe desvendar
Mas só comigo posso falar
Conversa inacabada, que mata

Como farta
Numa espera que desgasta
Desfolho meu rosário de penas
Tantas, tantas, centenas
Parece rosário de novenas

Mas a que traz mais raízes
Aquela que aperta o peito e geme
De tão crua, minha alma teme
Invoco...
Sussurro no silêncio

Pergunto vê se respondes
De uma maneira concisa
De uma maneira precisa

Porque tenho que falar sozinha
Onde está o ouvido que se esconde
Aquele que procuro na fonte
Que tarda em chegar

Tanta espera,
Atrevo-me dizer a medo
Temo que um dia se seque a fonte
Que me cale para sempre
Já que ninguém me responde

«« Enleio-me no teu olhar ««


Enleio-me no teu olhar
Mar adentro a desbravar
O que anseias ocultar
Enleio-me no teu olhar

Olhar adocicado
De rapazinho amedrontado
Que julga ter apagado
As penas de amores passados

Embriago-me nesse olhar
Que me parece gritar
Estou aqui, estou a chorar
Tão só, parece estar

Olhos tristes em desassossego
Sinto que tem medo
De procurar aconchego
De procurar um rochedo
Onde possam descansar

15 abril, 2009

«« O que dizes povo ««



O que dizes povo?
Porque choras…
Povo
Conta-me quero entender
Porque só agora
Começas a gemer

Porque parecem turvas
As tuas lutas
Dormiste…
Em…
Fogueira de acendalhas

Sabes povo…
Nesta hora, na distância
Marcada pelo tempo
Neste mês de Abril
Mês de águas mil
Mil lutas e labutas
Tempo
Em que se erguem
Novas disputas

Agora…
Medito neste país
Tresmalhado,
Em quimeras afogado
Passaste mau bocado
Depressa esqueceste
Depressa te absolveste
Dos deveres
Para contigo,
Para com o teu país

Em Democracia
Enquanto tu dormias
Alguém se abastecia
Daquilo que tu esquecias
Nesse deixa andar,
Safa-se quem safar
Alguém...
Ficará para contar

Agora povo
Começas a acordar
Choras, e lamentas
Levantas os braços
Em oração
Em aflição

Acordaste por fim
Ainda vais a tempo
Ai de mim
Pega
A Democracia de frente
Lembra-te
Do teu pai e avô valente
Que mesmo na tortura
Na fome e na guerra
Nunca deixaram de saber
Quem eram,
O que deles
Esperava esta terra…

Por isso povo
Levanta os braços
Besunta-te na terra
Abraça essa quimera

«« Corro atrás do sol pôr ««


Corro atrás do sol pôr
Não é por desejo
Ou mesmo dor
Corro atrás do sol pôr

Porque imagino, amor
Que tu lá estás
Naquela linha longínqua
Que fica bem atrás
Dos raios de sol
Ao poente

Raios amarelos luzentes
Alaranjados, avermelhados
Vejo a tua sombra
Lá estás tu…
Enleado

Naquela beleza celeste
Naquele mar de labaredas
Nos confins da terra nua
Tu lá estás
E eu aqui, sem ser tua

Sinto-te envolto
Em aroma alfazema
Olhando o horizonte
Por entre as brumas
Da noite que vai caindo

Abres os braços
Numa tentativa
De abraçar o infinito
Sinto que me acolhes

Acabei por te encontrar
Dormindo…
Em sonhos entreguei-me
A ti,
Sorrindo…

14 abril, 2009

««Asas de Condor ««


Imagino-me
Em asas de condor
Desbravando os céus
Desse Alentejo
Olhando lá do alto
Todo o seu esplendor

Ao sul
Avisto o silvado
Onde o melro
Solta o seu trinado

Ao norte avisto o ribeiro
Que corre matreiro
Em ziguezague
Sem cuidado
Corre, corre
Pelo descampado

A oeste
Desnudo o montado
Soberbamente engalanado
Ao calmeiro
Está o rebanho
O pastor
Dorme um sono tamanho

A leste
Avisto o monte
De branco caiado
Com ar estafado
De galinhas acompanhado
Os porcos
Estão no chiqueiro, afastado
Os cães
Dormem na casota
Mais abaixo
Se encontra a horta
O poço fica ali
Ao pé da palhota

Se eu fosse
Um condor
Uma águia real
Uma cegonha branca
Um melro negro
Uma cotovia airosa
Uma frágil borboleta

Voava
Nesse céu azul
Por terras do sul
Levava-te
A aragem fresca
Ao cimo desse monte
Onde te escondes
Nas horas de solidão

