Poemas declamados

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31 agosto, 2010

«« Cinzas ««


Tantas vezes somos reduzidos a nada
Outras tantas dividimos atenções por nada
Espalhamos palavras efémeras
Como quem semeia névoas
A névoa não se semeia
Nasce na humidade da razão
Fugazmente nasce das gotas de chuva
A névoa alimenta-se da nascente.

Falamos de amor
Como quem espalha brasas
Que morrem na morrinha da cinza fria
Cheira a queimado
O travo que fica numa palavra amorfa

Dividimos atenções
Galanteios e ternuras
Esquecemos que a ternura
É pura
Tal como a névoa
Igual ás brasas
Contudo névoa e brasa não combinam

Tantas vezes somos reduzidos a nada
Ao tropeçar num caminho paralelo
Num buscar constante por entre brasas
Que viram cinzas
E cinzas que viram névoa
Sempre que o vento as sacode.

29 agosto, 2010

«« A i de mim ««


Olho para dentro mim
Tento decifrar o inatingível
Quem és tu
Olho de novo
Apenas eu…

Olho-me nos olhos
Revejo-me na melancolia estampada
Ou no rir desavergonhado
Revejo-me
Em cada silêncio
Cada grito e lamento
Na ladainha sem fim
Ai de mim
Por vezes viro as costas
Não sei quem sou
O que quero, por onde vou
Nesses dias
O melhor é fingir que não vejo
Aquilo que esperam de mim
Que ria
Mas eu não quero rir
Que chore, só me apetece rir
Que oiça
Como se estou surda
Não, não oiças…
Era o que me faltava
Tenho ouvido de tísica

Nestes dias
Olho para mim
Em segredo digo

Olha
Fixa aquela parede branca
Ao fundo do quintal
O teu quintal…
Olha
O melhor é rires de ti.

Mas volta tudo de novo
Não me apetece rir.

«« A tarde ««


A tarde começa
Transporta o vento
No vento a lança
De um pensamento

Corre apressado
Ao encontro do ir
Tempo amainado
Percorre o futuro
Destrambelhado
Parece ruir
Num tempo hirto
Se vai sem vir

Mas…

Eu sinto que o vento é lança
Corre sem rumo
O seu acertar é incerto
Quantas vezes eu não sei
Se ele chega e alcança
O pensamento

Ou se passa distante
Sem sequer tocar
Se faz despertar
Um sono constante

Uma ideia, a mente
Que se teima em fechar
Parece lenha por rachar

E a tarde…que segue dolente

26 agosto, 2010

«« Tem cuidado comigo ««


Tem cuidado comigo
Sou caule de rosa bravia
Ave solta fugidia
Sou sobreiro no meio do campo

Sou no tempo imperfeita
Mulher de medos, mas
Ergo-me com as manhãs
Solto num ai, acredita
Os medos, solto-os ao vento
Esqueço queixume e lamento
Viro garça em pleno voo
Solta de amarras, sou como sou

Sou caule de erva que cresce
De silva de rosas brancas
Em cada ideia me entrego
Assim os medos renego
E abraço o novo dia.

Tem cuidado comigo
Ás vezes sou de cristal
Outras sou pedra fria
A dor me moldou um dia
Em barro vermelho de sangue
A terra me cobriu do frio
A noite me tingiu de preto
Mas o sol do Alentejo
Cravou na minha pele branca
Lanças de força e de esperança
Comigo teve cuidado
Me embalou no montado
Me calejou o desejo
Me adormeceu com um beijo

Por isso tudo
Te peço
Que comigo tenhas cuidado.

«« Lonjura ««

Num olhar preguiçoso
Tranquei a lonjura
E o dia sereno
Me acenou com doçura

Na palma da mão
Tranquei a sete chaves
Amor, paixão, um sol em clave
Manhãs orvalhadas
Tardes onduladas
Pela brisa que corre
Esperança que não morre
E refresca a saudade
Tranquei a ansiedade
Que aflige o coração

Na palma da mão
Tranquei a lonjura
Com um olhar ocioso
Vislumbrei formosura

24 agosto, 2010

«« Ciume ««


Porque salta o coração
A pensar no amanhã

Desliza em força estranha
Que afogueia em combustão
Com o calor do teu respirar
O toque suave dos teus lábios
Nos meus cabelos
Meu amor, são coisas de pasmar
O trémulo sentir da dor
A incerteza num beijo ido
Num diálogo perdido
No verso cândido de amor
Não é meu
É de uma ilusão que procura
Em cada esquina a amargura
Na alma da mulher que passou
Sob o teu olhar pasmado

Porque me salta o coração
Sempre que olho de longe
Esse caminhar desenraizado.

