Poemas declamados

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31 agosto, 2009

«« Maria o nome seu ««


(Glosas )

Mote…

Gosta de vestidos de chita
De flores azuis miudinhas
Gosta de se pôr bonita
De voar com as andorinhas


Maria gaiata bonita
Das terras agrestes do sul
Desnuda-se ao céu azul
No seu jeito ciganita
Prende os sonhos numa fita
Que larga no horizonte
Bebe água numa fonte
Límpida da imaginação
Palmilha a imensidão
Gosta de vestidos de chita


Causa murmúrio nas vizinhas
O seu ar fresco singelo
Um cravo no cabelo
Ao peito rosário de rimas
Na voz soltam-se palavras
Que falam da terra quente
Relembra a sua gente
Como os filhos que são seus
Vai tecendo singelos véus
De flores azuis miudinhas

Já mulher ainda acredita
Na sua terra, na sua gente
Por vezes fica descrente
Mas de seguida arrebita
Assim o poema permita
Na rima seu mal espanta
Aqui cai, ali se levanta
Sua força vem do campo
Cobre-se de fresco manto
Gosta de se pôr bonita

Meia idade se avizinha
Uma ruga que já nasceu
Maria o nome seu
Em deleite escreve uma linha
No poema que acarinha
Conta os sonhos de então
Canta os velhos numa canção
Canta as penas do Alentejo
Gosta do cheiro do poejo
De voar com as andorinhas

29 agosto, 2009

«« Mãe cativa ««


Deslizas em espiral pela beira do pesadelo
Desgarrada medonha em forma de agonia
És filho imaturo de uma mãe que asfixia
Num rio de tormentas, por um filho, um apelo

Entrelaças a esperança por entre o feio novelo
Imaginas num relance que vistes a luz do dia
Mãe cativa chora lágrimas de alegria
Filho perdido abraçaste um duelo

Num rasgo de lucidez e desesperança
Agarras um raio de sol feito criança
Embrenhaste numa luta desigual

Entre o vicio, a dor o prazer imaginado
Numa seringa, na calma de um dardo
E essa mãe que reza, sua fé é abismal.

28 agosto, 2009

«« Cai a chuva miudinha ««


( Glosas )

Mote…

Cai a chuva miudinha
Eu vou caindo a seu lado
Em cascata geladinha
Eu vou desfiando o meu fado

Fonte de vida rainha
Nos ribeiros de agua fria
Eu procuro acalmia
Uma trave que seja minha
Um teto pra me abrigar
Debaixo do céu estrelado
Tendo as nuvens por telhado
Os grilos por companhia
De manhã ao fim do dia
Cai a chuva miudinha

Alentejo meu amado
Do teu sangue me alimento
Respiro-te solto no vento
Aprendo com o teu passado
No teu passo moderado
Caminho por entre as ideias
Germinam feitas colmeias
Pelos campos alentejanos
Tombam em gemidos ciganos
Eu vou caindo a seu lado

Achei casa que me acarinha
Debaixo do velho sobreiro
Onde o gado está ao calmeiro
Casa pobre, mas é minha
Olho ao longe aquela linha
A que chamam horizonte
Vislumbro naquele monte
Uma nuvem em delírio
Desfaz-se em tons de lírio
Em cascata geladinha

Este calor abafado
Fustiga a velha planície
Sem pena, sem meiguice
Seca o restolho doirado
Cama de pastor cansado
Comida para o rebanho
Tanta dor mal tamanho
Aqui e ali um refrão
Na chuva que molha o pão
Eu vou desfiando o meu fado

21 agosto, 2009

«« Inatingível ««


Adormeci presa na tua imagem
Num tempo de antigamente
Nos sonhos que sonhei, estavas lá
Nas voltas que dei
Senti o calor do teu corpo
Nas horas sem dormir
Restou o vazio, uma miragem
Sim a tua imagem, estranhamente fria
Pálida por entre a laranjeira do jardim
Olhavas para mim
Como quem vê o impossível
Como inatingível é o sonho
Que sonho todas as noites
Quando o sono não vem, e tarda o dia
Adormeci presa na tua imagem
De manha, a cama estava vazia

20 agosto, 2009

«« Sol pôr ««



Caminhas pela beira da estrada
Tentando alcançar a libertação
Tantos os medos tamanha frustração
Penosa demais essa longa jornada

Buscas o amor, como quem sorve nada
Metes as mãos pelos pés, resta a rebelião
Em forma de lágrima que escorre no chão
Abre uma cratera na terra devastada

E eu estou aqui, esperando no escuro
Tremendo de frio, falta o cobertor
Falta o aconchego do fruto maduro

Doce suculento em forma de amor
Quero adormecer, num lugar seguro
Galga esse caminho, antes do sol pôr.

