Poemas declamados

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31 maio, 2010

«« Passado ««


Porque o passado me atrofia
Tento fugir o mais que posso
Um dia atrás do outro, quem diria
Que o passado, cheira a calabouço
Porque o passado me atrofia
Esquece-lo sem remorso
Digo pra mim, talvez um dia
O veja morto, dentro de um fosso

Desmedida é a razão
Que impele o esquecimento
Coisa inútil, sim ou não
Pássaro feio e agoirento
Dias perdidos, solidão
Dor encoberta e sofrimento

Todo o passado já se passou
Haste partida, ao meio a vida
Linha do tempo que esmiuçou
A alma nua na despedida
Logo a diante, se encontrou
Com o hoje, uma saída
Riso na boca que penetrou
Lá mais à frente, linha da vida.

27 maio, 2010

«« Pedido ««


Pedi à lua que me desse ilusão
Ao mar pedi a saudade
Pedi ao sol com tão grande vaidade
Que me trouxesse calor e paixão
De seguida pedi a Deus
Por favor, dá-me um pouco de tudo
Apareceu aos olhos meus
Um rosário de flores, mas contudo
Achei que ainda era pouco
E pedi ao vento em rajadas
Beijos de amor quase louco
Fontes de mel, águas brotadas
Na minha ânsia absurda
Não pressenti o fim eminente
Em cada conversa muda
Uma passo atrás novamente
Agora peço à terra molhada
Pelas lágrimas que saltam da alma
Dá-me terra nesta hora assombrada
A sabedoria de chorar com calma.

23 maio, 2010

«« Preciso de um silêncio ««


Porque a noite me trás apatia
Numa voz matreira
Ponta de ironia
Porque me passa rasteira

Preciso de um silêncio que murmure

As palavras que preciso ouvir
Sempre que escorrego
Pela ladeira do infeliz

Preciso de um grito que me acorde

Da letargia que passou
Esta noite, olhou-me com olhos demoníacos
O olhar de quem já não sabe

Se é gente ou bicho
Se é noite ou dia
O que foi capricho
Firmou razia

Preciso de um silêncio

Por onde penetre a tua voz
Sussurrando um tudo
E nesse tudo eu me sinta aninhada.

22 maio, 2010

«« Ciúme ««


Será o ciúme
Uma praga

Que destrói por onde passa
Será o ciúme caduco

Declínio da mente
Imaginação constante
Eu sei que presente
Teu rosto contente

Será o ciúme uma praga
Serei eu demente
Teu andar diferente
Numa estrada rasgada
Pela rigidez da vida

Sem mim.

21 maio, 2010

«« Saudades ««


Saudades!
Saudades de quê?

De uma gota de chuva
Do vento que passa
Saudades

Um amor, a história
De uma noite de insónia
Saudades

De um calor, aconchego
O partir num beijo
Saudades

São o meu clamor
Num verso de amor
Afogar de saudades

«« Tardes calmas ««



Passeiam-se as almas
Daqueles que se foram
Vagueiam sem retorno
Pelas tardes calmas
Desconhecem que partiram
Nem sabem que o nunca é eterno

Passeiam-se as almas
Na terra que arde
Espinhos cravados na mente
Abrem profundas chagas
Pior que uma alma dormente
Só uma ideia que abate

Sob o inacabado, por encontrar
Não ligues, não sei quem sou
Talvez seja a alma
Que vagueia sem desvendar
A meta para onde vou
Uma sombra na tarde calma

«« Dia de chuva ««


Foi num dia de chuva
Que inundava a terra seca
Vi a vida desnuda
Em asas de borboleta

Tão ensopadas em água
Da alma vi o reflexo
Desfiando toda a mágoa
Nos campos do Alentejo

Foi num dia de chuva
Que corri a céu aberto

Ai, Alentejo perdido, pelos olhos encoberto.