«« Lágrimas ««


Duas pétalas
Caíram
Nos meus cabelos
Afaguei-as
De mansinho
Levei-as
Aos lábios
Beijei
Os olhos teus.

«« Quero-te ««


Quero-te
A simbiose entre ser e o incerto

Adormecer nos teus braços
Deslizar nos teus lençóis
Por entre mãos
Desembaraços
Agitar de lenços
Na despedida

Quero-te
Manuseamento de emoções
Medos, paradoxos
Arrebates, constatações
Sentires a naufragar
Por entre rosas bravias

Quero-te
Amedrontada a teus pés
Sinónimo e paixão
Beijo trincado
Corpos em combustão
Arrancar de alma
Em lenha afogueada

A simbiose entre o meu e o teu olhar
Entre nossos corpos cansados
Buscando por caminhos imperfeitos
Outro perfume
Quero-te como me queres
Leve, como uma pena
Solta na aragem que me faz
Querer-te com medo
Mas serena…

22 agosto, 2010

«« A eira ««


Demasiadas pedras na eira
Até as gralhas são demais
Querem grão, ou querem chão
Em demasia são os ais

Solta-se uma pedra pequena
O seu rumo é preciso
Rebola, não tem juízo
Atira-se em queda plena
As gralhas em alvoroço
Esvoaçam engraçadas
As pedras espalhadas
Pela eira, são menires
As gralhas embaraçadas
Não adivinham os sentires
E a pequena pedra

Rebola e vai sorrindo
Quem sabe irá cair
Ao longe num ermo lindo
A eira
Essa coitada
Está atulhada de grão
Deita as mãos á cabeça
Não há quem mereça
Adivinha confusão

Ou o grão salta dali
Ou o dia vai terminar
Com uma dor de cabeça
Quem lhe irá ajudar
Voltam as gralhas
A esvoaçar

A pedra que é pequena
Mas de matreira tem tudo
Á eira diz faz novena
Ou o caso fica bicudo…

«« Perdas ««


Perdem-se os medos
Os arreios, os enredos
Até a dor
Perde-se amor
Por pavor, ou invenção
Perde-se aflição
Como quem perde
Nada, de seguida tudo
Perco, perdes tu
Outros ganham

Ganham com o dia
Com o oiro, quem diria
Ganham batalhas
Sem sair da cadeira
Primem o gatilho
Na distância
Grita o dia
Chora a mãe
A criança
Perde-se a vida

Outros ganham
Com o trigo
Com o medo
Com a fome
Mata-se gente
Aos milhares

Perde o nome
Perde tudo
Num só dia
A razia

Ganhei eu
Quem diria
Ao ouvir-te
Nesse dia.

21 agosto, 2010

«« Contas ««


Serei mais uma conta por entre as contas
Serei um numero ou estatísticas
Serei numero quadrado, serei redondo
Numero fechado, depois do rombo
Que um numero faz na adição
Ao somar, ou na multiplicação
Serei mais uma conta por entre as contas
Serei numero redondo
Que cai com estrondo
Na borracha que o vai apagar
Por entre contas de somar.

«« Perco a razão ««


Perco a razão…

Perco a razão
Sempre que me visto
De mim
Sempre que o eu
Me cobra
Perco a razão
Na razão contida
Na força desmedida
Que conheço bem
Sei que perco a razão
Mas a razão
Me leva mais além
Perco a razão
Na razão dúbia

Com a qual não sei lidar.

