Poemas declamados

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29 outubro, 2010

«« Bom dia ««


Quantas vezes dei por mim a pensar que a nossa geração se fechou num casulo, onde tentamos a todo o custo esconder emoções, caiu em desuso o « bom dia então como vai o vizinho » caminhamos de cabeça baixa, não sei se é uma maneira de não vermos o outro, ou jeito de não nos olharmos a nós próprios.
Começo a deixar cair por terra os meus raciocínios, estou a pontos de os achar caducos e fora de moda. Não nos fechamos em nenhum casulo, adaptamo-nos aos novos tempos, transferimos as nossas necessidades de socialização para a comodidade das nossas casas, ou dos nossos escritórios.
Hoje de manhã ouvi na TSF uma entrevista à qual não liguei, ao ponto de me esquecer da localização do tema em foco, uma junta de freguesia na região de Lisboa criou uma rede social do menssager, onde é dado apoio de saúde a idosos com dificuldades, para tal desloca-se à junta de freguesia uma técnica que fala com esses mesmos idosos, através de uma câmara e de um computador. A reportagem perdeu-se no meu pensamento num mar de outras noticias bem mais mediáticas, e para as quais as minhas prioridades de informação me encaminham.
Ora bem, fingi que a reportagem tinha caído em saco roto, porque ao sentar-me frente ao PC, ela veio átona, não nos fechamos, nem nos amordaçamos, muito menos nos tornamos insensíveis, e as redes sociais como o fecbook são a prova, habituamo-nos a olhar os vizinhos os amigos e conhecidos através de uma tela, sempre pensei que o tipo de relações que a máquina fomenta eram superficiais, sem nenhum atractivo senão o exibicionismo vindo ao de cimo através dos nossos recalcamentos.
Mais uma vez começo a deitar por terra a minha teoria, quando dou por mim a visitar as páginas daqueles com que de alguma maneira tenho afinidade, com a minha quase angustia, ou mesmo uma angustia incomodativa, sempre que essa mesma página se apresenta sem movimento, aí levantam-se um sem numero de questões, que será que aconteceu, estará doente, ficou desempregado e a primeira coisa a cortar é o supérfluo, Internet ainda é considerada supérfluo neste país.
Agora recordo com uma nitidez precisa a voz alegre e bem da disposta da idosa entrevistada na TSF dando graças pelo computador que lhe instalaram em casa e por ter com quem falar das suas maleitas olhando olhos nos olhos, a menina simpática que o senhor presidente da junta tinha contratado para o efeito.
Agora finalmente deixei cair por terra todos os meus raciocínios caducos em relação às novas tecnologias e às relações que elas nos trazem. O mal não está nas máquinas, está nas nossas mentes, perigos existem em qualquer lado, basta estar atento e saber separar o trigo do joio, na Internet ou na vida real.
O Importante é não nos esquecermos quando caminhamos para o trabalho ou para ir compar o pão, de levantar a cabeça, e de dizer bom dia, nem que seja com um olhar.
Que bom seria, que todos os presidentes de junta tivessem dinheiro para adoptar a Internet, como um meio de manter participantes os idosos a seu cargo.
Que bom seria, que num país envelhecido os governantes deste país os vissem como prioridade.
Que bom que é, entrar aqui e saber que vocês existem, que não são fictícios e que estão aí desse lado para me dar os bons dias todas as manhãs.

28 outubro, 2010

«« Vontade manhosa ««


O que é que eu hei-de fazer
Com uma vontade manhosa
Tantas vezes enganosa
Na hora que tenta ver
Se quero olhar e dizer
Volto as costas vou embora
Enfiar-me num buraco
Onde o mundo eu não veja

O que é que eu hei-de fazer
Se a ulcera faz doer
Quando quero desmembrar
Aquilo que acho olhar

Uma vontade manhosa de me ir, abandonar.

«« Curvas ««


Na curva daquela estrada
Descanso o meu olhar
Saio de lá mais cansada
Sem vontade de remar

Por vezes dou por mim
A olhar um tempo ido
Sinto-me anfitrião num salão a meia luz
Tento distorcer a visão
Daquilo que não me seduz

De curvas e contracurvas
A vida é conivente
Assenta igual a luvas
No destino do vivente.