19 agosto, 2009

«« Néctar ««


Não, não perguntes se ainda te amo
Não se pergunta ao dia se quer o sol
À noite se quer a lua, à cama se quer lençol
Nessa cama em que por ti clamo

Assim como a folha precisa do ramo
Para balançar ao vento tal o rouxinol
Que canta uma melodia ao girassol
Que abre as pétalas onde derramo

A minha existência tentando colher
O amarelo aveludado das pétalas
Os matizes e a seiva que tento absorver

No néctar que busco em ti, em algumas
Poucas palavras, lágrimas brotadas
Sonhos suspensos, tantas curvas apertadas…

18 agosto, 2009

««Teimosamente ««



Dá-me uma rosa branca
Perfuma-a de esperança
Matiza-lhe as pétalas
Com sedas cristalinas
Por onde deslize a ilusão
Que sou dona do teu coração

Dá-me uma rosa branca
De cor franca
Como franco deve ser
Quando se diz querer
Deixa-me sonhar
Quando amanhã acordar
Que és a estrela luzidia
Que faz brilhar o meu dia

Dá-me uma rosa amor
Em cada pétala fecha a dor
Do silêncio que grita
Na noite aflita
Pela luzerna de sol quente
Que escondes teimosamente…

Quando o sol envolver a rosa
E esta se torne caprichosa
Quem sabe será tarde
E na fogueira o lume se apague

«« Reflexão««


A escrita reflecte a necessidade que temos em comunicar, de contabilizar ou de expandir a nossa criatividade através de:
A escrever se perdem e ganham batalhas, se manipulam opiniões, se constroem padrões de vida e enraízam preconceitos, ou se desfazem tabus.
Concordo que o autor enquanto criador tem e deve na maioria das vezes ser desassociado da sua criação enquanto homem, quem não sentiu na pele a recriminação porque escreveu isto ou aquilo,
Esquecemos com frequência, que ao criador tudo ou quase tudo é permitido, ou seja pode e deve o autor escrever sem preconceitos, só assim podemos reflectir os prós e os contras de uma ideia. Tendo em conta a liberdade individual e colectiva, cabe ao criador enquanto escritor, avançar com novas ideias e desafios, tocar nos pontos fulcrais que a maioria tem dificuldade em abordar.
A imagem e as ideias perduram através da escrita, passam de geração em geração o que hoje consideramos inovador ou obsoleto na próxima década terá o efeito contrario, assim a humanidade está em constante evolução.
A escrita é só mais um fio condutor entre tantos outros.
Cabe a cada um utiliza-la da melhor maneira, eu tanto a amo como a odeio, tanto lhe dou beijinhos e abraços como grandes tareias, só uma coisa ainda não me aconteceu, o divorcio…

16 agosto, 2009

«« Escrita ««


Escrever é o coito imaginado…

Acto de amor anunciado
Vertigem cor de carmim
Que entranha a palavra por fim
No recanto insaciado
Néctar açucarado
Que alimenta o frenesim
Que a escrita atrai em mim

Pele que desliza em pele…

Percorro cada recanto
Desnudo em cada pranto
O meu ser enjaulado
Que anseia ser desvendado
Atraio a imaginação
Em êxtase, vertendo paixão
Escrever a minha pele
Lânguida, branca, o mel
Que escorre e chega a ti
Nos versos que lês de mim

Acto de amor, desejado…

Filho gerado em paixão
Ideia emancipada
Que escrevo sem ver a quê
Entrega total
Sem pesar os porquês
Deslizo a mente em deleite
Pela brecha do poema
Que entreabre o lábios
Mordisca os versos
Que escorrem pelo papel
Uma entrega sem pudor
Escrever é acto de amor

A escrita nasceu em mim…

Percorre o teu corpo em transe
Em cada palavra dita
Imaginas-me faminta
Sim faminta, da palavra
Louca insaciada
Em que recrio o teu mundo
Em que penetro e desnudo
Os desejos sagazes
Digo o que sem pensar fazes
Grito o teu nome sem saber
Que escrevo, escrevo
Aquilo que queres ler
Aquilo que teimo em dizer

Eu sou assim
Na escrita me enlaço
A meu belo prazer.