20 agosto, 2010

«« Alento ««


Soltei-me de correntes
De amarras e grilhões
Larguei-me solta
Pela ladeira do incerto
Bati no fundo
Um novo recomeço

Sem olhar para trás
Emergi
De novo naufraguei
Nas asas do vento
Que me carregou no colo
Me deu alento

Agora
Peço que o tempo me dê tempo
Para ser eu
Ao vento, a dar alento

«« Noticias ««


Espero que de longe me cheguem
Noticias de um tempo vindo
Espero que os olhos indaguem
Porque as folhas estão caindo

Se o Outono ainda tarda
Se vento quase não há
Que será que perdurará
Aos olhos de quem aguarda

Noticia que está ausente
Ou de uma que se foi
Livrar-se do que corrói
As entranhas do presente

Espero que a lonjura traga
Noticias em que contem
Que o Outono é retaguarda
Que o verão começou ontem


E que amanhã de manhã
A Primavera floresça
As estações estão trocadas
Como as rimas eu troquei
No cimo de uma montanha
Estes versos escreverei
Para que o Outono apressado
Não deite as folhas ao chão
Noticias de mão em mão

Eu procuro em qualquer lado.

No tempo, no vento e na noite
No dia e no luar de Agosto
No canto do melro á noite
Ao meio dia, no piar do mocho
Na água que vai correndo
Na ribeira atrás do cume
Daquele ermo distante
Onde a espera desespera
Noticias vindas a lume
Na ponta de uma quimera

19 agosto, 2010

«« A tarde «


A tarde que começa
Transporta o vento
O vento que é lança
Tal o pensamento

Corre apressado
Ao encontro de tudo
Pelo tempo amainado
Percorre o futuro
Outras destrambelhado
Parece ruir
Num tempo perdido
Se vai sem vir

Mas…

O vento é lança
Corre sem rumo certo
O seu acertar é incerto
Quantas vezes eu não sei
Se ele chega e alcança
O teu pensamento.

Ou se passa distante
Sem sequer te tocar
Se te faz despertar
Uma saudade abundante.

«« A aragem ««


A aragem entra pela janela entreaberta
Acoita-se no meu rosto fechado
Há tanto tempo não sorrio, riso alargado
Há tanto tempo que me sinto abolida

Do rir franco da mocidade solta
Do rir sincero, rir extravasado
Rir, rir de mim, de ti, do mundo tresloucado
Rir da morte, da dor, do ódio, pouca

É a vontade de rir, a meio da vida
É a vontade de seguir em frente
Muita é a saudade sempre presente

Das gargalhadas por tudo e por nada
Das brisas suaves entrado devagar.
O raio desta aragem que me quer regelar.

18 agosto, 2010

«« Escuro ««


Porquê o escuro me olha
Sem ter nada a dizer
Porque será que desfolha
Em silencio o meu entender

Serei louca que procura
As respostas sem saber
Que respostas são doer
Que é a loucura lonjura
Escuro, que me estás a ver
Andar de lado em lado
Buscando em passo apressado
As respostas que estão velhas
Cheias de chagas abertas
Desfolhadas no meu viver

17 agosto, 2010

«« Não me deixes ««


Não me deixes fugir
Nem virar as costas
Num ímpeto
Não me deixes
Ir por entre os dedos
Inertes

Segura-me com um olhar
Ou então com um silêncio
Não me deixes naufragar
Tão pouco morrer de frio
Segura-me contra vontade
Se disser não é mentira
Digo não mas a verdade
O sim há muito afluíra

Não me deixes fugir de mim
Nem queiras olhar pró lado
Porque quem se vai, no fim
É o crer apunhalado

16 agosto, 2010

«« Surpresas ««


Surpresas são armadilhas
Das mentes que estão cansadas
São embuste, grandes matilhas
De emoções asfixiadas

Surpresas são arremessos
De uma alma contida
Ou de mente dividida
Entre o fim e os começos
Quando já nada condiz
Com aquilo que se desdiz
A cada olhar humedecido
Pelo outro embevecido
Surpresas, são andorinhas

Negras de tão brilhantes
No seu voar abismado

Eu juro que surpresas
São amores inacabados
São beijos sem ser roubados
É o roçar da pele quente
É fugir como demente
Por uma rua sombria
Surpresas são eu diria

A noite antes do dia
A lua pelo meio dia

O sol depois da chuva
A hora que sempre muda
Em cada nova vontade
Surpresas são a saudade
Que bate á porta mansinha
É a cara de manhãzinha
Olhando o espelho já farto
Do cabelo despenteado
Do ar de quem quer dizer
Que logo ao adormecer

