Poemas declamados

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29 janeiro, 2010

«« Conversa de ti em mim ««


Vou te contar baixinho, o meu segredo.
Quero acreditar, que um dia … um dia!...
Irei ver o mar, entrarei nas suas águas.
Irei perfumar-me na fresca maresia.
Bem lá no fundo: encontrarei um rochedo!...
Que me acolherá no seu seio.
Acabará por me conduzir, ao areal tórrido!
Fará com que perca o receio...
De morrer sozinha, num vazio esvaído:
Pela cercadura gélida, do não.
Dirá em palavras temperadas,
pelo sal da emoção:

Vem, vamos ver o mar...
Vamos nele entrar...
Vamos acreditar.

Que o tempo de espera, cessou.
E que apenas por isso, o mundo não acabou!
Que uma pomba, esvoaçou...
Sobre as nossas cabeças!

Espera… ainda não adormeças...
Amanhã: espero por ti na areia branca.
Na areia deslizante, da solidão.

28 janeiro, 2010

«« Infértil solidão ««


Tenho uma saruga espetada no peito
A quem chamo abrasão, loura e ressequida
Pelas vicissitudes do esperar sem leito
Estendida ao comprido na estrada da vida

Tenho uma saruga que me diz estás dorida
Pelo olhar nublado e enviesado de causa efeito
Sempre que me lembras, estás só e ferida
Arregala-me os olhos em gesto insuspeito

Dá-me um abanão, eleva-me aos céus
Empurra-me e faz-me seguir em frente
Esta minha saruga nunca me tapa com o véu

Negligente de quem não vê, ou não sente
Que é só, caminha só, mas… segue mais além
Com a certeza que a solidão é infértil semente

«« Bacelo ««


Pela manhã saí por aí ao encontro do sol
Manhã de Janeiro onde a esperança desponta
Levei como capa um sorriso em prol
De uma esperança renhida que esvoaça na ponta

Do vento manso que agita o grosso cachecol
Que me resguarda da maresia fresca e tonta
Parece um enorme e molhado lençol
Que enlaça os campos de ponta a ponta

Ai Alentejo, meu berço de oiro maciço
Porque será que me chamas, quando adevêm
Em retalhos cinzentos gordos e roliços

As saudades de quem se esfumou no Bacelo
Bravio da eternidade, que está além da vida
Ai Alentejo, mata a saudade, desfaz o novelo.

«« Luzerna ««


Ainda agora o sol entrou pela janela
Olhei-o com ar de espanto, como quem pensa
Foi engano, sol essa espreitadela
Ou então trazes-me de oferenda
Uma luzerna onde se revela

Que existe sempre a esperança mais além
Que um dia o sol aparece airoso
Que nem sempre a chuva se mantém
Molhando o solo gretado e rugoso
Por onde as tempestades a devêm

Ainda agora o sol entrou pela janela
Esbateu-se no meu olhar pasmado
Será sol que me trazes a aguarela
Retratando o perfil do meu amado
Sol traquina, porquê essa piscadela

Num raio quente e fogoso
Que me aqueceu a alma semigasta
Do esperar constante e curioso
Ouve sol esta espera já basta
Portanto deixa de ser caprichoso

Não abra eu a janela de par em par
Logo quando cair a noitinha
E quem sabe convide a entrar
A lua, faça dela minha madrinha
Lhe peça para uma estrela me ofertar

E nessa estrela faça despontar o perfil
Do sonho que anda perdido ao relento
Perdeu-se na noite num mês de Abril
Meu Deus, faz tanto tempo
Que o tempo parou, choveram águas mil

Que inundaram a alma imatura, e singela
De menina traquina pensando ser mulher
Lá estás tu sol, dizendo-me és bela
Sol capricho, olha que eu fecho a janela
Ficarás retido no meu adormecer

E nem sabes sol o que faço a seguir
Junto-te à lua, enlaçado pela estrela
Grito meu amor, vem olha o sol a fundir
Um novo amanhecer onde se revela
Que basta o crer para nos fazer sorrir

Júlia Soares ( pseudónimo )

