Poemas declamados

Loading...

30 junho, 2009

«« Sedativo ««


Onde perdi a consciência ou a transfigurei,
Opondo-me á razão da sobrevivência
Inércia impenetrável da aparência
Quanto mais me busco, mais me afastei

Das raízes rugosas dos poemas que matei
Enfeitei-os de nada sem dor ou clemência
Extasiei-me no fácil e na ausência
Neguei a mensagem, na rima que afoguei

No oceano da facilidade, fútil vaidade
Matizei-me poeta, do repetitivo
Escrevi no limite do nada, com agilidade

Coroei-me de louros em papel cativo
Utópico livro sem estante ou claridade
Será que sou poema, porventura estou vivo?

29 junho, 2009

«« Saco de serapilheira ««


Esvaziaste quase tudo
Pegaste pelas pontas gastas e ressequidas
Deste saco de serapilheira, que sou eu
Sacudistes, até me da por vencida
Não vale a pena fazer prevalecer os meus ideais
Esses são meus, não me separarei deles jamais
Quando nada faz sentido, tudo fica amarelecido
Igual a papel envelhecido
Num sem fim de razões, que nada mais são que, frustrações
E depois…
Tentas arejar a consciência, tantas vezes numa postura
Em que te vês como vitima, escassa conveniência
Aponto a pertinência
A tua, que moldas cada situação, pela bitola da aparência
Pela insegurança, no teu próprio eu
Aponto a minha pertinência
Que me perco na derradeira tentativa
De te mostrar que nada é perfeito, muito menos
O incerto da existência
Mas tu não entendes, ou eu não te olho
Ou tu não me olhas e eu não te entendo
Assim passamos os dias
Tentando cada um puxar a brasa à sua sardinha
Pobres tolos, na tentativa de alcançar a derradeira felicidade
Matamos a essência num rosário de amargura
Que vai apertando o laço, subtil do fracasso
Acabaremos por seguir em contra mão
Cada um munido da sua razão, ataremos o saco de serapilheira
Com a corda da ilusão, de seguida atamos-lhe uma pedra
Para que ao afundar-se no mar do desalento, não mais se atreva
A subir átona de agua.
Finalmente dormiremos em paz.

«« Um ramo de rosmaninho ««


Como eu queria que me olhasses
Que me esticasses a mão
Que me cobrisses do frio
Que me gela o coração
Eu queria que parasses
E visses a pedra fria
Que me cobre a sepultura
Mesmo antes de morrer
Eu queria que chegasses
Com teu jeito de não ver nada
Mas tudo vê tudo entende
E fá-lo pela calada
Ah,
Como eu queria que trouxesses
Um ramo de rosmaninho
Que perfumasse o meu peito
De amizade e de carinho.

27 junho, 2009

«« Olhar sagaz ««


Ah! Estás ai, sim ai, olhas-me com esse olhar
De quem tudo viu e o pior tudo viveu
Olhas e dizes, esquece o meu mundo não é o teu
Olhar sagaz de quem na vida sabe estar

Que me leva por instantes a desejar
Que o teu olhar pare um minuto no meu
Que consiga decifrar o que escondeu
O meu olhar, quando se atreveu a pensar

Que esse olhar que me olha no horizonte
De uma existência que jamais alcançarei
Me dará de beber naquela fonte

A que chamo ilusão à qual me pendurei
Imaginei que era uma enorme escada
Quem sabe um dia por ela subirei

26 junho, 2009

«« Vem ««


Dá-me a mão e caminha comigo, vem
Andaremos por aí sem rumo sem norte
Talvez seguiremos os caminhos da sorte
Os que desconhecemos mas estão mais além

Aqueles por onde caminham os loucos sem,
Saberem que são, os que os afastam da morte
Os que gritam, num grito gaiato, tem porte
Sim vem, tu e eu por esses caminhos também

Meu amor esquece, o amanhã pouco importa
Vive a vida como se fosse o ultimo segundo
De uma existência que está quase morta