Surpresas quero-as longe
Quero-as num rio afogadas

Ou quem sabe as quero perto
Surpresas são peito aberto
Dividido em mil pedaços
Metade quer os teus braços
A outra metade, repensa
Que surpresas são compressa
Que as feridas vão sarando
Em cada frase saltando

Surpresa este poema
De uma fiz vintena
Tal qual uma novena
Que pede aos santos, ordena
Que te tomem pela mão
Que te guardem com devoção
Nesses caminhos perdidos
Porque não quero os cadilhos
De uma surpresa fria
Não quero que seja o dia
A dizer-me que se foi
Aquilo que a alma moí

Na surpresa do coração.
Surpresas são desleais
Saltam, saltam, como pardais
Suspensos na emoção

«« Uma canção de amor ««


Fecho os olhos e imagino
O que as cigarras estão cantando
Uma canção de amor

Fecho os olhos e imagino
O meu imaginar me revela
Navego num barco á vela
Que me conduz sem destino
Por um desejo felino
De me acoitar nos teus braços
Rir sem embaraços
Da vida que passa lenta
Tantas vezes desatenta
Soltar-me num sorriso genuíno

Aquele que me recordo
Ao som das cigarras cantando
Os meus olhos estão chorando
Porque choram, nem eu sei
Apenas recordei
O teu jeito de sorrir
Aquilo que julgo sentir
Neste momento tristonho
Eu não quero, mas suponho
Que navego a bombordo

Rumando, e lá alcanço
Atrevo-me de novo a escutar
As cigarras a cantar
Os meus olhos num ensejo
Olham as cigarras, sei que as vejo
Asas abertas ao sol
Por debaixo de um girassol
Cantando uma canção de amor
Peço um pequeno favor
Que te levem o meu abraço

Mas que o tragam de volta
Com os teus braços enlaçados

13 agosto, 2010

«« Ao (a) visitante Jesus««



Quando a merda não tem cheiro…

Quando a merda deixa de ter cheiro
É sinal que nos habituámos a ela
Quando a merda vira medalha
Está exposta num cubículo

Quando a merda quer ser arte
Ai Jesus mas que estandarte
Parece farinha bichada
Cheia de fungos cinzentos
Que viraram coagulo
No cérebro atrofiado
De um actor mal disfarçado…
Vestiu a roupa ao contrario
Passeia em traje de fake
Exibindo a arrogância
Pobre tolo, mas que ganância
Nem a forte caprichada
Lhe tira o cheiro, a fragrância
A franga do aviário…

Jesus

Agradeço os comentários enviados se era atenção que queria aqui a tem, se era merda aqui a tem também, se voltar a haver próxima vez pode ter certeza que publico tudo o que aqui ou em qualquer outra página minha deixar, só não o fiz desta vez porque quem aqui vem me merece todo o respeito. de qualquer maneira agradeço o tempo que perdeu a pensar que me chocava ou me ofendia, a burrice sim ofende-me agora o exibicionismo barato nunca.

«« Ando no mundo perdido ( Glosa ) ««




Mote
Ando no mundo perdido
Sem saber que hei-de fazer
Vejo tanto cabelo comprido
E tanta gente a sofrer.

Porque anda tanto bandido
Bem vestido e a rigor
Com capa de doutor
E canudo bem esticado
Deita o olhar afiado
Aos bolsos do povo então
Roubam tostão a tostão
Com ar de forte chalaça
Comem á mesa a desgraça
Ando no mundo perdido

O meu país a doer
No sangue que corre atrás
De ideias, aliás
Que estão em banho Maria
E qualquer dia, qualquer dia
Nem os santos nos acodem
Eles comem tudo, tudo comem
Se dizia antigamente
E eu até ando doente
Sem saber que hei-de fazer

Não escutam o que eu digo
Esta rapaziada d`gora
Não sabem de antigamente
Nem daquela boa gente
Que caiu ao chão e morreu
Por um sonho que era seu
Liberdade, liberdade
Onde está a fraternidade
Um sonho que esmoreceu
Mas sabem que digo eu
Vejo tanto cabelo comprido

Não é que seja mau de ver
Esta gente que cresceu
Num país que amanheceu
Depois da noite tão fria
Mas quem a mim me diria
Que em toca de coelho
O país partiu o espelho
Que é viver em democracia
Mas quem vê a asfixia
E tanta gente a sofrer.