«« Tabu ««


Anda o poder politico a gozar com o povinho
Adiando responsabilidades
Que mais parecem andarilho

Estes senhores da nação
Que enterraram esta terra
Vejam bem o figurão
Travando inglória guerra

Os juros lá vão subindo
De uma divida que é de todos
O poder bem dividido
Em décadas de namoricos

Eu não fui, e não sei
Não tenho nada com isso
Tu já foste, eu roubei
Ganhem tino, é omisso

Se é para afundar o barco
Porque perdem tanto tempo
Deixem lá os espalhafatos
FMI é contratempo

Que seja a solução
O povo só vai gemer
Mas aos doutores da nação
Coitadinhos vai doer

Lá se vão a mordomias
Lá se vai o descalabro
De políticos sem serventia
Vivendo do espalhafato

Á custa da ralé
Que somos aos olhos seus
Meus senhores como é
Afundaram agora é vê-los

No joguinho do empurra
Tantas décadas é demais
Tanta retórica e candura
Areia para os demais

Aprovam, não vão aprovar
PSD e PS no jogo do diz que fez
Parem com o namorar
Tenham brio desta vez.

26 outubro, 2010

«« Falas ««


Os teu olhos dizem
As falas que concebem asas

Umas vezes cintilantes
Outras amarguradas
Os teus olhos contradizem
Ás vezes o riso forçado
Agora, eu sei que maldizem
As horas que passam mortas
Por onde deslizam saudades

Deixa que seja o vento
As asas a comandar
Verás que ao teu olhar
Desliza somente o momento

Em que os meus olhos te dizem
Desliza nas asas sem tempo.

25 outubro, 2010

«« Trocados ««


Olho um país leso
Malogro a arrepiar caminho
Dou por mim e envelheço
Tal como envelhece o ninho

De um pássaro que voou além
Das asas que a vida lhe deu
Esta terra de ninguém
Teve sorte que encolheu

Em cada virar de costas
Em cada salto para o ar
Olho um país, falas tortas
Na hora de lamentar

Um destino de muito fado
Uma herança à revelia
Um tesouro a ser guardado
Que nos acena quem diria

Com pedaços de memória
Dos tempos de pés descalços
Portugal triste vitória
Que não previu os percalços

De andar além das pernas
Os joelhos se vergaram
Agora choram as gralhas
Pelos trocos que gastaram.

23 outubro, 2010

«« O teu beijo ««


Caminho sobre mim mesma
Enredada na soidade
Meu amor estreitos enganos
Num cansado caminhar
Penso-te, o quanto amamos
Num gosto que é idêntico
Um toque que é autêntico
Na procura, nossos lábios
Ensejos a acertar
Toque de mãos em anelos

Caminho sobre mim mesma

Pensando te encontrar
Preso num raio de sol
Aquece-me feito lençol
Igual ao teu beijar.

22 outubro, 2010

«« Fim de tarde ««


Descansaste o olhar em mim
Uma carência afogaste
No brilho dos meus cabelos
Que o vento teima em ondular
Sonolento o fim
Aconchegou-se, não reparaste
Nos minutos apressados
Que teimam em galopar

A brisa anunciou
Que a tarde terminou
Os meus cabelos branquearam
Dos teus olhos brotaram

Umas saudades temporãs

«« No tempo das cearas ««


No tempo das cearas
Os campos eram verdes
Os sobreiros alegres
Os gafanhotos em colunas
Faziam um festim
Por campos de marfim
Na tarde quente. As brumas
Da noite fresca
Traziam o canto das cigarras
Os homens de samarras
Os gaiatos em festa

No tempo das cearas
O Alentejo era gente
Pobre mas contente
No olhar estampadas as almas
Dos que então partiram
Novos mundos descobriram
A terra ficou vazia
Mulher de negro sofria
Saudades, um filho ausente
A morte indolente
Da ceara de trigo
Agora penso foi castigo
À terra virar as costas

Oro de mãos postas
Que te traga o filho pródigo
Que no tempo das cearas
O verão não seja serôdio
Que a terra em regozijo
Se encha de trigo rijo

E a mulher de negro sossegue.