14 agosto, 2009

«« Segundo de um livro ainda sem titulo...Acaso »»



Faz tempo que adormeceu, o homem que a conduz na estrada quase deserta, de vez em quando olha para ela, no seu olhar transparece um misto de surpresa e certeza, a certeza de que aquela mulher, não está por acaso sentada no banco da frente do seu carro.
Tem que haver a mão de uma força superior por detrás do motivo que o levou a sair de casa nessa manhã. não que acredite nessas coisas, mas as evidencias falam por si.
Pouco ou nada dormiu nessa noite, e de manhã bem cedo saltou da cama, como se um motivo inadiável o empurrasse, tomou um banho apressado, e vestiu uma coisa qualquer que tirou do armário, não se reconheceu nessa manhã, era metódico em tudo o que fazia, jamais saíra de casa sem ter a certeza que tudo estava nos seus devidos lugares, nessa manhã pouco ou nada se importou com detalhes.
- Ainda não nasceu a tal, mãe, as mulheres actualmente são muito complicadas.
Esta a resposta, que dava sempre que a sua mãe se queixava, de um dia morrer e não o ver amparado.
- Mas, meu filho, uma mulher faz falta a qualquer homem, um homem sem mulher é como um cesto sem asa.
Estas conversas acabavam sempre com dois beijos repenicados nas faces da velha senhora, que encolhia os ombros num gesto contrafeito.
Está de férias, mora sozinho desde que a sua mãe faleceu, de um ataque de asma repentino, vai para cinco anos. Sempre foi um solitário, apenas um amor de adolescência o marcou e decepcionou, não que não tivesse tidos muitas mulheres. Teve-as sim, mas a nenhuma se apegou, todas passaram sem deixar marcas relevantes.
Advogado, com uma carreira sólida, a vida corre-lhe tranquila, ainda telefonou para a agência de viagens com a qual trabalha, a marcar uma pequena viagem de férias, desta vez esteve quase a ir para os Açores, gosta dos Açores por altura da Páscoa, tem por lá bons amigos, que lhe proporcionariam uma estada agradável. Uma semana antes de viajar telefonou para a agência a desmarcar a viagem, alguma coisa o impedia de viajar naquele momento, por mais voltas que desse não conseguia arranjar uma razão plausível para tal decisão. Acabou por decidir passar as mini férias da Páscoa no aconchego do lar.
Homem viajado, conhece metade do globo, quase nada o surpreende, mas agora, esta mulher mexe com ele, e consegue surpreende-lo.
- Que terá acontecido, porque uma mulher sozinha, está caída na valeta de uma estrada deserta, aparentemente o seu estado é de choque, mas choque do quê, e porquê.
Os pensamentos voam à mesma velocidade com que o carro galga os km nus do asfalto.
- Melhor que adormeceu, deixa-la descansar.
Quando chegar à cidade tentará saber quem é e de onde veio.
Tenta conduzir as ideias de forma concisa, ao mesmo tempo sente-se perdido, está habituado a lidar com factos concretos, e este é tudo menos um facto concreto.
Recorda a conversa que teve no ultimo fim de semana com o seu amigo Rafael, amigo de infância ,também ele advogado, ambos sócios da mesma firma de advogados cujo escritório fica na zona histórica de Évora.
Rafael, com o seu jeito de menino que nunca cresce, apesar dos cabelos brancos que proliferarem na sua ainda farta cabeleira, mandou umas bocas a tipo de provocação.
- Meu amigo, estás a ficar velho, isso é que é, tens medo de não conseguires apagar o fogo das meninas que proliferam pelos bares dos hotéis que gostas de frequentar, é isso, tenho quase a certeza que é isso!
-Mas como podes ser tão irritante, contrapôs, se não te aturasse desde gaiato juro que nunca mais me vias os dentes.
- Pois, pois, já não aguentas a pedalada.
Rafael deu uma sonora gargalhada, e continuou.