Esta glosa foi escrita sob um mote que o amigo António Prates me enviou, confesso que nunca tinha escrito sob um mote de outra pessoa, mas foi uma experiência interessante, porque neste caso a escrita correu ao sabor das emoções de outra pessoa, o mote que parece simples não o é muito se poderia escrever através dele, eu dei-lhe a forma das gentes da terra agarrei-me ás recordações de muitas conversas de fim de tarde que estas gentes mantêm neste Alentejo profundo, amigo António Prates, espero que não o tenha desiludido e não tenha transfigurado o seu mote numa visão muito minha.

12 agosto, 2010

«« Conversas ««


Oiço cada palavra que a vida solta
Numa sofreguidão que serena
A alma, aqui e ali revejo na voz amena
Uma saudade que traz a dor solta

Na ponta de uma insónia revolta
Nesse instante, revejo-me pequena
Uma catraia reguila de pele morena
Correndo p`lo campo, que me traz de volta

A um tempo ido, os cravos floriram
E eu acreditei, num país moribundo
Sentei-me á mesa e ouvi os velhos

Falaram-me da guerra, e dos arreios
Que agora recordo olhando os teus lábios
Solto-me na palavra que é vida sem volta

«« Sou de um tempo imperfeito ( Glosa ) ««


(Mote)
Sou de um tempo imperfeito
Não termina, nem germina
Está preso, tem defeito
Como cepa sem vindima


Num caminhar aflito
Percorro sete caminhos
Cercados de sete espinhos
Que me espetam a aflição
Fazem-me gritar não e não
A cada picadela ao de leve
Que deixam marcas na neve
Na neve dos meus cabelos
Que se solta em ais amargos
Sou de um tempo imperfeito

Sou rua sem ter esquina
Moinho sem ter trigo
Quem quer saber do que digo
Nos dias que acordo viva
Porque noutros há quem diga
Que dos mortos eu saí
Há quem grite eu vi, eu vi
Sua alma em negação
Caminha em contra mão
Não termina nem germina

Na correnteza a preceito
Se soltam gralhas brancas
Aqui e li vozes francas
Falam de um tempo que é meu
De algo que não volveu
E que a neve soterrou
Génio que não inventou
A lâmpada de Aladino
Não olhem pr`o meu destino
Está preso tem defeito

Mas caminho rua acima
Lá no alto encontrarei
Semente que semearei
Da qual nascerá o feitiço
Do que não digo e cobiço
Do que almejo, e sei que é meu
Um pedaço de azul do céu
Lá ao fundo da planície
Não olharei a velhice
Como cepa sem vindima.

11 agosto, 2010

«« Estou em dia não ««


Não queiras saber de mim
Como diz a bela canção
São vozes de mão em mão
Que me matam, ai de mim

De mim não queiras saber
Sou filha do vento suão
Carrego na imensidão
A voz, de outra qualquer

Também carrego as dores
Carrego, choros, maresias
As tristezas e alegrias
De paixões e desamores

Não queiras saber de mim
Eu de ti quero saber
Quantas vezes julgo morrer
Por não querer, e pensar assim

Depois pego numa caneta
Dou asas á imaginação
Cavalgo o vento suão
Julgo-me um velho cometa

Jogo-me em queda franca
Nas rimas que vou soltando
Rio e canto esvoaçando
No peito uma pena branca

Que me espeta e quer moer
Em cada estrofe parida
Revejo larga avenida
Em tudo o que sei escrever.

Mas o que queria dizer
Escondo a sete chaves
Aquilo que tu não sabes
É que fujo ao escrever

Fujo talvez das gentes
Que pelo meio se aquietam
Não sabem mas completam
Os meus versos emergentes.

Não queiras saber de mim
Porque estou em dia não
Encostei-me à solidão
E das rimas fiz festim.

10 agosto, 2010

«« Melodia ««


Se eu partir ao encontro de mim
Será que te arrebato pelo meio
Quem sabe me afundo num enleio
Onde o tempo se prolonga sem ter fim

Se eu partir ao encontro de mim
Quem me diz se colho ou se semeio
Ideais que saltam em funesto devaneio
Numa dança enfeitada em frenesim

Onde as mentes se entrelaçam sem olhar
Ao medo de dançar, até virar o dia
Onde os corpos se entrecruzam com magia

Talvez eu cante tristemente até fartar
Uma canção triste, até as garças chorarão
Com o som da melodia em abolição.