Abraça-me e corremos ao encontro do mundo
Antes que seja tarde, antes que se feche a porta
E se caia para sempre num buraco sem fundo

25 junho, 2009

«« Cansei ««


Cansei das palavras escritas na folha fria
Cansei de olhar ao longe tentando ver-te
Cansei de olhar o sol esperando pelo meio dia
E o pior cansei de mim, cansei de escrever-te

Passei horas tentando desenhar-te, sim
E fui-me afastando e afastei-te a ti, miragem
Acabei de descobrir, sou má a desenhar o fim
De um sonho, uma ilusão, uma simples imagem

Duas almas que redescobrem a imensidão no além
Eu por ti, tu por mim, o vazio entre nós dois
Essa esperança que os desejos afluíssem

E agora cansei, de escrever, de esperar nada mais
Vou guardar os anseios, os sonhos para depois
Num qualquer dia reinventar-te, e amar-te nos areias

«« Amarras ««


Soltei as amarras no vazio da essência
Vagueie sem norte arrastando o esqueleto na sobrevivência
Nos silêncios por pura conveniência,
Nos sorrisos tentando esconder a existência
Aqui e ali plantei uma flor, abriram as pétalas, fizeram-se ao mundo
Criaram raízes, mostrei-lhes os matizes da vida, nas cores do arco íris
Agora a meio caminho, sigo em frente pela charneca
Tentando alcançar os areais daquela praia deserta
Onde um dia me afogarei pela certa
Sozinha, mas desperta e sobretudo liberta.
Olho para trás e vejo uma clareia vazia, agora sei, nada lá cabia
Nem o amor, muito menos a paixão, a sofreguidão que consola o coração
Quando não se vê a vida pelo mesmo prisma, nada a fazer, perdeu-se a rima
Soltei as amarras, e sigo a direito
Deixei de lado o preconceito, finjo não ver o despeito
De quem me olha e não entende
Que dói muito mais viver sem essência, visando somente a conveniência
O bem parecer, os outros não ofender com as nossas opções.
Dói muito mais, esconder que temos alma, e essa alma carrega ilusões
Podem ser simples caprichos aos olhos de todos, mas são nossas
São as nossas entranhas, que gritam por elas, recebemo-las ao nascer
E depois, querem por força que as passemos a esquecer
Dói muito mais, viver a mentira, negar os ideais, esconder as ideias
Do que bater com a porta, dizer basta, sou gente, perdi a paciência
Quero ser dona da minha existência, não importa caminhar sozinha
Não importa terminar num deserto
Num deserto de areia fina, ah vou rebolar
Vou de areia me inundar, e quem sabe me afundar
Mas sei que lá no fundo, bem no fundo onde a areia é mais fina
Tem alguém para me receber no ultimo instante, um pouco antes de morrer.

24 junho, 2009

«« Gesto ««



Padeço em cada gesto tirado ao desejo
Gesto que arrebato no instante perdido
Pedaços de alma, soltos num gemido
Bocados de mim, revoltos num bocejo
Padeço os segundos, em que não te conheço
Retalhos sangrentos, um sopro, um solfejo
Murmúrios que me chegam nas águas do mar
Vindos de outros céus, ao longe a miragem
É ela que me conta, na mais fresca aragem
Os teus medos, os teus sonhos, os desenganos
Que tentas esconder no poema absorto
De um verso escondido que finge estar morto
Mas que o mar atento consegue desbravar
E me fala na areia nas ondas a bailar
Das rimas perdidas que pensas ocultar
Padeço em cada gesto tirado ao desejo
Retalhos de um poema que escreves na água
Inquieta disfarço o choro num lampejo

23 junho, 2009

«« Olha ««


Apetece-me pedir que me olhes bem
Vejas através da minha transparência
Vejas o meu eu, esquece sim, a aparência
Essa normalmente é a que menos me convêm

Olha-me nas entrelinhas sempre mais além
Procura no fundo da minha existência
Todos os meus medos, as minhas reticencias
Revira-me o fundo, os meus segredos também