19 outubro, 2010

«« Poema sem rosto ««


Apetece-me pintar de rosa o atropelo
Mesmo que aquela sombra, diga não
Que o atropelo é apenas empurrão
Que nos conduz no fogo ou no degelo…
De um dia que termina em dia não
Cobiça da minha mente inquieta
Com a investida do consentimento
Desassossego nu do desapego
Com que me olho contrafeita
Através do teu olhar, confusão

Apetece-me pintar de rosa o atropelo
Com que me lês. Naquilo que julgas ver
Nocturnas visões inoportunas
Que pela calada te incitam a dizer
Que nada mais sou que mulher
Que se esconde por entre colunas
De palavras sem sentido, flagelo

O que tu não sabes, ou não queres saber
Sou o poema no acto de escrever
Sou fera bravia, rio a bom a rir
Com a visão conturbada desse teu sentir

Porque te perdes em entenderes que viram pesadelo,
Quando era tão fácil folhares-me sem ter rosto.

18 outubro, 2010

«« Seminua ««


Passou por mim a neblina
Perdida de uma noite fria
Eu juro, vi o teu olhar
Trouxe uma réstia de luz
Que me aqueceu do frio
De uma hora vazia
Perdida na noite escura

Acalentou o meu sentir
Lentas horas sem dormir
Impávida olhando a rua
Senti-me seminua
Ao brilho do teu olhar
Belisco-me estou a sonhar
Na noite só brilha a lua.

«« Palavras na TV ««


Eu juro que gostava deles, gostava de correr para a taberna, que era o único sitio onde existia televisão por perto, eu, e mais meia dúzia de gaiatos, para assistir às tardes de cinema na RTP.
Hoje, depois de ver o telejornal fiquei nostálgica, crescemos a assistir a filmes onde a violência, parecia à primeira vista ser a rainha da trama, os heróis matavam os maus com uma rapidez impressionante, mas hoje, ao assistir ao telejornal, reparei que não existem mais heróis, todos são maus, mesmo aqueles que dizem defender os mais fracos, está patente nos seus gestos, nas suas vozes, o total esquecimento pelos valores. Travam uma guerra tentando cada um chegar ao poleiro o mais rápido possível, envoltos em tramas demagogas, e olhares avarentos.
Talvez, fosse por isso, porque no tempo da televisão a preto e branco, existiam heróis. Talvez fosse por isso, que eu e meia dúzia de gaiatos saímos sem molestas de maior, de uma geração que vibrava com pistolas de fingir, e os mais velhos lá longe amofinavam cada dia ao lado da g3, apesar disso conseguimos arrepiar caminho por entre cravos de liberdade.
Hoje aqui estou eu, nostálgica, porque as pistolas na TV, tem a forma de palavras sem carácter.

17 outubro, 2010

«« Sem rosto ««


Sem rosto, despojou-se do sexo e da idade.
Em criança, fechava-se no quarto e vestia-se de mil máscaras, de outros tantos heróis de banda desenhada, ou dos desenhos animados, e essas máscaras davam-lhe a liberdade para sobrevoar o planeta, brincar de índios onde o cowboy era sempre o rei da brincadeira, outras vezes era o Homem Aranha, o Batman, o Tintim o Lucky Luke entre outros tantos, que se perdem na memória. No dia seguinte era a Cinderela, a bruxa má, o Capuchinho Vermelho, a Anita nas suas múltiplas aventuras.
Os pais deitavam o olho tranquilizador por entre a frincha da porta e sorriam, - a imaginação desta criança.
Depois de tanta brincadeira, sem rosto dormia tranquilamente, um sono povoado pelos seus heróis.
Sem rosto cresceu, depois da escola primária veio o liceu, mais tarde a faculdade, nos anos que se seguiram, foi professor, advogado, dentista, veterinária.
Por vezes sem rosto não terminou os estudos, foi obrigado a trabalhar para ajudar no sustento da casa, aí foi padeiro, merceeiro, o homem do lixo, a costureira. Mas, como era esperto sem rosto foi-se adaptando aos novos tempos, aprendeu com os filhos a mexer nas novas tecnologias, primeiro timidamente, mais tarde com afoiteza. Por vezes tirou um curso especializado.
O mesmo aconteceu ao sem rosto diplomado, de inicio olhou para as novas invenções com estranheza, custou-lhe largar a velha máquina de escrever, o velho rádio de pilhas, o telefone que se queria preto. mas lá foi encaixando novos conhecimentos em prol do progresso, ao mesmo tempo que se lamentava nas horas mais mortiças, aquelas em que até o sem rosto fala consigo próprio. Digo eu, lamentava-se de não ter carregado consigo a mesma facilidade que tinha em criança, a de se fantasiar em mil personagens diferentes, por entre mil ilusões.
Hoje sem rosto vive o século vinte e um, e passeia-se descontraidamente pelo Hiperespaço, pelo Hipermídia, não esquecendo o Hipertexto, depois vem o Host, do que eu gosto mais é do Host dedicado, mas que ideia, a de dizerem que a coisa é dedicada, ah, estava-me a esquecer do ICQ que é quase a mesma coisa que chat.
Como ia dizendo, hoje sem rosto é uma pessoa feliz, pode não ter rosto no bairro onde mora, devido à vida frenética, que nos fez esquecer que os vizinhos do pé da porta são a nossa primeira família, no arranha-céus com tantos gabinetes e tantos cubículos que não sabe nem o nome de quem trabalha na sua frente. Mas, conhece a florzinha, a amada, a borboleta, o faísca, o tusa, o carrancudo, e todos os outros que interagem com ele no espaço virtual.
Deviam vê-lo, em cada site uma máscara, em cada noite um herói diferente.
Sem rosto faz tempo que não se lamenta por ter deixado de ser criança, hoje lamenta-se porque todas as noites a insónia lhe bate à porta.

