28 Novembro, 2009

«« O poeta aos meus olhos ( XI ) ««


( Regresso )
Lisboa seus pés

Voltei nos braços nus da branca aurora
Regozijo em madrigais orvalhados
Ai saudades desta Lisboa e seus fados
O trinar de uma guitarra pra sempre chora

Nova Arcádia acolhes-me, agora
Reconheces os meus versos inebriados
Seduzes-me nos poemas declamados
Mas logo, bato a porta e vou embora

Gentinha em rodopio bate no peito
Poeta maldito sim mas de génio
Nunca poeta mudo ou contrafeito

Felinto mestre, grande e senhor
Em missivas arrasas este convénio
Que por força me quer mudo, o coesor

27 Novembro, 2009

«« O poeta aos meus olhos ( X ) ««


( Macau)
Amigos

Encharcado de misérias existência torta
Avistei Macau terra da sobrevivência
Vi a morte, abracei tristemente a falência
Por milagre bons amigos me abriram a porta

Abraçaram o infortúnio que me transporta
Por caminhos tortuosos de dor e carência
Deram nova esperança à coexistência
Aprendi que amizade é aquilo que importa

D. Maria, Silva Ferreira, Pereira de Almeida
Até vossos filhos me aconchegaram no peito
Mostraram-me a aurora, julgara-a perdida

Com Beckford chegou o reconhecimento, sim
Brilhou minha estrela, merecido respeito
Versátil encantamento se abeirou de mim.

«« O poeta aos meus olhos ( IX ) ««


( Falência)
Triste

Apregoam-te pelo preço do brilhante
Que tentam a todo o custo impingir
Goa vaidade vil, decadente, prestes a ruir
Aparente ganância, soberba abundante

Na boémia, me esmago lentamente
Por entre amores, deixei de saber sorrir
Na cama agonizo, em pesado sentir
Recupero, entre pintos sigo em frente

Hoje promovido a tenente, vou a Damão
Sitio, sem apego, deserto, vou embora
De bagagem, levo miséria em cada mão

Macau sigo o sonho, num barco à deriva
Em Cantão me achei perdido, na desonra
Pátria minha triste hora, a da partida.

26 Novembro, 2009

«« O poeta aos meus olhos ( VIII ) ««


( Amores )
Gertruria

Gertruria a flor primeira, do meu jardim
Desponta, nas horas leves da mocidade
Flor de beleza tal, perdi-te nessa ansiedade
Que me sepultou, em águas frias, te arrancou assim

Ritália, Márcia, Marília, sereias, amores sem fim
Borboletas que me trazem felicidade
Em outras noites transportam a saudade
Da pátria, do Tejo, dessa Lisboa, ai de mim

Perdido por entre amores, como corais
Os carrego no meu peito, nas horas mortas
Recordam-me os tumultos em vendavais

Elmano, grito no derradeiro instante
Não olhei para trás, me afastei da porta
Gertruria amor cimeiro, mas tão distante

«« O poeta aos meus olhos ( VII ) ««


( Mar )
Consciência


Águas calmas tranquilizem a existência
Do que sou, homem perdido, de vida parca
Filho de um tempo regido pelo monarca
Rei e senhor, de um império em efervescência

Mar dos deleites, nos medos a consistência
Entre o sonho e a realidade, pobre abarca
Que me calças, ilusões, assim que embarca
Nessa nau, onde navega, a minha consciência

Mar revolto, não, não me olhes jamais
Vira-me as costas, sou filho infame
Sou poeta renhido, tentando igualar os demais

Enraizado nos delírios existenciais
Que fustigam a que bem alto brame
Homem, poeta, não me calarei jamais.

«« O poeta aos meus olhos ( VI ) ««


( Camões )
Agonias

Camões, o teu grito chega por entre as vagas
- O modelo serás dos desgraçados.
Enxofre onde afundo os meus brocados
Tempestade de nuvens assombradas

Nuvens negras de chumbo disfarçadas
Fantasmas que me ferem, os malfadados
Camões, poeta, para mal dos meus pecados
Vida que desfazes nas minhas lágrimas

Porque teimas e aproximas na grandeza
Nereida marco teu rumo, e conto estrelas
Senhora da vida faz-me ver com clareza

O clarão do poeta que me lembra alegria
Ajuda-me, arranca as dolorosas lágrimas
Ou então, cala p`ra sempre a minha poesia.

24 Novembro, 2009

«« O poeta aos meus olhos ( V ) ««


( Duvida )
Poeta triste

Fui clássico, ou será que fui romântico
Duvida em que agonizo, pouco a pouco
Fui marinheiro, poeta triste, e louco
Fui sonhador, transbordei o ser num cântico

Embrenhado entre musas e esse Atlântico
Oceano onde perdi a alma, num grito rouco
Nem o Pacifico me amparou, tampouco
Morte que espreitas nesse universo quântico

Ah , Gertrúria paixão sublime onde agonizo
Nesse silêncio que me mata, meu delírio
Ansiedade onde facilmente ajuízo

Por ventura o meu amor renegaste
Já não me queres, definho nesse martírio
Será, que algum dia por mim choraste.