Talvez encontres uma alma perdida
Buscando alento no belo da terra
Procurando conforto na brisa tingida

Das cores brilhantes do alto da serra
Perco-me no poema de um poeta com vida
assim como eu encontrou sua musa, na terra

«« Quero ««


Sim quero…
Quero amar-te ao luar, no meio de estrelas a bailar
Pode ser num leve toque, um roçar de pele, um tocar de alma
Que me traga a certeza, que as fábulas de encantar existem
Que as vontades subsistem
Envoltas em cetim suave, de um branco cristalino
Que me traga as certezas nas cordas de um violino
E me diga, podes rir podes chorar, sonhar, até amar
Ao cair das primeiras chuvas de Março
Eu e tu enlaçados
Embrenhados no cheiro a terra molhada, terra fértil, abençoada
Quero amar-te lá longe onde nos levar aquela estrada
Aquela por onde caminham os desejos, simples e puros
Suaves como os realejos, que levam a musica de terra em terra
Estranha quimera essa, que carrego no coração
De que um dia, um só dia, nessa imensidão
Sentirei o toque da tua mão, o bater do teu coração
Mergulharei de cabeça, nesse mar de sabores
Algo doces semitrincados, os beijos dos namorados
Tu e eu caminharemos enlaçados
Quem sabe, mesmo à beira de uma ravina, não importa
Somos loucos, estamos apaixonados, corremos o risco
Mas vivemos esse exacto momento, como se fosse o primeiro
De uma existência, onde a vida termina a seguir
Penso em ti
Vejo-te a rir, desta minha ilusão desmedida
De que um dia, a tua, a minha vida se juntem numa só guarida.

22 junho, 2009

«« Só quero


Eu só quero um cantinho
Onde me abrigar
Pode ser pequenino
Onde eu possa sonhar
Onde eu possa falar
Ou até ficar calada
Eu só quero um cantinho
Onde me sinta amada

Depois de longa jornada
Esse lugar encontrei
No teu colo deitei
Os teus lábios beijei
Posso dormir descansada.

«« Fica ««


Envolta no lençol do teu calor
Entreguei-me ao delírio da paixão
Subi ao céu envolta num clarão
Andei nas nuvens vazia de amargor

Senti no vento esvair-se a minha dor
Ao subir descalça a ladeira da ilusão
Ao sentir o sol inundar-me o coração
Agarrei sem ter medo o fio condutor

Que me mostrou o caminho tão esperado
Lá me guiou por clareiras e verdes prados
Embalou-me na melodia de um trinado

Acordes de mil cores ensolarados
Quimera de um desejo alcançado
Fica, não fujas, sonho enjaulado