«« A tarde ««


A tarde chama-me discreta
Convida-me para um conversa com o poente
Encolho os ombros, e respondo indiferente
Conversas, há muito perdi o jeito
Assim como perdi olhares a direito
Perdi a vontade faz tempo
Apenas me resta um fragmento
De areia que desliza pela ampulheta

De esperança…

A tarde olhou-me de novo
Mostrou-me um ponto distante
Que se aproximou de rompante
Era a morte
Olhar sinistro, forte galope

Uma aragem gelada me verga

A tarde falou baixinho
Viste, varreu tudo em desalinho
Da próxima quem sabe és tu
Por isso vive, vive o apogeu
Do fim de tarde, olhos ao céu
Vislumbrarás um arco íris
Preso na ponta lápis-lazúli

E o verde da esperança

Também lá está
Estão lá flores amarelas de giesta
Rosas vermelhas
O âmbar das cearas
Do trigo que faz o pão
O lilás da ilusão
O rosado de uma mão

Que espera

Espera que se entrelacem os dedos
Que se confidenciem segredos
Que a tarde que chega
Traga a noite que carrega
O pulsar da alma
De uma paixão calma.

07 agosto, 2010

«« Um beijo ««


Coloco um sonho num beijo
Num passo surdo
Num grito mudo
Que encobre o desejo

Mas, afasto-me pela rua sombria
Levo comigo o teu olhar
Que me pede para ficar
Será que vai haver outro dia

Coloco um sonho num beijo
Dado como quem quer agarrar
O momento, e eternizar
Todos os delírios num ensejo

Duas mãos unidas
Presas pelos deslizes da vida
Duas almas vencidas
Pela solidão escondida

A rua sombria traz de volta o calor
De um momento
Como voa alto o pensamento
Como queria voltar, mas a dor
De quem se sente perdida
Empurra-me pela rua esquecida
Será que fujo do amor
Talvez fuja de mim mesma
Fujo de uma lágrima que flameja
O meu rosto, num rio de sal


Que desagua num areal pintado pelo medo
Que os teus olhos me esqueçam
Que os teus lábios me ignorem
E as tuas mãos vazias de mim
Se reconfortem noutro alguém.

«« Degredo ««


O silencio olha-me de soslaio
Rogo-lhe que me olhe de frente
Que me faça sentir um pouco mais de gente
Que me consiga atrair algum fascínio

Fico presa no sonho de um momento
Seria tão fácil quebrar amarras
Quebrar em mil partículas as algemas
Com que a sorte me dotou

Sinto-me envolta numa neblina surda
Tantas vezes sou ultrapassada pelo medo
Outras tantas pelo degredo
Que impus a mim mesma

E o silencio que continua a olhar
Mede-me metricamente
Acusa-me de ser contundente
Segreda-me que é preciso acreditar

03 agosto, 2010

«« O dia e a noite ««


O dia á noite segredou
Que um certo namoro existia
Fica a noite embasbacada
Olhando o poema pasmada
Quem diria, quem diria
Quem de tal se lembrou

Diz o dia num repente
O culpado é o poema
Apenas quer arranjar tema
Para um versejar diferente

A noite pensativa
Responde olhando o negro
De um lago e seu mistério
Quem sabe é rima cativa

Rima cativa é triste
Responde o dia ausente
Seu sentido num repente
Se entregou de lança em riste

A um coaxar distante
A uma musa perdida
O dia se afastou de seguida
Deixando a noite indiferente

A noite ainda tentou
Em lhe acenar um adeus
Será que aos olhos seus
O namoro acabou

O dia ainda ouviu
E pensou voltar atrás
Mas uma estrela sagaz
Ao seu brilho o atraiu

Segue a noite solitária
E na fria madrugada
Encontra presa na cauda
De uma estrela imaginária

Um poema escrito a dois
Belas rimas que se cruzam
Quem disse aos poetas, seduzam
Sabia que existiam sois


Nas frescas manhãs brilhantes
Assim a noite cansada
Avista o dia em caminhada
Em versos que se unem, distantes.