Outubro 2010


Perguntas me assolam a mente esvaída
Num corrupio que me leva à loucura
Porque me sinto na vida traída
Se há tanto chão, se é grande a lonjura

Talvez seja eu que sou distraída
Me perco no vazio da noite escura
Senão porque tremo e me sinto doída
Ao olhar o mundo envolto em agrura

Perguntas eu faço, réplicas onde estão
Também os rios esperam a chuva no verão
Quem sabe a resposta chega em Outubro

No cair da folha, caia a desventura
Do meu país que perdeu compostura
Talvez em Outubro, se aviste bravura.

14 outubro, 2010

«« Reviravolta ««


Diz-me a razão - não sabes escrever ( amor)
Gosto de rimar vazio e desamor
De falar dos nadas contidos ( no poema )
Gosto de palavras sem fonema

São as minhas contradições
Levanto-me de manhã
Atrapalhada com convicções
Ao meio dia já me sinto estranha

O poema tomou-me de jeito
Encheu-me de ciúmes o peito
Lembrei-me de ti com ardor
Suores frios lá vem o pavor
Do escrever leve como a pena
Alguma coisa que valha a pena

No meio de tantas penas
Acrescento um beijo tímido
Não lhe junto mais nada apenas
Porque não sei cantar o bandido
Do ( amor ) agora são três da tarde
Na minha cabeça arde
Um poema derretido
Penso em ti em arrebate
Junto-lhe um toque fugido

Da ponta dos meus dedos
Saem poemas adocicados
Lá se foi a convicção
A falsa negação
Noite dentro hora morta
Desenho-te em versos de amor
Esse teu ar sonhador
De poeta que não quer ser
De manhã tudo de volta
Um escrever reviravolta.

Júlia Soares ( pseudónimo )

«« Orçamento 2011 ««


Corre, corre Português
Não percas o autocarro
Ele não conhece o freguês
Até parece bizarro

De manhã ao acordar
Tive a grande noticia
Um orçamento a acenar
Escoltado p´la milícia

De mil razões sabidas
Outras tantas enfeitadas
Pela resma de conversas
De razões amontoadas

Estes senhores do poder
Metem-nos as mãos aos bolsos
Estão-nos é a foder
Sem vergonha ou remorsos

Tantos milhões desviados
Nunca se lhes soube o caminho
Agora estamos lixados
Paga, paga Zé Povinho


poeta maldito (pseudónimo)