21 junho, 2009

««O estranho caso do homem que passou a ser rato ««


Doutor Manuel Jeremias vai com Deus, homem abastado,tanto em figura como na conta bancária, mas coitado pobre de pensamento, isto é o que diz a esposa, a Sra. D. Efigénia da Conceição, vai com Deus, claro está.
Com Deus e com o Diabo, arremata a vizinha do lado, a menina Augusta. Sempre que a coisa lhe corre mal. Nada lhe escapa no prédio, e a vida dos vizinhos da porta da frente, muito menos. O seu interesse deveras aguçado, pelo casal vem de longa data, mas nos últimos tempos, criou contornos anormais. Leva horas de funil em punho, encostado à parede da sala, ouvindo assim tudo o que se passa na casa ao lado. Tudo isto, desde que um dia acordou sobressaltada com uns guinchos aflitivos, que mais pareciam porquinhos da índia, não querem lá ver, o semítico do Dtº comprou porcos da índia , fez isto só para me moer a cabeça aposto, não descansou enquanto não arranjou uma desculpa para entrar na casa dos vizinhos, queria ver com os seus próprios olhos.
Conforme o pensou assim o fez, aproveitando a hora da sesta, agarrou no canário que tinha numa gaiola pendurada na varanda, e sorrateiramente meteu-o pela fresta da janela da cozinha dos vizinhos, depois correu aflita a tocar à campainha, quando a porta se abriu, em alvoroço deu conta do sucedido ao Dtº Manuel, que, com muito mau modo lá a deixou entrar em casa para apanhar o canário, demorou-se longamente pela casa, parecia que em vez de apanhar o pássaro, cada vez o enxotava mais, assim percorreu todo o apartamento, nem a despensa escapou, até que o dono da casa farto de tanta palhaçada pegou numa toalha que jogou para cima do pobre animal, e lá saiu a menina Augusta com o seu malfadado canário, saiu, pior do que entrou, tanto trabalho, tanta correria para nada, nem sinal do que poderia causar tantos guinchos fora do normal todas as manhãs à mesma hora.
Estava uma manhã primaveril daquelas em que não apetece ir trabalhar, e muito menos enfiar-se no auditório da faculdade de ciências onde iria dar uma conferência , sobre a ciência do esquecimento, ai vocês não sabiam, que até para nos esquecermos é preciso ciência, é esta a área pedagógica que o Dtº Manuel Jeremias abraçou vai para mais de vinte anos, ensina a nobre arte do esquecimento.
Este ano lectivo até nem lhe tem corrido nada mal, tem uma turma de vinte alunos todos eles aplicados na disciplina do esquecimento, mas estas conferências todas as quintas feiras da segunda semana de cada mês dão cabo dele, ter que enfrentar um auditório cheio de gente interessada em esquecer é obra, com estes pensamentos saiu de casa.
A viagem até à faculdade durou cerca de meia hora, pelo caminho lá foi apreciando as meninas de mini saia que se dirigiam para os seus empregos a passo apressado, aqui e ali uma ou outra despertava-lhe a atenção.
- hummm boa perna sim senhor, olha aquela o decote dela, belas mamas, sim aquela até que ia. Assim chegou à porta do auditório, mas coitado já não se lembrava de nada do que tinha visto pelo caminho, é a vantagem da sua profissão. Antes de entrar arrumou o carro no parque de estacionamento no lugar que lhe era reservado, mas, uma morena, alta e espadaúda despertou-lhe a atenção. É pá, parece um avião, olha aquele traseiro, saiu dali quase a correr, ainda teve tempo de se lembrar da D. Efigénia ai se ela tivesse aquelas pernas, mas coitada um metro e meio de gente, roliça ainda por cima sardenta, eh,… quando tinha vinte anos até que não era pior, mas agora desmazelou-se isso é que foi.
E lá foi o pobre do Dtº Manuel Jeremias dar a bendita conferencia, mas algo estava mal, todos notaram, não se conseguia concentrar, ele, um orador nato que cativava plateias inteiras quando começava a falar de como era importante saber esquecer.
- Ai aquele traseiro, e abanava a cabeça de um lado para o outro, articulava mais meia dúzia de palavras e lá vinha a morena de novo, ai se a tivesse nos meus braços, suores frios escorriam-lhe pelo rosto, começou a ver tudo a andar à roda e catrapumba, o bom do Dtº estatelou-se ao comprido no chão.
Quando acordou viu-se ladeado de uma multidão, mesmo por cima da sua cara um decote e… ai, desmaiou de novo, alguém tirou de uma maleta de médico uns sais ou coisa parecida que lhe deu a cheirar, ao abrir os olhos, balbuciou. Hi, hi, hi, hi, as pernas.
Ninguém lhe ouviu nem mais um pio enquanto esperaram pela ambulância, que o conduziu ao hospital, sempre a acompanha-lo foi a dona das pernas, nada mais nada menos que a morena do parque de estacionamento.
Depois de vários exames, os médicos não lhe encontraram doença que valesse a pena a sua permanência no hospital, mandaram-no para casa com a recomendação de que teria que evitar surpresas desagradáveis de qualquer ordem, fique descansada doutora balbuciou a D, Efigénia que entretanto tinha sido chamada para tomar conta do marido.
Já passaram mais de dois meses , o bom do Dtº nem parece o mesmo, todas as manhãs à mesma hora é vê-lo saltar da cama de um salto, e leva pelo menos cinco minutos aos saltos gritando, hi, hi, hi, hi, deixou a profissão de docente e agora é bibliotecário na biblioteca da cidade, leva o dia inteiro enfiado nos cantos escuros da biblioteca lento tudo e mais alguma coisa, decorou até o mestre cozinheiro de uma ponta a outra, de vez em quando pára frente a qualquer espelho e repete para si mesmo, hi, hi aquele traseiro.
Finalmente a menina Augusta conseguiu descobrir de onde vinham os estranhos guinchos o que ela não sabe é que desde o celebre dia em que desmaiou no auditório da faculdade o Dtº Manuel Jeremias vai com Deus descobriu que a importância da recordação é muito maior que a do esquecimento, daí ter passado a ser rato de biblioteca, foi a melhor maneira que encontrou para exercitar o cérebro e nunca mais se esquecer de nada. Descobriu a importância das coisas simples da vida e do doce sabor da recordação, o que ele não se importava nada de esquecer era a bisbilhoteira da vizinha do lado que agora meteu na cabeça que tem que descobrir porque é que o Dtº se ri a torto e a direito todas as manhãs assim que a esposa sai para comprar o pão.
Deixa estar, não perdes pela demora pensa com os seus botões a menina Augusta.