Na aragem
Curta mensagem
Escreveria

Estou aqui
Para te abraçar
Quer eu to diga
Ou não…

13 abril, 2009

«« Imaginação ««


Por entre o silencio das giestas
Escrevo…

Ao que ainda não tive
Ao que não senti
Escrevo de mim e…
Sei que escrevo de ti

Emoções em derrapagem
Levadas na aragem
Rebolando pelo declive

Da imaginação
Da dor, da nostalgia
Do que deixamos de ter um dia
Da alegria
Mesmo envergonhada
Do reencontro
Na escrita amargurada

Escrita de angustias cruzadas
Pelo tempo afastadas
Gerações desencontradas

Escrevo…
Por entre o silencio
Do meu e do teu
Silêncio

Escrevo do que pesa
Na solidão
Do que pesa em dia não
Aquele em que choramos
Por sabermos
Que longe e perto estamos
Mas, que sem querer
Sem sequer entender
Nos completamos

Perdida neste mar de escrita
Desnudo
Nosso sentimento
Procuro
O meu alento
Enleio-me
No julgamento

Do porquê das palavras
Das brisas e das miragens
Que escondes ou…
Que eu não vejo

Agora…
Penso, loucura
Esta minha procura
De ler, o que não tive
Depois…
Imagino que vive
Perdido no descampado
O tal espírito tresmalhado
Assim…
Como eu
Pela vida enviesado
Que por aí anda
E, em breve
Estará a meu lado

Nesse dia
Castelo assombrado

Abrirás as janelas ao sol
Os pássaros entrarão
Os meus olhos chorarão

Choram mas…
É de afeição
Deixou de ser imaginação.

12 abril, 2009

«« Morta sem estar morta ««


Morta sem estar morta
Vulto negro, pouco importa
Pedaço de carne que sobra
Na travessa de quem come

Roubaram-me até o nome
Numa fome que consome
Que me consome em vida
Por ser uma raiz estendida
Daquelas que não se dobra
Que incomoda

Morta na ignorância
Morta na arrogância
Tantas vezes na inconstância
Outras tantas na ganância
Morta no desapego
Que se tem no desassossego
Do que pesa no coração
Do que foge da nossa mão

Ao perder utilidade
O vaso usado se quebra
Não nos satisfaz mais a vaidade
Deixou de ser à nossa vontade
Não mais se enche de terra

Mataram-me com desamor
Viraram os olhos à dor
De quem busca a sua sorte
Como quem caminha prá morte
Levada no vento norte

Sempre igual
Igual no ideal
Na afeição
Dos que trago no coração
Mesmo quando digo não
Mesmo quando finjo não ver

O vento
Não se pode prender
Muito menos a agua a correr
Numa ribeira bravia
Igual,
Ninguém me domina
Talvez seja sorte ou sina
Mas sou eu e sou assim.

Morta…
Mas continuo aqui
Na espera
Que se lembrem de mim
No dia em que por fim morri

10 abril, 2009

«« Paixão do Senhor ««


Tentei escrever
Sobre o Teu amor
Tentei escrever
Sobre a Tua paixão
Senhor…

Não sou capaz
Mas não peço perdão
Só me vem à lembrança
O desamor…
O clamor…
A mentira e a vaidade
As feiras e os confrades
E o pior
O mal maior

Das almas que morrem
De fome, de dor
No cano da espingarda
De uma guerra sagrada
Das crianças
Que morrem de sida
Será que pecaram na vida
Não
Somente estão desprotegidas
Ás mãos dos homens
Pelos homens
Tantas vezes aqueles
Que pregam a Tua paixão

Diz-me por quem são
Por eles ou por Ti
Será que são por mim
Nada
São pela ganância
Pelos deuses de barro
Pelo ouro, pela prata
Em nome da Tua palavra se mata

Por isso Senhor
Não consigo escrever
Sobre o Teu amor
São dois mil anos Senhor
Mais não sei quantos para trás
E Tu não foste capaz
De dar tino aos homens

Por isso Senhor
Que a paz esteja
No meu clamor
Que a paz reine
No desamor
Que a paz
Se faça
Arma
Aquela
Que não mata

Amem Senhor

09 abril, 2009

«« Pequem estão à espera de quê ««


Pequei , pequei porque amei
Como quem ama o sol ao nascer
Pequei por excesso de bem querer
Por iludir-me no dia em que julguei
Que tinha o direito de pecar
Ou somente o direito de sonhar
Acho que me estou a baralhar