-Agora fora de brincadeiras, diz lá o que se passa contigo, estás doente e eu não sei. Ah, apaixonaste-te, finalmente, quem é a sereia, eu conheço, já era tempo lá isso era, daqui a pouco nem idade tens de ser avô, quanto mais pai!
Como o amigo consegue ser desconcertante, sempre que quer, talvez por isso sejam amigos desde os bancos da escola, precisa da jovialidade e descontracção que o amigo emana, contrafeito tinha-lhe respondido.
- Não é nada disso homem, está descansado que está tudo bem comigo, mas não sei o que se passa, este ano não me apetece viajar, quero ficar em casa e curtir o meu sossego, sozinho, deve ser da crise económica que atinge o planeta, vais ver a mim atingiu-me os neurónios. Não me apetece sair e pronto, a ti nunca te apeteceu ficar quieto no teu canto, duvido…
Ao sabor das recordações vai deitando o olho à desconhecida, não descuida nenhum pormenor que lhe possa ajudar a decifrar o mistério.
Repara nas suas mãos esguias e delicadas, unhas bens tratadas e pele macia.
Num gesto mecânico, estica a sua mão para tocar as dela, mas contem-se a tempo, não a quer acordar.
O vestido azul turquesa que trás vestido é de boa qualidade, linhas direitas, decote em bico, a manga um pouco abaixo do cotovelo, nos pés calça uns sapatos azuis escuros de salto rasteiro, repara na maciez da pele, não são uns sapatos quais-queres, devem ter custado uma pipa de massa.
Deita um olhar mais atento ao saco de pano, que continua a manter ao ombro, e que aperta contra o peito, um daqueles sacos de retalhos que se compram nas feiras de artesanato, destoa de todo o conjunto, mas ao mesmo tempo, parece que faz parte do quadro, a visão não seria a mesma sem aquele saco.
- Que terá dentro, de certeza que carrega a chave para o mistério que a envolve.
O Mercedes, azul escuro descapotável, continua a sua viagem rumo à capital.
Essa a direcção que a desconhecida tinha tomado nessa madrugada, esse mesmo caminho, decidiu tomar o doutor David Figueiredo. Advogado famoso na praça, desde os tempos de estudante, que mantêm um apartamento em Lisboa, no Campo Grande, ali para os lados da cidade universitária.
Nessa manhã, sentiu uma necessidade urgente de fazer uma visita ao apartamento, a ultima vez que lá esteve foi há mais de dois meses, aquando de um julgamento de um responsável financeiro famoso no mercado imobiliário, o homem tinha sido acusado de burla agravada, pelo estado Português, foi seu advogado de defesa, grande vitória esse julgamento, quando todos tinham o homem como culpado, ele conseguiu provar a sua inocência. Casos como este enchem as prateleiras do seu gabinete de trabalho. Os seus pares chamavam-lhe olhos de lince, processos perdidos à partida são por ele ganhos. Consegue quase sempre, descobrir uma prova a favor do arguido. Gosta de trabalhar com provas insignificantes aos olhos dos outros, da prova forense mais insignificante, consegue trabalhar a defesa, com este recurso e a sua vocação oratória, junta vitórias atrás de vitórias na sua já longa carreira.
Chegam ao cruzamento de Pegões decide-se pela estrada que conduz à ponte Vasco da Gama, é o caminho mais curto e o melhor em termos de tráfego, a esta hora do dia as filas na entrada da ponte já se dissiparam, certamente.
De vez em quando olha a desconhecida, que agora dorme tranquilamente, os soluços contidos acabaram por se dissolver num sono quase infantil. A sua beleza é serena, nada espalhafatosa,
- Uma autentica leidy.
Como diria a sua mãe.
Em pouco mais de meia hora estacionou o carro á porta de casa, mas manteve-se imóvel, com pena de a acordar. Conseguiu aguentar quase uma hora, esperando, mas a mulher não dava sinal de si, acabou por a carregar novamente ao colo e de a deitar suavemente sobre o sofá da sala.