27 janeiro, 2010

«« Reflexo ««


Olho o reflexo no charco que a chuva deixou
Olho, e não reconheço a trémula sombra, que me olha
Aqui e ali o cansaço abriu brechas e penetrou
Na pele baça, de repente o tempo parou
No deslizar suave da água que me molha

As mãos gretadas pelo frio de Janeiro
Mas que teimam em apagar a imagem reflectida
Mais perece borrão, sem tinteiro
Afinal de que te ris olhar matreiro
Não vês que finjo não ver, a tua testa franzida

Pelos anos que passaram, e eu por onde andei
Não dei por eles, tinhas que vir tu, sombra esbatida
Num qualquer charco em que embiquei
Dizer-me envelheceste, eu ganhei
Isso pensas tu, sombra torcida….

22 janeiro, 2010

«« Esquecimento ««


Tenho duvidas, pedirei demais à vida
Por vezes fico estática, dividida
Corro tanto, sinto-me meta vencida
Mas, por vezes tapo a porta de saída

Tenho duvidas, pedirei demais à vida
Esqueço que a morte é fria e renhida
Não tem volta, reviravolta, apenas tem ida
Tenho duvidas, acabei de ser tolhida

Porque da vida tanto fazemos, ou nada
Porque tanto corremos, e não vemos
Que a vida é clareira aberta e abalizada

Porque quase nunca nos atrevemos
A premeditar o que vem a seguir
À vida, vem a morte mas quase esquecemos.

«« Ver ««


Porque será que vemos
Apenas o que os olhos querem
Ver é o reflexo sem tingir
Luz, vida e realidade
Ver é o analisar constante
É nota de uma opera clássica
É fervilhar de sentimentos
Medidos com fita extensível
Ás necessidades do que vemos
Ver não é o que pretendemos
Que mais alguém veja
Ver, será que algum dia vi
O caminho aberto
Os muros em baixo
Os vultos ao longe
Daqueles que dizem que me vêem
Será que algum dia vi
Aqueles que devia ver
Ver é o reflexo da existência
Um caminho longo
Será que consigo que vejam
Será que consigo ver
Ver, porque será que vemos.

E o tempo porque parece cego?

«« A vida ««


É mentira, a vida não pára não pode parar
São apenas dois pratos a balançar
A vida é o caminho entrecortado
É o pelo ao alto de gato escaldado

Quem sabe…

A vida começa quando quiser
Quando se sonha com o amanhecer
Quando vimos um filho nascer
A vida começa quando morrer

A vida é um rio desorientado
Outras vezes passo acertado
A vida é grosso camuflado
Ai meu Deus, triste fadado

E agora…

Será que a vida é serraria ignóbil
Será que é suave e dócil
Ou apenas é uma parte do vórtice
Trás sabedoria na velhice
E inquietude na meninice

Talvez…

A vida seja uma miragem
Outras vezes crua passagem
Até mesmo libertinagem
A vida será sempre uma fresca aragem

21 janeiro, 2010

««Adeus a um amigo. J. Pais ««


Vi-te vencer sob os ventos de mudança
Os teus sonhos foram sublimes fantasias
Os anseios, foram os de uma geração que avança
A quimera é criança que recordo, asas abertas

Assim a vida fez das suas, águas brotadas
Caminhaste sob elas em rodopio, asas brancas
De uma pomba que varre o céu, escasseiam as palavras
Que exprimam o que sinto, horas amargas

São aquelas em que vimos partir, todos aqueles
Que trilharam os nossos caminhos, assim a vida
É cruel quando trás a morte e a cicatriz

Que fica em todos nós que te recordamos através
Da imagem de homem livre, os teus amigos
Chorarão para sempre, negra saudade….