«« Terra vermelha ««


Pergunto à terra vermelha
A razão da minha razão
Porque o destino é maresia
Que vagueia tal a ovelha

Pelos campos com mestria
Em dias sim dias não
Aqui e ali aflição…
- o montado que diria

Morre a olhos vistos
Será destino ou cansaço
E, esta minha razão, é o meu embaraço

De nada - Alentejo a desfalecer
E nada, nada posso fazer
Pergunto à terra vermelha

19 maio, 2010

«« o Soneto que não é Soneto ««


Sentada sob o céu estrelado oiço
O vazio que habita em mim, sublime
Daquele que sem saber o desejo oprime
Sentada sob o céu estrelado, escrevo

Aquilo a que chamo poema inacabado
Um soneto na palma da minha mão
Exige que o deixe voar, mas a minha razão
Roga, que o deixe dormir, inebriado

Pelo brilho das estrelas, aconchegado
Pelos poetas do passado acarinhado
Pela métrica, e pela rima lado a lado

Mas na minha vaidade ignóbil tento
Atirar as rimas ao cume da imperfeição
Acaba de finar um soneto na minha mão.

17 maio, 2010

«« Versos ««


Não me peçam para fazer versos
Versos o que são, são o vento
Que desliza no meu pensamento
São a nuvem que passa, talvez os beijos

Que o montado recebe dos braços
Da sorte quando troveja e o céu é cinzento
Desfaz-se o relâmpago, em pranto
Parte-se em dois o sobreiro aos pasmos

Versos,que será que são, será o ensejo
Será o meu verso, dia que passa sem sombra
É o sol escaldante do meu Alentejo

É a ceara que falta nas terras de sobra
É o som estridente de um melro, realejo
O meu verso, é terra seca de ponta a ponta.

16 maio, 2010

«« Suspensa ««


Sinto-me suspensa num fio de seda
Tão fina, tão fina que parece feitiço
Sinto-me presa naquilo que cobiço
Um beijo ao deitar, uma alameda

Por onde passear, sem curva ou vereda
Um caminho a direito, cheiro a manjerico
Tua mão na minha, ao longe um músico
Toca uma flauta, esta noite encantada

Sou acarinhada, pelo vento gélido
Olho pela janela, há estrelas no céu
Uma sombra triste de um galho caído

Olho mais além, escuro como breu
O meu fio de seda, quebrou-se atraído
Pelo galho velho, meu peito doeu.

15 maio, 2010

«« O poema irado ««


O poema estatelou-se no chão árido
Vociferaram as visaras em prantos
Os dedos apontaram, eram tantos
Os pontos apontados, um mísero fado

Foi o que sobrou do poema irado
Porque o corpo tombou nos flancos
De um pedaço de papel, nos ventos
Que uivaram, logo apareceu vincado

O riso mordaz que não entendeu
O poema, irado olhou de desdém
O riso mordaz, afinal serás camafeu

Gravado no dedo que se perdeu além
Apontando o poema que agora moeu
O olhar viciado que fica tão aquém

14 maio, 2010

«« Prece ««


Ergo as mãos aos céus em prece
Peço que as pedras rolem ligeiras
Peço que me vejam de mil maneiras
O tempo passa mas não desvanece

A sombra no olhar de quem reconhece
Que é nada, e o nada é ribanceira
Por onde subimos a vida inteira
Para logo descer, assim acontece

Ergo as mãos aos céus, rogo-te a ti
Que não sei quem és, a força que tens
Comanda a sorte, será que eu a vi

Estampada no rosto, lá de onde vens
Sorte maldita, bendita, desdita, ai…
Que será das pedras que me são reféns

13 maio, 2010

«« Praga ««


Se eu cantar em alta voz, cantarei o meu
Sangue, jorrando da garganta em chaga
Cantarei, uma mulher morta, a saga
De uma planície, que um dia viveu

Os sonhos de outros, o Inverno gemeu
Num frio cortante, uma promessa em praga
Um grito da alma, vazia a malga
Remoendo a fome, uma mulher morreu

Aqui e ali, gravado no chão sem brilho
Estampado nos rostos, olhar de gentio
Aqui e ali, presos os sonhos de um filho

Que se foi na guerra, sem nenhum pavio
Se eu cantar em alta voz, é meu gatilho
Solto no ar, sem arma e muito cadilho.