13 agosto, 2009

«« Julgamento apressado ««


Olhas-me do alto do teu pedestal
Como se o mundo fosse perro e surreal
Sem me veres
Olhas do casulo onde te enclausuraste
Feito de cristal esfumado pelo preconceito
Julgas apressado
Um julgamento sincronizado
Pelo interesse em manipular
O que foge da tua compreensão
Tenho pena de ti…
As feras da savana não se moldam
Ao olhar voraz do caçador
Os ventos da planície não se capturam
Correm veloz ao sabor das estações
Carregam a liberdade em forma de areal
Que se esvai pelas entranhas da terra
Tenho uma costela desse vento
Captures-me não está na tua mão
Está em eu deixar ou não!

10 agosto, 2009

«« Buraco negro ««


O vazio,
De mim, e quem sabe de dor
Talvez se tenha esvaído
Pelos buracos do regador
Chamado ilusão
Deixa-me esvaziar a alma
Cala as palavras
Que não quero ouvir
Deixa-me fingir a rir

Também os palhaços riem, da alma que chora…

«« Despedida ««


Despeço-me da dor
Por entre a lágrima que cai
Despeço-me da dor
Por entre os desejos esfrangalhados
Por entre migalhas
De um amor aos bocados
Restos de alguém,
Que caíram no meu colo
Despeço-me da dor

Luz pálida e esbranquiçada
Que me aqueceu por um instante
Tão breve, tão difuso
Como a aurora que se esvai num ápice

Este medo de fechar os olhos
E nada mais reste,
Nem a recordação
De uma dor, um amor
Por um instante, aqueceu o coração
Despeço-me de ti
Por entre palavras e desamor
Que me jogas na cara
Desfiando fios de rancor
Despeço-me de ti sonho desfeito
Contigo deixo a minha fragilidade
A minha insanidade
Contigo deixo
Os restos de uma alma cansada
Perdida, fingida… morta
Os restos sem consistência
Que me impeliam a olhar além

Contigo
Deixo o silencio, e tento deixar a dor.

«« Primeiro de um livro ainda sem titulo... A fuga ««

Caminha apressada pela beira da estrada, de vez em quando respira fundo, absorvendo os aromas da terra viva, ama esta terra, como quem ama um amor impossível. Sente cada pedaço deste chão como se de um filho se tratasse. Cresceu no campo por entre sobreiros e oliveiras, a vasta planície Alentejana exerce sobre ela um efeito calmante, o abraço da mãe que nunca experimentou, o colo do pai que desconheceu.
Sente em cada inspiração a necessidade urgente de absorver esses aromas, essa mistura agridoce que lhe recorda os tempos da infância, quando rebolava sobre a erva verde, tal como um animal bravio que não aceita ser domesticado…
- Ah, onde estará essa catraia, a menina rebelde, um misto de terra e ar que sonhava mudar o mundo.
Perdeu-se dela faz muito tempo.
- Se a visse neste instante jamais a reconheceria.
Tal foi a transformação que sofreu ao deixar de ser menina, aos dezasseis anos de idade.
- Quem nasce de um caminho arrepiado tarde ou nunca encontra uma estrada sem curvas, são tantas as contracurvas.
Perdeu a noção do tempo, só sabe que caminhará em linha recta, transpondo o impossível, fugir de uma existência que lhe revolve as entranhas, tal como os corvos, quando remexem a terra acabada de lavrar.
Aqui e ali a paisagem muda de matizes, nesse instante perde-se a olhar a imensidão da planície, que se mostra generosa na primavera acabada de despontar. Tufos de margaridas rendilham por entre sargaços e giestas, as vacas pastam silenciosamente ao longo da estrada.
Consegue raciocinar…
- Nunca vi tanto gado num só local. O Alentejo virou quarteira de gado. Assim como a minha vida virou quarteira de nada.
O sol já vai alto, o suave calor do raiar da manhã, vai dando lugar a um calor abrasador, demasiado para a época do ano.
- Está tudo mudado. E como está!
Antigamente as quatro estações do ano eram delineadas, pelas diferentes temperaturas. Actualmente com o aquecimento global o ano passou a ter apenas duas estações, Inverno e Verão, a Primavera e o Outono dissimularam-se por entre as duas. No Verão tão depressa chove como as temperaturas atingem os 40º, e no Inverno acontece o mesmo, existem dias outonais seguidos de dias chuvosos com temperaturas baixíssimas. É o fim do mundo, assim falam os velhos da região.
O tio avô, que a criou e educou contara-lhe as profecias de Bandarra, um sapateiro de Trancoso que nasceu por volta de mil e quinhentos, deixando atrás de si uma vasta obra em forma de profecias, que foram passando de geração em geração, até aos dias de hoje. Algumas dessas profecias anunciam os fins dos séculos, tenta recordar-se de uma ou outra, talvez assim a jornada se torne mais leve. Mas a memória falha, o cansaço e o calor impedem-na de raciocinar, num esforço derradeiro consegue recordar-se de uma dessas profecias. Que relembra em voz alta…

- Vejo o mundo em perigo,
Vejo gentes contra gentes;
Já a terra não dá sementes,
Senão favacas por trigo
Já não há nenhum amigo,
Nenhum tem o ventre são,
Somos já vento suão,
Que não tem nenhum abrigo.