18 janeiro, 2010

«« Espanto ««


Ouve, o vento canta lá fora
A aragem trás o som do campo
E eu, imagino que a alma não chora
As gentes brincam e riem noite fora
O Alentejo floriu de novo, espanto
Sobressai do céu azul, inda agora

Ouve os sobreiros ondulam ao vento
e, os pastos murmuram extasiados
As estrelas brilham no firmamento
E eu, revejo-me criança, outro tempo
Uma trança solta, olhos esbugalhados

Querendo alcançar o mundo
O tempo é curto, muito curto

E o Alentejo empobrece
O mundo revê-se em tempos perdidos
As gentes caminham cansadas, entristece
A alma de quem chora, fingindo que canta, padece
Gritos mudos, em todos os olhares antigos

Como antiga é a ruga faminta
No semblante do homem velho
Ai Alentejo, quem quiser que sinta
O teu sangue a correr, crença extinta
Mas… o sol raiou, gritou liberdade, vermelho

Cor de papoila, floriu de novo
Nas asas de uma gaivota que veio ao sul
Trouxe um cravo vermelho, e o povo
Engalanou-se e saiu à rua, homem novo
O céu vestiu-se de azul

Assim as gentes cantaram e bailaram
Mas hoje no frio do Inverno… a terra chora
Alqueva, as águas brotaram
As almas de novo olvidaram
Mas… o sonho tarda a chegar, tarda a hora

E eu, recordo a criança, já cansada
É longa a espera,
Meu Deus, como tarda
O sonho adormece enquanto aguarda
Que o Alentejo floresça na Primavera

15 janeiro, 2010

«« Delírio ««


A noite cala o som dos teus passos
Aos meus ouvidos o silencio é atroz
Assim como os ventos varrem socalcos
A noite escura varre o som da minha voz

Que te chama nos momentos amargos
Aqueles em que a solidão é feroz
Meu amor se ouvir o som dos teus passos
Logo a seguir ouvirei tua voz

Meu amor meu delírio é enorme
É angústia que me mantém disforme
Meu amor já me dói o coração

De tanto por ti clamar sem retorno
Meu amor desculpa tanto transtorno
Mas sem ti sou casa sem ter pão

«« Erva daninha ««


Sou erva daninha, descobri
Afinal só o silêncio me quer
Sou pedra que rola por aí
Sou filha bastarda que atraí
Tudo aquilo que avier

Sonhei, atrevi-me, quem diria
Vi o sol abrir-me os braços
Imaginei que era dia
Que o amor resplandecia
Que terminavam os declives cinzentos

Mas a noite teima em dizer
És doida ninguém te quer

Tanto sonhas, acordada
Acreditas, sem pensar
És erva daninha ingrata
Nasceste tal um pirata
Em águas calmas surripiar

Porque te vês mulher altiva
Imaginas que tens direito
Ao amor divina dádiva
Não vês que nasceste cativa
Do frio que gela o peito

Do sangue que jorra morto
Da mortalha que enegrece
O poema absorto
Tal qual um poste torto
Que pouca solidez oferece

Descobri que tudo se afasta
Tudo tende a ir embora
É sol de pouca dura, um instante basta
Quem me quer entusiasta
Vira-me as costas, mas chora

Chora porque sou erva daninha
Daquelas que ninguém quer
Quando morrer morro sozinha
Se alguém me chora não adivinha
Que também choro e sou mulher.

«« Noite ««


A noite é madrasta, agora sei
É tão fresca e bela, de seguida
É um campo aberto sem lei
Por onde os delírios encaminhei
A noite é madrasta, ressentida

Conduz-me ao limite
Da existência, quem sou eu
Sou mendigo, sou pedinte
Sou filha do nada, com requinte
De rainha fechada em mausoléu

A noite é a minha confidente
Com ela converso horas a fio

Responde noite, quem sou eu
De onde me saem os versos, enviesados
Porquê os meus medos viram apogeu
Na roda que o trigo já moeu
Porque escrevo versos, como dardos

Porque a terra me sai pelas pupilas
Dilatadas pelo sol escaldante
As palavras são as minhas fantasias
São meus filhos e agonias
Porque o Alentejo é meu amante

Responde noite, quem sou eu
Sinto-me um nada em tudo
Caminho como quem perdeu
Outras vezes como quem venceu
Uma batalha, num velho mundo

Ah… noite estás surda!
Ou estou louca, eu
Falo, falo e tu muda
Agonizo, o dia que me acuda
Acabei de escrever o que ninguém leu

Noite assim te foste
O dia já raiou em flor
Talvez o sol goste
Dos meus versos e me mostre
Que és madrasta, sim, mas abafas a minha dor