«« Lenços de papel ««


Acordei e duas palavras martelaram-me o pensamento, não pediram para entrar, nem sequer bom dia me disseram, duas maganas em forma de letrinhas, umas mais redondinhas que as outras.
Hoje, uma quarta feira igual à maioria das quartas feiras, a primeira coisa que me lembrei foi…
De lenços de papel, sim, lenços de papel, uns mais macios que outros, com cores catitas, ou brancos, com perfume ou de papel reciclado, eu cá gosto dos brancos.
Estou a imaginar a sua cara, dois olhos inquisidores, os óculos na ponta do nariz, e a pergunta na ponta da língua - Porque raio se lembrou ela de lenços de papel, estará constipada, a chorar, ou apetece-lhe escrever e não tem onde, talvez o computador esteja avariado, ou então deu-lhe uma dor de barriga.
Nada disso, lenços de papel descartáveis, como descartável é quase tudo nesta vida, se perdermos dois minutos a pensar, como o descartável se tornou banal nos tempos que correm, chegamos à conclusão que até nós virámos descartáveis.
Trabalhamos há quase uma vida num escritório, numa fábrica, ou noutro sítio qualquer, começamos a estar usados, logo o novo gestor pensa, aquele está a mais, é tempo de ser substituído. Logo vem a tormenta, onde o descartável se ajusta à nossa imagem, procuramos um novo emprego, a primeira coisa que querem saber é
- Sabe trabalhar com as novas tecnologias, tem formação nisto e naquilo. Muito encolhidos sublinhamos que sempre fomos bons funcionários, nunca nos atrasamos, trabalhamos mesmo doentes, a família fica sempre em segundo plano, mas a dita formação não existe.
Não é bem assim, está você a pensar neste momento, fiz uma formação em cidadania, reaprendi inglês, trabalho com o Word o Excel o Office e sei lá mais o quê, até vi as minhas competências validadas nas Novas Oportunidades, ou então fiz um doutoramento em gestão, por isso estou apto, e encaixo-me no perfil pretendido. Não tenha ilusões, depois dos 35 anos neste país já se é velho, e velhos são descartáveis.
Os velhos empurram-se para os lares, porque os apartamentos são pequenos, e precisamos daquele quarto para fazer um escritório. É que passamos muitas horas na Internet e precisamos de privacidade, ou então passamos o dia todo fora de casa e não é justo o pai ou a mãe estarem sozinhos em casa durante esse tempo, no lar estão melhores, sempre têm com quem conversar, outros há que moram sozinhos, mas não saem de casa, o reumático já não deixa, por isso não olhando se são válidos ou não, lá os convencemos que no lar é que estão bem, mesmo que no final do mês metade do ordenado seja para pagar o infantário, as crianças estão melhores entre crianças, que importa se saem de casa a dormir, e quando regressam o cansaço seja tanto, que mal engolem o jantar. Velhos e crianças não se dão, por isso além de descartáveis os valores também se vão perdendo, estamos a criar uma sociedade estéril à coabitação. Cada macaco no seu galho.
Depois temos as relações cada vez mais descartáveis, e essas não escolhem idade, hoje curte-se, não se namora, coabita-se, mas cada um passa metade do mês para seu lado, nem sei como alguns ainda se conhecem, temos os casados, tão bem casados, mas dormem em quartos separados, os sozinhos e egoístas porque não se privam da sua liberdade, o que eles não sabem é que daqui por meia dúzia de anos também eles já são velhos, num país de velhos.
Somos tão descartáveis que nem nos apercebemos, o quanto o nosso modo de vida é descartável.
Por isso hoje, passei o dia a pensar em lenços de papel.

12 outubro, 2010

«« Espera ««


Há defeito na espera
De quem na espera flutua
O corpo apático balança
Num ir de cá para lá
Ensaiando uma dança nua

O chão cansado olha de revés

Quem espera marca passo no vazio
Tentando vislumbrar através
Do equilíbrio que vai perdendo brio
Aproxima-se a duvida em turbilhão
Mão suada enlaça o corpo
Quem espera (está em dia não)
Até o chão lhe parece torto

«« Deslizo pelo sentir ««


Penso naquilo que não é
Uma ilusão repentina na brisa que passa
Estranheza nas águas sem maré
É caprichosa e escassa
A moleza na vontade de sentir
Um olhar debruçado ( em nós )

Espera sem retorno do inconsciente
Quem se importa com águas paradas
Os olhos recusam-se a chorar
A falta de um cuidar que alimente
O silencio das horas pesadas

Leve recordação do cheiro
De uma manhã de chuva
Faz-me pensar se não sou como a água

Deslizo pelo sentir sem deixar aroma.