Por segundos volta a ser menina, sentada sobre os joelhos do tio ao canto da chaminé, onde o crepitar do lume embala a suas fantasias de criança, enquanto em deleite ouve as histórias que tio vai contando lentamente, numa voz suave e carinhosa, a voz daqueles que são avós de verdade.
Embrenhada nestes pensamentos segue na sua caminhada. Dói-lhe o estômago e tem a boca seca.
- Tenho tanta sede, e começo a ter fome.
As pernas já dão sinais de cansaço.
- Se ao menos ao transpor aquela curva me deparasse com um café de beira de estrada.
Aos olhos dos ocupantes dos carros que de vez quando cruzam o asfalto, mostra-se uma mulher serena, quarenta e poucos anos, pele aveludada, olhos de avelã, as madeixas do cabelo castanho claro caem soltas até aos ombros, dando-lhe um ar de menina mulher, mede quando muito um metro e setenta, pernas bem torneadas, um busto equilibrado, o rosto, uma escultura límpida, lembrando uma qualquer deusa da mitologia grega. Apenas as profundas olheiras assinalam que algo não está bem com esta mulher, mas isso os passantes não tem tempo de reparar, tal a velocidade com que palmilham a estrada.
Devem pensar que caminha pelo simples prazer de caminhar, até porque, como bagagem leva unicamente um saco de pano que transporta ao ombro, deixando adivinhar uma carteira, talvez um telemóvel e pouco mais.
Desconhecem que no seu passo ligeiro, tenta fechar o ciclo de uma vida onde o desamor constante e a intolerância se fizeram presentes.
Tantos os anseios que carregou desde tenra idade, tantas as ilusões que se esfumaram por entre primaveras, em quase todas as batalhas que se empenhou saiu vitoriosa, menos numa, a sua vida pessoal, essa tornou-se um fracasso constante, dia após dia, noite após noite, não fosse o sucesso do filho que se transformou em homem de carácter com o futuro assegurado, e a sua existência familiar seria o mais negro dos fracassos, todos os sonhos foram sendo adiados, havia sempre uma desculpa para permanecer onde estava, qualquer insignificância servia de pretexto, para manter uma vida por onde rastejava alheia ás suas necessidades. Primeiro, tinha que satisfazer as necessidades dos outros. As dela poderiam esperar.
Nessa madrugada o feitiço quebrou-se, depois de mais uma discussão sem sentido onde um grita, e o outro houve em silêncio aterrorizado, num monólogo conduzido pela loucura alcoolizada, onde pela derradeira vez foi humilhada e violada na sua condição frágil de mulher, ao dispor de uma garrafa de uísque e de músculos fortes e abruptos, a exalar ódio por todos os poros.
Finalmente conseguiu libertar-se e bateu com a porta, correu dali para fora.
Não sabe há quanto tempo caminha, muito menos a direcção que tomou, era noite serrada, uma noite fria e escura como breu.
A iluminá-la nesse instante só teve a luz pálida da lua, quarto minguante. Assim como a sua vida, a mingua equilibrada pela força que transparece no seu passo apressado.
Um camião passa rente ao seu corpo, brincadeira de um camionista entediado, é o ciclone, que a desperta da letargia em que se embrenhara.
De um salto vê-se na valeta da estrada, ao mesmo tempo que aos seus ouvidos rebenta um trovão em forma de vidros que se partem, cai sobre os joelhos e chora. Longos minutos esses, são as primeiras lágrimas que verte desde que saiu de casa, sob as suas lágrimas desfila o filme da sua vida, a ultima imagem que reteve é a de algo que se esfrangalha, não consegue decifrar essa imagem difusa, perante as lágrimas que caem em cascata, o peito contorce-se com o soluçar desenfreado. Não se apercebe do barulho de um motor a parar junto de si.
Estremece ao sentir umas mãos fortes que lhe pegam por debaixo dos braços e com cuidado a sentam no banco macio de um carro, nesse instante fecha os olhos e assim os mantêm por entre os soluços, com medo de acordar e despertar em mais um pesadelo, com o qual não sabe, nem tem forças para lidar.
O carro sai dali, apressado, apagando ao mesmo tempo que percorre os km nus da estrada o rasto de uma mulher sozinha que caminha em busca de si mesma.

08 agosto, 2009

««Raul Solnado««


Hoje choram os lírios, porque morreu
O homem, poeta maior num mundo de actores
Tantas as palmas, as lágrimas os ramos de flores
Jeito de menino, sorriso aberto, a vida acabou

Não temam pelo actor, deixou-nos o apogeu
De uma obra que plantou, de todas as cores
Foi menino e soldado, cantou sonhos e canções
Foi rei da traquitana, apoteose, jubileu

Hoje choram os palcos, ficaram mais pobres
O pano caiu pela derradeira vez
O homem morreu, o actor engalanou de amores

As palavras que o poeta escreveu, com avidez
Em cada acto, do teatro das saudades
As luzes se apagaram pela milésima vez….