20 junho, 2009

«« Vem ««


Vem,
Senta-te comigo à sombra da imaginação, dá-me a tua mão,
Inunda o meu coração com a paz tranquilizante
Das marés baixas na foz do Tejo nas tardes calmas de Agosto
Mesmo que uma lágrima me caia no rosto, não ligues, sorri apenas
Essa lágrima, é a derradeira a ultima que chorei na vida inteira
Todas as outras, as de raiva, as de amor, principalmente as de dor e desamor
Se foram no limiar daquela nuvem, que me trouxe o recado
De que um dia haverás de te sentar a meu lado
Por isso vem
Mesmo que seja no vento, mesmo que seja na chuva miudinha
Que inunda a planície tórrida onde a terra se deleita, faz amor com essa chuva
E nasce a canção perfeita, no voo de uma borboleta
Vem nas asas da cegonha, quando chega a primavera, vem de longe não sei de onde
Só sei que aqui construiu o ninho, onde uma nova vida gera
Assim é todas as Primaveras
Tal como ela eu tenho o meu espaço, no campo a céu aberto, onde me perco
Tentando ver ao longe a tua silhueta, imagino-te correndo de braços abertos
Tentando agarrar a vida que teima em esvair-se, pelos dedos da incerteza
Do que será o amanhã
A resposta a encontrarás na minha lágrima que caiu, ao deslizar ela viu
Os dias tranquilos, as mentes em comunhão, o segurar a tua mão
Terminando por dormirem em paz, o teu e o meu coração.

19 junho, 2009

«« Meretriz sou eu ««


Mulher perdida, mulher da vida
Olho-te de cima do meu pedestal
De mulher normal, na minha normalidade
Anseio ser meretriz
Tudo isso porque te vejo feliz.
Olho-te e vejo-te, rindo alegremente, chamando aquele freguês
Que me deixou mulher honrada, mas mal casada
E tu , sim tu, aproveitas os meus anseios, os meus receios
E vives sem querer saber de nada
Passas o tempo encostada a essa esquina
De lá para cá de cá para lá ensaias a dança da vida
Vida fácil de mulher sem porte
Quando ris à gargalhada, nessa esquina encostada
Quando levantas a saia, sob o meu olhar de mulher ponderada
Desfila a ilusão de mulher devassa, mulher de vida fácil
Meretriz sou eu
Que não vejo o penar, que te aponto esse desgastar
De uma vida sem amar
Meretriz sou eu
Que nunca parei para pensar, o porquê
Desse andar, que provoca o olhar de qualquer santo no altar
Mas fico a matutar
Encho a boca para falar o teu nome, a tua facilidade, sem ver a fragilidade
E falo à boca pequena da minha leviandade, dos meus desejos obscuros
Da falta de verdade que existe
No amor que vendes, no sexo, que repartes, assim ao Deus dará
Na gargalhada onde o choro escondes, quando eu mulher honrada
Passo por ti sem te ver
Olho aquilo que quero, vejo sexo, sexo e sexo,
Sexo, meretriz sou eu
Que nunca perdi um momento a pensar no teu sofrimento
A razão porque estás aí
Sim aí, de saia levantada, ainda não tiveste tempo
De a baixar desde o dia que foste violada
Por um qualquer homem, de mulher honrada
Ainda não tiveste tempo de a baixar
Desde o dia em que te puseram fora de casa
Menina de tenra idade, o teu pecado
A falta de sanidade de quem te gerou
Tu que a troco de uns trocados, fazes sexo sem pecado
Meretriz sou eu
Não tive tempo, nunca tenho tempo