«« Já poeta não sou ««


Já poeta não sou, morri num mês de Maio
Deixei vincada na rocha, a dor e a alma
Ao lado de uma costela, repousa a calma
Sobre elas esvoaça um vistoso Gaio

Já poeta não sou, soltei um papagaio
De papel, em mil cores e pouca fama
Soltei versos no mundo, leito de lama
Escrevi tudo o que sou, sendo lacaio

De poetas doutras eras, que abriram valas
Profundas, onde repousa a sabedoria
Fina e majestosa em tantas falas

Sobre elas esvoaça fresca maresia
Onde o meu Gaio refresca as rimas
Poeta eu serei, talvez, ao longe, um dia…

12 maio, 2010

«« Diferente não será igual ««


Porque voam em bandos os pássaros
Porque os carneiros se tresmalham
Porque gritam os homens e ralham
Porque os burros usam arreios

Voam em bandos os pássaros
São um na nuvem espessa
Milhares de asas são comandos
De um rumo, uma promessa

Os carneiros se tresmalham
Decoram o repetitivo
Saem dos muros que os cercam
Perdem-se e não sabem o motivo

Os homens gostam de ralhar
Pensam que assim são ouvidos
Dá mais trabalho pensar
E conter os medos sentidos

Coitados dos burros
Usam arreios sem querer
São burros e são casmurros
Passam na vida a remoer…

Poeta maldito. ( pseudónimo )

10 maio, 2010

«« Do passado ««


Oiço ao longe a voz das almas
Numa lamuria infernal
Gritam, choram, uma dor descomunal
Oiço ao longe a voz das almas
Neste chão que é Portugal
Reconheço uma voz parental
Como ela não tem igual
Saiu lá do passado, infernal
Gritando, porque cegaram afinal.

08 maio, 2010

«« Trabalho, casa ««


Abro a porta, como quem abre o destino
Ao entrar, esperam-me dois gatos
Sentados lado a lado, uma moldura perfeita
Engana a minha noite desfeita
Ao seu alegre miar, sorrio com olhos gastos

Entro pé ante pé, não acordem as paredes
Ou quem sabe o silencio, grite de uma só vez
Chegaste querida, como foi o teu dia
Responder-lhe-ia, não sei, estou com azia
O silêncio amuado, olhar-me-ia de revês

Mas o silêncio é surdo, não deu por mim
Sigo em frente, ligo a televisão
Uma mulher esbelta, lembra-me que estou gorda
Mas que raio, isto é que está uma açorda
Desligo o aparelho com um safanão

Os gatos olham-me de soslaio
E miam entre si
Não lhe ligues, ela não sabe o que faz
Tiro a lata de comida de dentro do cabaz
Os gatos aos pulos. Finjo que não vi

O balde do lixo, deitado no chão
Apanho tudo. Deito o olho ao cuco
Quem sabe ele me dirá que vale a pena
Manter-me serena
Mas responde, cu, cu, olho-o e solto um soluço

Que raio de vida
A que arranjei
Trabalho, casa
Onde é que errei.

07 maio, 2010

«« De mim ««


Por vezes queria rir
Numa gargalhada estridente
Rir de mim, mesmo de faces coradas
Olhos no chão olhar ausente
Rir a bom rir, das lágrimas recortadas
Pela razão que me impele a fugir

De mim

Por vezes queria rir
Talvez deixasse de sentir
Que a vida tem principio e fim
Não vale a pena insistir
Em pedaços de marfim
Sempre serei, pedra por partir.