Raul Solnado 1929-2009

«« Crónicas da tia Alziraaã , Virei uma ledy ««


Vocês querem saber o que me aconteceu, nem sê diga se conti.
Um dia destes o mê Manel achega-se ao pé de mim e diz-me, olhando bem no fundo do meu olho, com aquele olhari que me mete os cabelos das costas im pé.
- Alzirã, ó mulher, tu tens que ir fazer um daqueles cursos avançados, aquêlis, que o nosso primêro inventou para que deixassem da havêri anafabetos no nosso pais. Intão tu na vês que falas mal pra caramba, é como assim uma mistura de espanholi portugalês entre a barragem do Alquêva e raia espanholã, tens que ter tento mulhéri, até a vaca da Zulmira tirou esse curso, virô uma dama.
Ah não, disse cá pós meus botões, se vaca da Zulmira conseguiu ê tamêm consigo, Se assim o disse, assim o fiz.
Vesti o meu vestido ás ramagens e dirigi-me ao centro das novas opurtunidadis, côsa mais linda, tanta mesa e tantos computadoris, ah… nunca tinha visto iguali, e aquelas senhoras todas de um lado pó outro e os cavalhêros, belos homis sim sinhôri, O mê Maneli à vista delis parace um pirum depenado.
Receberã-me muito bê, o piori foi a quntidade de coisas que tive que escrevêri, parecia o testamento do mê ti Zei, mas pronto tudo passou, lá tirei o bêdito curso e agora já sei escrever como uma ledy, digam lá que é mentira, se forê capazes, uhmmm…

07 agosto, 2009

«« Mulata ««


Um fervilhar de vida constante
Germina sob os meus olhos incrédulos
Recordo em surdina tempos antigos
Em que o homem dava passos de gigante

Ai Lisboa terra de mouro amante
Princesa de uma colina que contrapôs
Nas cordas de uma guitarra abraços
Que marinheiros deixaram distante

Em terras de sonho, além mar se deram
A uma donzela de olhos de azeitona
Corpo de sereia, dos filhos que nasceram

Brilhou a mais bela mulata ,anémona
Fusão de dois mundos que transpuseram
Oceanos e demónios, a esperança veio átona…

06 agosto, 2009

«« Cronicas da tia Alziraaaã ...... Ser politico cânsãa««


Estava eu prá qui a pênsari com os meus botõeees, e nã resisti, tivi que dividir as minhas apoquentaçõeess com vocemecêsss.
Coitadinhooo daquêli senhori lá prós lados da capitálii, aquêêliii que foi obrigado a aceitari aqueli terrenozinho em terras de S. Toméii , ai coitadinho, o esforço que êli nã fêezz ainda por cima têvi qui agradicêri, foi só por beim parecêri que ele aceitou, poiis clarum. E agora condenado a seti anos de prisão, assiiim, sem mais nim menos.
Seti anos tem o mê gato,por cada ano de vida tá claroo.
Mas vai-se candidatári di novo, há granda homi, dessa cepa já nã se fazeêm
Outra coisa que me têem moido o juizo, a D. Ferreira Leitii, fez uma rasia completa, queriam tacho, tá claroo, queriam mas ela nã deu, é cá das minhaas tem tomatis entri as pernas, pena tari entraditadita na idadee, senão era mulher para fazer de Portugal mais uma provincia de Espanhaãa, há isso eraã.
Aiii, e o nosso primeiro, aiii tadinho, tanta pena qui tenho delie , ta~bom homi, lindo de se lhe tirar o chapéuu e ódepois tanta promessa, aiiii mas tantas, pareciam o cruzeiro da sinhora di fátima em dia de procissão, esqueceu-se de tudo, sabéem é que o magano come muito quêjo, de Nissa, todos sabe~em que o quêjo tira a mimória.
E digãoo-me lá, aquela coisa lá prós lados de Acochêtii, como é que ficôuu, o homi éra inocênti nã é verdadi, claro só podia, coisas da reaçãum, inveja é o que elis têem é por êli ser tã bonito, na próxima vez que êli venha inaugurari mais um lari ao Alintejo vô-lhi oferecêri um corno da minha cabra zulmira, por causa do mau olhado…
A genti por aqui estamos muito bêeem servidos, o nosso presidênti da juntaã é tã bom homi, até joga fotibóli com os rapazes cá da terra, em terrenos baldios porque nã temos campo de fotibóli, mas joga é o que interessaã, e é um cavalhêroo dá sempre um cravo ás damas no vinti i cinco de Abril e no dia da mulhêriiii uma rosa virmelha . Tadinhooo…
Agora vou batêri a sorna á sombra do chapárro, fiquei cânsaditaaã com tanto dari à linguaã, beijinhosss