Sou honrada falta-me o tempo….

«« Estrela do norte ««


Estico a mão, sinto o toque daquela estrela
A mais pequena, a mais singela, tão bela
Envolta na sua luzerna amarela
Chega-se a mim, traz a esperança com ela

Estrela do norte, que poisas na janela
Onde espreitam os sonhos, perdidos na viela
Das vontades, que esta vida desmazela
Traz-me o sol, traz a lua, envolta em aguarela

Traz-me o sonho, que perdi no vendaval
Que espalhou o meu choro, pela vida
Traz-me a força que deixei no pantanal

Onde a juventude, se fechou emudecida
Pelo pavor de parecer abismal
Esta força que me arrasta nesta lida

18 junho, 2009

«« Nada mais ««


Por vezes embrenho-me no arco íris
Procuro em cada cor, em cada aresta
Tento me embrenhar, na mais fina frecha
Procuro aquele céu que sempre quis

Vida, como os teus caminhos são frágeis
Ao forçarmos a porta, que está trancada
Porta inerte, dos desejos afastada
Cais onde encalha a minha nau, naufragada

Naufraguei nas canseiras desta vida
Afundei, no lamaçal, da minha frustração
De me sentir fria, areia humedecida

Por onde rebentam, fungos em decomposição
E dizem, gritam, esquece, foste vencida
Nada mais te resta, apenas a solidão

17 junho, 2009

«« Ah, pois ! ««


Nesta era abismal
Quem me dera, ser irreal
Não ver, ou ver bem mal
Não pensar, e coisa e tal
Muito menos me sentir mal

Podia ser boneca
Daquelas articuladas
Que dizem mamã e papá
E outras palavras estudadas
Podia ser um comando
De um carro telecomandado
Juro,
Que te atropelava
Isto é caso pensado

Imagina
Que eu era formiga
Entrava nos teus lençóis
Ai Jesus os carcanois
Nem sei se te conte, se diga
Onde te dava a ferroada
Estás a ver,
Ah , pois!

Ai se eu fosse
Um anjinho
Entrava de mansinho
Devagar, devagarinho
Bem no centro do teu peito
Batia de leve com jeito
Ai Jesus o corridinho

Eu e tu em desalinho
Na noite de S. João
Juntinho ao coração
Pegavas na minha mão
Acordei…

Não querem lá ver, o trambolhão…

16 junho, 2009

«« Amanhã recomeça ««


Deslizei os dedos nos teus cabelos
Agucei o desejo, por entre delicias
Afagos, sussurras tão doces carícias
Embrenhei-me por entre novelos

Assim enlouqueço perdida em teus braços
Enquanto me envolvo no cheiro que emanas
Sinto-me solta, com tão finas asas
Em voo picado, perco-me em beijos

Percorres ao de leve, a minha pele nua
Sem resistir eu dou, me entrego ao prazer
Elevo a ti, num arrebate, elevas-me à lua

Despertas os meus desejos de mulher
Êxtase que termina em paixão continua
Amanhã recomeça, novo fogo a arder