14 janeiro, 2010

«« Destino ««


Mas! Afinal o silêncio é lençol que tapa
As fissuras que teimam em verter receios
O silêncio é o manto que afoga e mata
As recordações de dias felizes, anseios

Os meus que tento calar, os teus que o frio mata
O frio gélido, como gélidos são os braços
Fechados, sob o acomodar democrata
Dos corações que se esquecem dos laços

De fina fita de cetim que deus uniu
Apenas lhe chamo destino, meu amor
Apenas digo que o dia sempre sorriu

Pela manhã quando desperta o calor
Apesar da tempestade que varreu a noite
Quero acreditar, que amanhã florirá uma flor

Júlia Soares ( pseudónimo )

«« Colina ««

Na solidão por entre os ventos que fustigam
A noite vazia, varrem as ideias mas esquecem
Que a mente é serraria ignóbil que advêm
Da aresta polida pelas mãos que mendigam

O calor do teu corpo, nuns gestos que bendigam
Que o crer e o acreditar, são força e vencem
As negruras da alma, que se perde além
Onde o céu e a terra se unem, assim os ventos consigam

Embalar o meu sono, me façam esquecer
Que um dia acreditei ser tua, fiz de ti minha sina
Entreguei uma parte de mim, a que vi nascer

Debaixo do teu olhar, debaixo da colina
Que agora se desmorona e eu nada posso fazer
Silencio! É o vento que por fim se amaina

«« Baça ««


O chumbo pesa-me na memória, ou
As ideias recusam-se a sair, são icebergues
Frios e gelados, são pedaços de um eu
Perdido entre o eco e o silêncio simples

O chumbo pesa-me na memória, sou
O extravio de uma criação ignóbil mas cortês
Que acreditou em dias quentes e felizes
Esqueci que a seguir ao verão no céu

Se escreve as linhas outonais que auguram
O frio Inverno, e a memória fica baça
Fecham-se as ideias, nem sempre procuram

As clareiras abertas entre a chuva que encharca
O chão inundado, chamado coração
O chumbo pesa, e as ideias são fumaça

«« Reviravolta ««


Desmoronam-se os castelos no ar
Os peitos se abrem em chaga viva
As palavras são angustia fria e cativa
O sangue jorra pelas frestas num mar

De queixumes que só querem abalroar
O que resta do sonho, mera expectativa
Semblante distante, ou ultima tentativa
De um dia, apenas um dia, acreditar

Que o mundo gira ao contrario, a loucura
É maior que a analise sistemática do não
A loucura é crer na imaginária ternura

Aquela que se procura, como pão p`rá boca
Mas, que se desfaz como algodão doce
A loucura de crer que o sonho é reviravolta

07 janeiro, 2010

«« Esperança ««


De que serve a dor, porquê o choro sem ter lágrimas
Secaram-se num dia de Maio, o chão as engoliu
Os lírios murcharam, e as aves fugiram, ninguém as viu
O sol tapou-se nesse momento, foi dia de eclipse

Mas, após o breu gélido, a vida voltou e sorriu
Sabes meu amor, nem sempre as rosas florescem
Nem sempre as nuvens enegrecem
As rosas caiem antes de abrir, as nuvens ficam brancas

Como branca é a flor da oliveira
Sabes meu amor, a vida é sobranceira
Mas, a luzerna de sol engrandece o dia
Ao virar da esquina, uma porta aberta

Sabes meu amor, a seguir ao eclipse
As aves, voaram pelas janelas escancaradas
Os prados verdejantes lhes deram de oferta
A seiva da vida, em esperança renovada

Júlia Soares. ( pseudónimo )

«« Nascer de um verso ««


Diz-me vida, porque olho e te vejo
Ao longe, um tanto ou quanto difusa
Porque adormeço, na vastidão do Alentejo
Porque me sinto tantas vezes confusa

Ao olhar o dia, devia corar de desejo
Devia desabotoar os botões da blusa
Para que o sol me queime a pele, e num ensejo
Deixar que a terra faça de mim sua musa

Que cave socalcos na minha face alheia
Que se sacode, num não arrebatado
Devia me deixar embalar na acalmia

Do calor tórrido, ou no Inverno gelado
Nas diferenças que este chão transporta
E aí terra, verias nascer um verso inacabado.