«« Demasia ««

Abrem-se em cutiladas profundas
Aos poucos se vai avivando a magoa
Que deixas em cada migalha jogada
Como se fosse o apogeu que ambicionas

Ofereces tão pouco de tudo, mãos esticadas
Percorrem um caminho sem encruzilhada
Exigem demais para quem dá quase nada
Oferecem demais num nada que desfraldas

E eu, tropeço nessa dádiva impotente
Finjo uma alegria que nunca tive
Sempre consigo olhar-te de frente

E tu vives na ilusão que eu sustive
Acreditas que sempre dás em demasia
Carregas as certezas,só que eu sou mais livre…

05 agosto, 2009

«« Promessa ««


Que ciúmes das pedras da calçada
Pedras frias que pisas sem ter pressa
No silencio vais deixando uma promessa
Que teima em estar contigo atracada

Que um dia ao pisares essa calçada
Os teus passos, soarão ligeiros na travessa
As pedras vão dizer, que pressa é essa
Que te impele a correr na caminhada

Vais seguindo sem ver nada na jornada
Ao longe uma clareira intransponível
Entre ti e o horizonte uma luz esbranquiçada

Que te fala num dialecto inaudível
É minha alma que te chama tresloucada
Que te conduz no meio do impossível.

«« Um fado ««


Diz-me porque os rios correm para o mar…
Em Setembro voltam as marés vivas,
Porque Lisboa tem sete colinas…
Porque o fado é dolente, e fala de amar.

E o poeta, ai o poeta, sempre a discordar,
Do mundo que enlouqueceu, falta-lhe as rimas,
Para escrever os versos das suas derrotas,
Do dia que tarda em nascer, quer ver o sol brilhar.

Diz-me porque os rios correm para o mar…
Porque corro eu, no balanço dessa água,
Porque rio de tudo o que estou a pensar.

Porque quero me desnudar da mágoa ,
Em Lisboa das sete colinas, um fado
Melódico, um povo vestido de mingua.

«« Cansada ««


Caminhas tu à deriva
Sem amarras p`ra te agarrar
Caminhas tu à deriva
Cansada, de tanto andar

Esperar o que a vida não tem
Ou por ti passou e não viste
Esperar num olhar de desdém
Que te traga uma estrela em riste

Que te traga o amanhecer
Uma palavra, um bem querer
Um gesto, um pedaço de ser
Uma nova vida a nascer
Uma canção por escrever
Um poema por dizer
Uma mão estendida em sinal
Da crença, que a ti conduz
No fundo do túnel a luz
Um germinar de emoção
Pedaços de carinho paixão
Seiva viva a renascer

Esperar que a vida te traga
Um novo dia, amigo
Um bem querer na palavra
De mãos dadas caminhar
Esquecer as aguas passadas

Estás cansada de esperar…
De olhar e não ver…
De um nada acontecer…
Ou será que é p`ra esquecer…

04 agosto, 2009

«« Amigo ««


Procuro na colina distante
A resposta aos meus medos
Perco-lhe o trilho, volto ao começo
Torno a procurar, no vento suão
Por vezes consigo, sentir a fascinação
Que o vento carrega na devastação
Tal como a terra
Que se encontra dorida
Escaldada p`lo sol, no mês de Agosto
Assim está minha alma…
O reflexo dessa mágoa
Escorrega na lágrima que desliza
Cai na terra em brasa, abre uma lagoa
Onde os insectos saciam a sede
Na salmoura da minha existência

Procuro ao longe, a luz que fugiu
Nas cauda do vento suão
Na colina uma flor floriu
Eras tu meu amigo, irmão…

02 agosto, 2009

«« Até sempre, ou até nunca mais««


Hoje despedi-me dos sonhos
Enterrei-os bem fundo no areal da desilusão
Vou fechar a minha solidão, vou trancar-me com ela no sótão
Amarelecido onde um dia quase aprendi a sorrir
Talvez tranque também o breve momento onde o sonho foi possível
Nesse momento escrevi, sobre mim, sobre a minha vida , sobre o meu sonho e a minha ilusão…
O poeta é um fingidor, disse Fernando Pessoa
e eu atrevi-me não só a fingir como a acreditar em todo esse fingimento

O despeito o cinismo o oportunismo e acima de tudo o desamor acabaram por matar a capacidade de sonhar...