«« Paradoxo ««



Deixei de contar contigo:
Esta é a frase, que lhe martela a cabeça faz tempo, deixei de contar contigo, estava habituada a ouvir tudo, mas esta frase abalou-lhe a existência como se de um terramoto se tratasse. Como era possível, que lhe dissesse tal coisa, a ela, que vivia confinada a esta relação ia para cinco anos, ainda por cima uma relação proibida, como se diz por aí, sempre que as relações entre um homem e uma mulher não obedecem a ordens pré estabelecidas sabe-se lá por quem, e a troco de quê. Da família, mas que família, pode existir família quando impera a traição e a mentira. Dos bons costumes, onde estão, se o regabofe se instalou na sociedade tal carraça em tempo estio. Da moral, da religião, não, está tudo a cair de podre.
Marta, assim se chama, mulher simples, sem grandes pretensões na vida, 38 anos, cabeça feita sem tabus ou preconceitos, muitas vezes sente-se uma miragem no ambiente que a rodeia, filha de gentes do povo herdou das suas raízes a simplicidade de ver as coisas com clareza e nitidez, tem plena consciência que por vezes têm receio do que pensa ou até medo, chama tudo pelos nomes, as pessoas gostam de florear os sentimentos e as emoções, principalmente gostam de florear a existência, desse modo ficam mais leves dos pecados que praticam, se é que o pecado tal como o definem existe realmente, pecado é morrer de fome, são crianças estropiadas, é matar gerações inteiras em guerras ditas santas, assim pensa Marta.
Rondava os trinta e três anos quando conheceu Alfredo, numa manhã de Julho, lembra-se, como se o tivesse conhecido neste momento, entrou no café habitual para beber a bica da manhã, como fazia todos os dias, enleada nos seus pensamentos, ao esticar o braço para pegar na chávena de café, tocou no ombro do vizinho do lado, e lá vai disto, houve café entornado por tudo quanto é sitio, atrapalhação total, mal conseguia articular palavra, não fosse o alvo da chávena ser tão simpático e ainda hoje estava pedindo desculpas.
A partir desse dia ele lá estava todas as manhãs à espera que ela aparecesse, a conversa foi fluindo, até que chegou o dia em que a convidou para almoçar. Marcaram encontro para as doze e trinta junto à praça de táxis da baixa.
Marta foi ao seu encontro de pernas bambas, começava a amá-lo tinha certeza disso, mas ele era casado, a aliança que usava na mão esquerda não deixava qualquer duvida, nunca tinham falado disso, aliás da vida dele muito pouco falaram, sabia que era engenheiro, que trabalhava num escritório da baixa e pouco mais, era o suficiente, para quê saber mais. Ás doze e trinta em ponto, Alfredo chegou, estacionou o carro e foram a pé até ao restaurante, que não ficava longe, não trocaram uma única palavra, já dentro do restaurante escolheram uma mesa reservada, pediram o almoço depois de consultarem a ementa, ele pediu, choquinhos de tomatada e ela bifinhos com cogumelos, regaram a refeição com uma garrafa de vinho branco, de Borba, no final dois cafés. Durante a refeição o silêncio reinou, uma ou duas palavras trocadas e pouco mais, depois de paga a conta dirigiram-se ao carro, ele abriu-lhe a porta que fechou lentamente depois de ela entrar e tomou o seu lugar. Partiram em direcção á serra da Arrábida.
Rolavam na estrada nacional havia já alguns minutos, Marta de tão nervosa não sabia o que fazer com as mãos, como que adivinhando os seus pensamento Alfredo posou a sua mão livre sobre as dela, continuaram em silêncio tinham tomado um caminho de terra batida que terminou junto de uma moradia antiga, uma daquelas casas rústicas que existem na serra, Alfredo estacionou debaixo de uma laranjeira, e apressou-se a sair para lhe abrir a porta, ela ainda não tinha acabado de por os pés fora do carro já ele a tomava nos braços e a beijava, Marta sentiu que o chão lhe fugia debaixo dos pés, tinha sonhado com um beijo assim desde que se conhecia, já tinha tido alguns namorados, mas não eram os beijos que queria, não, era este o beijo que ele sabia existir à sua medida, entregou-se a ele nesse dia, e a partir dai viveu para ele.