11 outubro, 2010

«« Pensamento ««


Quero um amor
Que me dê a cor
O doce sabor
De um fruto silvestre

Não sei se me agasto
Neste meu pensar
Quero olhar
E ver o meu rasto
Na areia, a desenhar
Luz e vida a saltitar
Dois braços, abraçar
O cheiro e o gosto
De um beijo trincado

Quero um amor
De sorriso franco
Colher uma flor
De um branco tão branco
Tingi-la de cor
Depositá-la no flanco

Do pensamento fugidio

09 outubro, 2010

«« Solidão ««


Joana vive sozinha, há muito que o silencio se entranhou nas velhas paredes do casebre onde mora, ao fundo da rua da ladeira, em Pedras Negras. Em tempos foi uma casa alegre e cheia de vida, no tempo em que os pais eram vivos, e os irmãos pequenos, os pais morreram ia para quinze anos e os irmãos tinham seguido a sua vida, foram morar para a cidade. Não tem amigos, apenas conhecidos, não que não gostasse de os ter, mas o seu jeito calado afasta as pessoas. - Porque será que se perde tanto tempo, com conversa fiada, pensa de si para si, sempre que houve a tagarelice das vizinhas.
É segunda feira, a hora vai alta, sente-se mal, um aperto no peito, um tremor nas pernas, se não fosse o gato, companheiro de horas gastas, não se teria levantado neste dia. Há mais de uma hora que está sentada no velho cadeirão de verga, olhando um ponto negro no teto da sala de estar, até o gato presente que algo não está bem, e roça-lhe as pernas a cada dois minutos, Joana nem o sente, tal a abstracção que a envolve.
Os pensamentos correm para aquele ponto negro.
Se a sua vida tivesse mais cor, se o destino lhe tivesse trazido amor, se não tivesse só o gato por companhia, se ela tivesse sido bonita, se a terra fosse farta, a sua casa cheia, com um jardim em frente da porta da rua, se, se, se. Joana sente-se ir envolta nos ses.
O gato agora mia, num miar agoirento.
Joana está cada vez mais distante, o ponto negro ganhou a dimensão de um balão, as suas mãos geladas elevam-se tentando apanhá-lo, assim que o balão esvoaça na sua direcção, mas este ri-se dela, e vai dependurar-se na moldura do espelho, suspenso numa das paredes da sala.
Nem se apercebe que treme de frio, apenas um suspiro a abanou, quando o balão lhe passou rente à face. Não tentou levantar-se, o ponto negro não há-de levar avante. Vai continuar ali olhando o nada, até ele desaparecer.
As pálpebras pesam-lhe e aos poucos Joana rende-se a esse peso, sabe que não vale a pena lutar contra o cansaço que se apossou dela neste dia, mesmo que quisesse não conseguia, está demasiado fraca, há muitos dias que deixou de comer, nem se lembra quando bebeu água pela ultima vez
Joana fecha os olhos, mas, antes ainda vislumbra ao longe o pai e a mãe que lhe acenam, dizem qualquer coisa, inaudível aos ouvidos do gato, mas que Joana consegue decifrar.
- Já vou, não demoro nada, é só despedir-me da roseira encostada à ombreira da porta.
O reboliço instalou-se na aldeia, não é que a tia Joana morreu a apanhar rosas.

07 outubro, 2010

«« Raiz quadrada ««


É um não sei quanto de raiz quadrada
Radicalmente falando do meu pensamento
Desconfio que o pé, é inerte
Polivalência da minha insanidade
Subo dorida os degraus viciados
Sentença herdada à nascença
Por que me perco no alheamento
Que a poesia me traz

Não será a raiz quadrada a fuga
Sei que do fundo da alma me saem faíscas
Tantas vezes espadas afiadas
Com que te trespasso o coração
Fico indiferente à tua aflição

É o meu ego que fala mais alto
E não me deixa olhar-te pelo prisma
Que me lê

Imaginando que sou a raiz quadrada no poema.

06 outubro, 2010

«« Portugal no 5 de Outubro ««


A visão conturbada pela pressa
Com que mete a mão ao bolso

O olhar daquele que tropeça
Num entre muitos, o imposto

O poder que sobe à cabeça, é politico
Só mais um que vai surripiar

Ombros caídos daquele que é pobre
Com vergonha não fica sem pagar

Estica a mão num gesto ausente
Um numero que esqueceu que é gente

O olhar agoirento do agiota
Especula que a pança não é gula

A fome do povo a carpir
Na tribuna aquele está a rir

O meu país parece indiferente
Será que esquece, que o povo é dirigente…

05 outubro, 2010

«« Parabéns Filhota ««




Mãe, o meu dia foi bestial
Mas aproveitei-o mal
Mãe, queria ter dormido de manhã
Tenho escola amanhã
Só no sábado posso dormir
Mãe, porque estás a rir

Minha filha
Não se pode ter tudo
Imagina um gelado de baunilha
Daqueles que tem canudo
Um sol abrasador, o gelado derrete
Cai ao chão, dizes que frete
Um gelado não devia derreter
Será, que te deliciavas ao comer

Um gelado quente.