«« Maria sem rosto ««


A noite trás o sussurro inebriado
Trás o roçar da pele na mão cansada
Vislumbra-se o sol que está de abalada
A sombra aproxima-se da porta fechada

Ao fundo da rua, uma guitarra pasmada
Toca um acorde de um fado vadio
As mãos do fadista viram corrupio
Soa a sua voz presa por um fio

É triste a mensagem que canta a desgraça
Fala de algo, lá atrás no passado
De uma Severa, que é serva de um fado
De um Marceneiro, que morava ao lado

De um fado castiço, uma Madragoa
Uma ruela escura no Senhor Roubado
Uma taberna suja no Bairro Alto
Uma mulher que chora pelo seu amado

Fala de um xaile estendido, prós lados de Alcântara
Uma menina Lisboa, tão bem que ela canta
Fala do Tejo numa canoa
Ai, menina rabina, é a Madragoa

Ao fundo da rua nasceu o fado
De uma mãe varina, de um pai estivador
Olho-te Lisboa e recordo o amor
Um parto apressado sem grito ou dor

Nas ruelas cheias de uma luz amarela
Olho-te Lisboa pela passerelle
De uma avenida que é liberdade
Encho o peito de vasta vaidade

Canto-te Lisboa cidade de luz
De poetas e fadistas, de um credo em cruz
Nas bocas gravadas pelo amor que seduz
Uma mulher que chora, vista a contra luz

É seu nome Maria
Maria sem rosto
Recordo que sofria
Cantando com gosto.

«« Isto é poesia ««


Passa a água por debaixo da ponte
Leva tudo rio abaixo, leva as mágoas
Leva lágrimas, leva palavras
Numa correria tétrica e constante

Ás vezes penso, quando secará a fonte
Que inunda de vida as crateras abertas
Pela correnteza que vasculha as almas
Dos poetas, que vêem no horizonte

O caudal do rio ao longe, em versos
Que derramam da alma já gasta e fria
Por vezes a frieza amordaça os lábios

Mas um rio de ideias galga por magia
O leito espelhado numa folha de papel
Encharca por onde passa, isto é poesia.

04 maio, 2010

«« Tombos ««


Não sei porque caem as pedras aos tombos
Se em cada minuto de vida tento
Vive-la sem fúria ou desalento
Porque caem as pedras nos meus ombros

Será porque o dia nasceu sem braços
Que nos envolvam a todo o momento
Será porque o tempo é inóspito e lento
Serão simplesmente embaraços

As pedras que rolam de rajada
Pela ladeira em fartos trambolhões
Ou tão somente porque é curva a estrada

E as pedras atalham caminho em aflições
Sempre que a vida se torna atabalhoada
Os tombos serão o reflexo de amor e paixões

02 maio, 2010

«« O Sobreiro ««


Olho a rua pela frincha entreaberta, ali
Onde os homens descansam dos fardos, está
Uma sombra que abraça, mesmo agora vi
Os homens abeirando-se da sombra que está

Rindo do sol que teima e quer queimar
A tez morena dos homens do campo
Por entre a sombra brilha um pirilampo
Em cada luzerna que chega a bailar

Por entre os ramos do velho sobreiro
Um breve zum-zum com o deslizar do vento
Olhei pela frincha da porta um momento
Extasiei meu olhar num sobreiro altaneiro

«« O meu lamiré ««


Olhos no chão, desliza a areia movediça
Parece que espreita por detrás da cortina
Não me recordo sem tem vida divina
Tudo o que escrevo, parece caliça

Que se desprende com alguma preguiça
Olhos no chão desliza a bailarina
É uma rima que sai da rotina
Espreguiça-se feito carniça

Que encobre barriga com fome
Olhos no chão, o que escrevo não sei
Nem perco tempo pensando o que é

Escrevo e gosto de chamar pelo nome
Um verso rafeiro que sempre amei
Tudo o que escrevo é meu lamiré.

01 maio, 2010

«« Poema de nada ««


Se eu um dia escrever um poema de nada
Não me olhem com ar pasmado, ou indolente
Tão pouco me vejam, pedaço de gente
No dia em que escrever um poema de nada

Será o nada de um vazio, estarei de abalada
Para além da vista, para lá do poente
Simplesmente virei-me de frente
Para uma curva escura e apertada

Sumir-me-ei numa nesga de sol em prol
Das ideias que por cá ficarão
Aproximar-me-ei pé ante pé de um velho farol

Escreverei na sua lanterna com sofreguidão
Antes de fechar os olhos ao virar da curva
Redigirei nada, lá atrás os versos, a minha paixão