Pequei por tentar encontrar
Uma vida um caminhar
Lado a lado sem amarras
Triste tola
Pensavas que alcançavas
Assim tudo de mão beijada
Que era simples
Estrelavas os dedos
Assim sem mais enredos
Aí… estavas tu...adorada

Claro… imaginei-me apaixonada
E depois
Ternamente beijada
Tem coisa mais engraçada

Quem nunca pecou
Perdeu a esperança
Instalou-se a desconfiança
Ignorou
Que nestas coisa do amor
Quem não arrisca não petisca
Portanto pequem
Estão à espera de quê
De olhar para trás
Verem que envelheceram
Sem ser capaz
De dar o salto
Ou cair do salto
Tanto faz
Interessa é encontrar o rapaz

O tal
Aquele que aquece a alma
Que nos faz fazer figuras tolas
Daquelas que põe os cabelos de pé
De qualquer crente de fé
Pois é



Agora falando sério
Pequei
Porque acreditei
Que tu
Eras um pecador
Mas não
Eras somente
Um sonhador
E eu
Vi-me de repente
Dentro de um grande tambor
Ai que dor
O pior
É dor de amor

Apetece-me gritar
Sr. Doutorrrrrrrr
Ai que horror
Acaba alguém
Por falar

Coitado nunca pecou
Por isso
O dedo apontou

«« Pequei ««


Entraste silenciosamente no meu viver
Contigo trouxeste esperanças luzentes
Retalhos há muito perdidos distantes
Desejos afagaste assim quase sem querer

Despertaste ilusões, devaneios de mulher
Ilusões que tentei guardar em baú de zinco
Pequei, não as tranquei com cadeado ou trinco
Deixei-as à mercê de quem as quisesse acolher

Entraste silenciosamente na calada
Da minha noite nefasta, tão gelada
Trouxeste contigo a lua esbranquiçada ao longe

Por apenas um instante pensei ser o sol
Deslumbrei-me nesse trinar de rouxinol
Agora reparo que está distante, que me foge

08 abril, 2009

«« Emoções a despertar ««


Chegaste em sopro de mar
Emoções a despertar
Chamaste sem eu contar

Trouxeste nas palavras
Trémulas de incerteza
Trouxeste rosas bravas
De imaculada beleza
Das cantigas Portuguesas

Chegaste pela tardinha
Murmúrio perdido ao longe
Estranha emoção a minha
Voz trémula peito ardente
Sem saber o que falar, pensar
Sentimentos a despertar
Enclausurados como monge

Imaginei-te parado
Espírito embaralhado
Ao impulso respondendo
Tinha que ser naquele momento

Chegaste pela tardinha
Voz fraca igual à minha
O destino está chamando
Os anseios está cruzando
Em brisas leves

Tudo parece tão breve
Pouco a pouco ao de leve
Cruza tua alma na minha

«« o teu olhar ««


Mergulho na nostalgia do teu olhar
Água límpida de anseios tingida
Essa corrente que tenta à partida
Deslizar no sonho por encontrar

Mergulho nesse mar por acalmar
Esqueço esta espera desmedida
Só penso em ser o cobertor da tua vida
Qual o caminho mais fácil para te alcançar

Mergulho no mar revolto do sentimento
Penso que é chegado o momento
Para embarcar no galeão do desejo

Este sexto sentido que me fala
Esta voz no silêncio, que não se cala
Grita que estás aí, esperando faz tempo

07 abril, 2009

«« Desencontro ««


Amei-te no vento, no sol e na lua
Amei-te no tempo em que me fiz tua
Procurei-te na noite, no mar encrespado
No campo bravio de barro moldado
Senti-te em mim, brasas de vida
Por debaixo da lua lá longe tingida
Lá longe sumida lua dos amantes
Amei-te em uma vida, em tempos distantes

Encontrei-te na serra tremendo de frio
Banhei-te nas águas calmas do rio
Mostrei-te o mundo, louco varrido
De paixões e amores já quase esquecido
Olhaste para mim não me reconheceste
Cruel realidade, a que me esqueceste
Procura na pedra marcada plo tempo
As juras de amor feitas ao relento

Escuta o vento o que ele te diz
Eu sou aquela que sempre te quis
A que doida parece louca varrida
A que por ti chora na dor escorrida
Eu sou aquela que procuras no frio
Por entre os lençóis pasmos no vazio
Eu sou a que chamas nas horas mortas
A que te sorri nas águas calmas