02 agosto, 2010

«« O meu e o teu ««


O que é meu dispersa-se por entre penedos
Há muito que não sei o que segue
Por vezes penso será que persegue
O impossível, por entre o arvoredo

O que é teu, não lhe adivinho o segredo
Umas vezes acho que apenas esquece
O que o meu não vislumbrou, logo parece
Que os passos desencontrados são penedo

Que rebola ribanceira abaixo e cai
Num charco de água negra, onde coaxam as rãs
Num declive agreste que pelo tempo se esvai

Em desejos amarfanhados pela manhã
Que ao longo do dia se soltam com mestria
O meu e o teu, parecem tenda de campanha.

01 agosto, 2010

«« Carta aos meus leitores ««





As cartas a mim mesma, nasceram pela necessidade que comecei a sentir de me desnudar perante quem me lê. Chega um momento em que quem escreve de maneira assídua como eu o faço, ao mesmo tempo que vou publicando quase tudo o que escrevo na Internet que começamos a sentir uma certa responsabilidade perante os nossos leitores, acho que acontece o mesmo com todos aqueles que se dedicam á escrita, de forma séria, e que sabem que sem a escrita parte da sua vida deixaria de ter sentido.
Um dia farta de escrever e manter em segredo que gostava de o fazer, porque na altura escrevia poesia, ou melhor, fazia umas quadras de vez em quando, abri o Blogue, Escrita Trocada, o mesmo que mantenho desde o dia 29 de Setembro de 2007, aí comecei a publicar tudo o que ia fazendo, só mais tarde entrei no site Luso Poemas, comecei assim a gatinhar na escrita, ao fim de algum tempo já dava passos mais ou menos debilitados, desde o começo que as pessoas que entram no meu blogue me deixam mensagens de incentivo, algumas fazem-no por mail, isso deu-me força para me tentar superar em cada poema escrito, em cada quadra e mais tarde em cada soneto, hoje passado este tempo todo tenho plena consciência que foram os meus leitores, a grande maioria anónimos que me ajudaram a ser o que vou sendo na escrita, aprendi imenso nestes quase três anos e muito me falta aprender ainda, porque tenho consciência que quer seja na escrita ou noutra faina qualquer nunca sabemos tudo, muito pelo contrário sabemos sempre muito pouco, o mundo evolui com uma força estonteante e nós somos diariamente ultrapassados por ele.
A única interacção que mantenho com quem me visita no Blogue é através dos escritos que vou publicando, pois decidi desde o primeiro momento não responder a comentários no blogue, uma das razões, é que acho que a poesia muda de textura aos olhos de cada um, e eu ao contrariar ou apoiar um comentário iria criar um novelo de opiniões, todos sabemos que grande parte dos leitores dos Blogues, o faz precisamente por poder entrar em dialogo, digamos assim, com o autor e com os outros visitantes, eu queria sentir se realmente valia a pena investir nesta cruzada, essa também a razão de não responder a comentários.
Hoje tenho plena consciência que sim, que fiz a escolha certa.
Sinto assim a necessidade de me dar a conhecer um pouco mais, se mais não fosse seria pelo respeito, que todos os que me visitam nos mais variados sítios, onde vou publicando me merecem. O autor ao escrever poesia ou prosa veste-se de mil fatos e encarna mil personagens para transcrever o meio que o rodeia, contudo não acredito na teoria que o autor é um e o homem é outro, não, isso para mim não passa de retórica intelectualizada por quem quer escrever á sombra de alguma coisa, que me desculpem os que discordarem desta minha visão, autora e mulher são uma só pessoa, a mulher sou eu, a autora só escreve aquilo que eu quero que ela escreva, pode escrever sobre histórias verídicas ou ficção, mas escreve tão somente a minha visão sobre determinado assunto, seja amor ou ódio.
Tudo isto para dizer o meu muito obrigado a todos vocês que me lêem, para com todos vocês tenho algumas obrigações, e uma delas é que conheçam a mulher por detrás de cada verso, a outra é tentar manter uma escrita séria e construtiva, tentar mexer com a mente e o coração de quem me lê, acho que essa deve ser a missão de quem tem o dom da palavra, se Deus nos dotou com determinado dom, então vamos fazer desse dom uma arma, certamente não mudaremos o mundo nem mentalidades, mas quem sabe não fica uma semente.
Mas não pensem com isto que vão ficar a saber tudo, não queriam mais nada. Beijinhos a todos.