Mãe, eu já não sou criança
Já tenho nove anos, sei que os gelados são gelados.

04 outubro, 2010

«« Não sei se o chame pelo nome ««


Bem sei que me perco. É a puta da lide
Alguém me diz de que cor é a razão
Coagida pelo pensamento atrevido
Abdico de tudo menos do meu cão

Ou não fosse ele que me atura o mau humor
Me lambe as mãos ariscas e vaidosas
É ele que me guia na estrada, se a cegueira progride
Me atira para a valeta, um jeito de brincar

O meu cão chama-se piloto
É o fio condutor entre a sonolência e o despertar.

03 outubro, 2010

«« Balão colorido ««


Balão colorido, fruto a desflorar
A mão da criança que só quer brincar
Haste vigilante, longa caminhada
Olhar envaidecido, ao longo da estrada

Festa deslumbrante, já tem vinte anos
Sobe aos olhos de todos
Pula e avança
Haste irreverente, a confiança

Torna-se homem, seguindo em frente
Um pouco mais adiante, longe o bastante
O balão colorido, vai perdendo a cor
Setembro da vida, Outono bicolor

Inverno que chega, frio de gelar
A mão da criança que teima em voltar
Haste vacilante, que quer tombar
Por terra barrenta e descansar.

Olhar humedecido, orgulho a crescer
O balão colorido soube viver.

01 outubro, 2010

«« O Reizinho ««



O Reizinho, rapaz bem parecido e apossado por causas nobres, ultimamente vive num dilema constante, não é que o seu dedo mindinho esqueceu-se que é o mais pequenino entre os demais.
Reizinho já tentou de tudo, primeiro começou por deitar as mãos aos parcos cabelos no centro da cabeça, ele deu voltas e mais voltas, aos tristes filamentos, mas as ideias coitadas, teimaram em encaminhá-lo, sempre para o mesmo lado, aquele, em que o eu que não sou eu, se recusa a reconhecer o dedo mindinho, como o mais pequeno.
Uma certa vez Reizinho falou alto e em bom tom.
- Não me levam a melhor, é preferível ser odiado e visível, do que querido e permanecer no anonimato.
Já que o dedo mindinho não lhe dá descanso, o melhor é servir-se dele de alguma maneira.
Reizinho puxou da velha sebenta, aquela que o mestre escola lhe deu, no dia do exame da quarta classe. Folheou uma a uma as sebentas páginas, de tanto serem folheadas. Quase no fim da velha sebenta, reizinho encontrou o que procurava, um desenho a carvão da sua mão direita, pulou de alegria, ali estava a prova de que o dedo mindinho, em tempos se tinha portado bem.
Reizinho puxou de uma cadeira almofadada, ultimamente tudo lhe dói, desde a parte mais alta no centro da cabeça, passando pelo fundo das costas e terminando no dedo mindinho do pé esquerdo. Porque, Reizinho aqui há uns tempos atrás tinha conseguido domar, os dedos dos pés, e convenceu-os que eram todos do mesmo tamanho.
Estava Reizinho sentado, ia para duas horas, por entre as mãos agora cansadas, pendia a velha sebenta.
Parece que tudo está contra si, no ultimo minuto antes de se finar, Reizinho pula da cadeira, espalma a velha sebenta no centro da mesa oval, da casa de jantar.
Finalmente fez-se luz, por entre os filamentos dos cabelos rebentados, pela emoção de saber pensar, saíam o que pareciam pequenas estrelas a luzir. Nada mais era, do que partículas de pele, arrancadas com garra, pelo desgraçado do dedo mindinho, da mão direita.
Ignorando a irritação provocada pelo esgatanhar, do dedo mindinho, Reizinho coloca com força, a sua mão papuda, em cima do desenho a carvão, da sua mão direita, na velha sebenta.
Pasme-se quem quiser, não é que depois de tanto pensar, como haveria de dar volta ao seu dedo mindinho, que teimava em ser do tamanho dos outros, o desgraçado tinha crescido tanto, que só o dedo mindinho era do tamanho da mão, desenhada na velha sebenta, que o mestre escola, lhe tinha dado no dia do exame da quarta classe.
Será que depois desta tentativa, o Reizinho descobre, que os dedos da mão, embora tenham o mesmo dono, são todos diferentes.