Tu és aquele que um dia amarei
Eu sou aquela que feliz te farei
Procuras-me e não me encontras
Procuro-te por entre lágrimas
Pardas doridas de amor e paixão
Triste nossas vidas sempre em dia não

«« Décimas…. Lembrando que a terra chora ««


Mote

Ao rubro de papoilas vermelhas
Por esses campos afora
Parecem enxames de abelhas
Lembrando que a terra chora

Vazam-me os olhos de águas
O campo está moribundo
Ai Alentejo profundo
Restolho raso de magoas
Triste vão as nossas vidas
Restam as terras cansadas
Tristemente abandonadas
Viraste quarteira de gado
Soberanamente engalanado
Ao rubro de papoilas vermelhas

Alentejo minha amora
Pedaço de terra encantada
Tola mente esvaziada
Retalhos de alma que chora
Que te beija hora a hora
Mais aqui mais acolá
Tudo está ao Deus dará
Tanto pedra tanta moita
Tanta gente que te açoita
Por esses campos afora

Longe vão tuas conquistas
A era da fraternidade
A terra da igualdade
Será que te restaram algumas
Dessas crenças encantadas
Dessas utopias luzentes
Tua gente está descrente
O teu povo está dorido
Desacreditou no fado corrido
Parecem enxames de abelhas

Viram costas vão embora
Procurar a melhor sorte
Voltam depois com a morte
Descasam na terra que implora
Pelo calor do seu corpo, agora
Nada resta está morto
Alentejano filho devoto
Guardador de gado ao relento
Resta-me soltar versos no vento
Lembrando que a terra chora

06 abril, 2009

«« Gélido sarcasmo ««


Por instante consegues tirar-me deste marasmo
No momento em que penso que me queres
De seguida em brasas vivas me feres
Em palavras me açoitas, gélido sarcasmo

Apetece perguntar, onde paira o entusiasmo
Sensação de que somente queres destruir
Que me queres … simples vaidade em possuir
Cortas as arestas ao sonho em pleno orgasmo

Por instante desconheço-te … não me olho
Águas fétidas… represa onde me molho
Escuto a premeditada frase que me esvazia

Assim vai acontecendo dia a dia…desilusão
Dás asas á frustração…por não me moldares na tua mão
Onde pára a alma que para sempre me amaria

05 abril, 2009

«« Bailarico ««


O bailarico de aldeia
Mas que coisa mais bonita
Quem não viu não faz ideia
De como tem gente catita

Vestidas de vestido de chita
As moçoilas casadoiras
Dando ares de senhoritas
Lembram garridas papoilas

As mães lembram as colmeias
Sentadas nos bancos de trás
Vão pondo em dia as conversas
Sempre de olho no rapaz

Sempre de olho no rapaz
Que enlaça a filha pela cintura
Não é como em tempos atrás
Se não beija faz má figura

Festa de arromba ternura
Matar saudade dos amigos
Enraizada na nossa cultura
Nascida nos tempos antigos

Assim são os bailaricos
Desde o sul até ao norte
Sempre se bebem uns copitos
Se cantam cantigas de amor e sorte

04 abril, 2009

«« Palavra em chagas ««


Palavra que chegaste vazia, em chagas
Servem-se de ti sem cuidado ou pudor
Transfigurada em versos de dor, torpor
Retalhada na lamina de uma adaga

Mãos atadas por sinuosas e geladas algemas
Presa no ódio, venerada e beijada no amor
Ai palavra, lembras-me um pobre agricultor
Tanta terra a semear, tão grande falta de enxadas

Só tu entendes os meus desabafos frios
Rebuçados sem sabor, de fel, tão amargos
Só em ti confio, és o meu negro instinto

Só eu te sinto em labaredas mornas… vivas
Cruel vaidade de medos e raivas tingidas
Dizendo-te as verdades no tanto que te minto

03 abril, 2009

«« Uma carta apalermada ««


Pensei…
Escrever-te uma carta
Depois…
Um poema de amor
No final…
Decidi-me pelos dois

Por isso…
Meu querido aqui estou

Escrevendo…

Sabes a melhor
Esqueci o quê
Deve ser do ardor
Ou do calor
Não do amor….

Nem tanto, nem talvez
Insensatez, porquê…
Timidez

Claro só pode
Porque…
No peito me explode
Mas que pagode

Não …
Direi antes que é amor
Amor daquele com dor
Um bocadinho apalermado
Que se bebe num trago
Assim como o abafado
Que jamais se julga acabado
Com beijinho repenicado
De sabor apaladado
El dourado…
Mas que fado…
Beijo trincado

Estás a perceber
O recado
Por isso
Estou a escrever
Sem saber se tu vais ler
Ai, ai …triste
Amor abafado

Meu amor eterno amado
Ando doida sem saber
Pensando no beijo roubado
Será que já tu dei…
hum que fazer…
Melhor esquecer.

Vê tu ao que cheguei
Ando louca a valer
A razão porque te amei
Assim que te vislumbrei
Ainda me resta saber
Vais ver…
Sonhei

Por agora acabei
Amanhã continuarei
Se é carta ou poema
Mais tarde te direi

02 abril, 2009

«« De mim ou de t i««


Por vezes não sei
Se escrevo para mim
Se é para ti
Por vezes não sei
Se falo de mim
Ou de ti

Por momentos
Penso…que…
Escrevo dos dois
Depois…
De mim…
Ai… de ti

Afinal somos dois

Como podemos ser dois

Estranha pergunta
Sem resposta
Tu… e… eu
Linhas opostas
Em linha recta

O ponto
Que fecha o circulo
O átomo
Que se completa

Dois pólos que se atraem
Positivo, negativo
Força da gravidade
Que nos tira o siso
Por vezes o riso

Afinal
Não sei em que fico
Escrevo para ti
De mim

Pensando melhor
Escrevo-te
Ou leio-te
De ti para mim
Ou de mim para ti


Leio-te no campo
Na água, no céu
Leio-te no vento
Em contra vento
Leio-te na noite
Fria, estrelada

E…
Escrevo-te na madrugada
Quando o silencio
É mais silencio
Quando me sinto
Por ti abraçada
Quando te entro
Nos sonhos
Pela calada


Dura escrita inacabada
A minha…ou a tua
Afinal….
As duas amedrontadas

«« Ruga ««


Ruga profunda do silêncio
Silenciosa na minha vida
Ruga que marca à partida
Uma vida desmedida

Ruga no canto do olho
Risco interpretável
Por vezes quase invisível
Ruga da incerteza
Ruga adorável
Encerras tanta beleza

Olho-te ruga singela
Dizes-me, envelheceste
Afinal compreendeste
Que…
Faço parte da jornada

Rugas são aguas passadas
Da vida sempre a correr
Abençoada ruga rasgada
Que me mostras o entardecer

Segredas-me…

Valeu a pena nascer
Vale sempre a pena viver
Se as rugas souberes entender

Aceita-as…

Verás que fácil… será morrer

01 abril, 2009

«« Décimas----- cantando o Alentejo««


Ai se eu soubesse cantar
Cantigas de amor e chão
Para assim puder bailar
Segura na tua mão

Cantar eu não sei não
Minha mãe não me ensinou
Para o campo me mandou
Trabalhar colher o pão
Perdida na imensidão
Da planície Alentejana
Passava toda a semana
Trabalhando de sol a sol
Todos entravam no rol
Deste lado do Guadiana

Botei olhos num pastor
Rapaz de bigode farto
Perdida fiquei de quatro
No seu modo trovador
Cantou-me cantigas de amor
Roguei que me ensinasse
A cantar tamanha classe
Mostrou-me a terra lavrada
Anafou-me em ceara dourada
E mandou que me calasse

Minha sina assim traçada
Entre o trigo e o montado
Entre um beijo roubado
Entre o tudo e quase nada
De uma vida mal fadada
Cantei no vento suão
Cantigas em contra mão
Cantei como soube a saudade
Cantei a fraternidade
Na era da revolução


Hoje lembrando o passado
Olhos no céu peço a Deus
Que traga prós braços meus
Um pastor engalanado
Não precisa trazer gado
Contento-me com coisa pouca
Basta que traga voz rouca
Versos bem alto gritar
Que me faça cantar e bailar
A seu lado alegre fado

«« Sou eu ««


Corre ao encontro do vento
Abre os braços
Sente a brisa fresca
Nela vais encontrar
Uma borboleta a esvoaçar

Débil, medrosa
Como a mais formosa rosa
O mais simples malmequer
Segura-a entre as mãos
Sente-lhe o bater do coração

Sou eu
Que repouso na tua mão
Sou eu que te digo
Bem te quer
Que te olho em tentação
Querendo te beijar

Corre veloz como o vento
Para que te possa abraçar
Sem pressas, nem tempo
Vem, deixa-te amar
Não importa o lugar
Nem que seja breve
O momento

Escuta
O som do vento
Ele leva-te o meu lamento
Ele leva-te o meu tormento

Ele conta-te como te quero