Ontem à noite sem mais nem menos durante uma conversa ao telefone, a maldita frase, deixei de contar contigo.
Está certo, o tempo de que dispunha diminuiu substancialmente, trabalha muito mais do que à cinco anos atrás, tem algumas limitações familiares, a sua mãe, com quem sempre viveu, adoeceu devido à idade e ocupa-lhe mais tempo, mas, e ele, casado, casadíssimo, trabalho, filhos, pais, cão, só falta um gato e um periquito, será que ela algumas vez contou com ele.
Não pegou olho esta noite, pela madrugada mandou-lhe uma mensagem para o telemóvel, para quê só a ia ler no outro dia de manhã, mas mandou, conversa fiada, lamuria de mulher despeitada, infeliz, sim infeliz, ama-o com todas as suas forças, não consegue pensar sequer a sua existência sem ele, mas de cada vez que se olha no espelho vê a vida a fugir, sabe que um dia acabará sozinha, sem ninguém e aí será tarde, como pode ele dizer-lhe que não conta com ela.
Pelo meio da manhã Marta pegou no telefone, tinham decidido que seria ela a telefonar todas as manhãs, marcou o numero, ao fim de uns segundos a voz dele apareceu, cristalina como sempre, tem uma voz doce, que lhe aquece o coração, meia dúzia de palavras trocadas quase a correr, longe vai o tempo das conversas demoradas. ele ainda lhe perguntou - estás zangada, não que ideia, porque haveria de estar zangada, simplesmente disse que estava tudo bem, ao desligar Marta sentiu um travo na boca, doida, devias de lhe ter dito o que realmente sentes, o abandono a falta de atenção algumas vezes e não são poucas, os dias os meses os anos á espera que sobre tempo para ela, por incrível que pareça o tempo quando lhe sobra a ele falta-lhe a ela e vice versa, é o que dá ter duas vidas paralelas, vida, com ela não é vida são retalhos, farripas de vida. Vai ter que acabar com isto. Pôr ponto final a uma relação que só a desgasta e poucas alegrias lhe dá, e vai ser da próxima vez que ele telefonar, chega.
Passado pouco mais de uma hora toca o telefone, Marta atende num ápice, do outro lado da linha ouve a voz terna, doce, minha querida que se passa, estás zangada, sei que sim.
Marta respondeu, não está tudo bem, amo-te.
Ama-o mais que a própria vida, vai estar sempre ali à espera que haja tempo, teve a certeza disso a primeira vez que ele a beijou.

13 junho, 2009

«« Conversam dois corações ««


Hoje conversei contigo, junto à lareira dos desejos,
Falei-te demoradamente, dos meus anseios, dos meus medos,
De um país adormecido, tão parco de sentidos.
Contei-te as diabruras de uma menina magricela,
Que via a vida límpida e singela, tal qual a flor amarela, que adorna o campo sul,
Onde enterro os desejos.
Falei-te dos grilos ralos, que teimam em, musicar as minhas noites, acabei por dizer,
O que deveria esconder, talvez esconder, por bem parecer,
Falei-te da solidão, de quem vive em contra mão, dos desejos, que carrego no coração,
Sim, falei-te da solidão, a minha maior aflição,
Escutas-te em silêncio, o brilho no canto do olho, dizia-me que, sim, entendias,
Compreendias cada palavra, para todas, guardavas resposta suave, como aquela claridade
Que entra pela janela, meia aberta meia fechada,
Deixa entrar a aragem, e diz-me,
Que acredite, que converso contigo, demoradamente,
Junto à lareira dos desejos, aqueles que procuro esconder,
Talvez um dia tenha esta conversa.
No dia em que o céu e a terra se unam, na força poderosa, e me tragam
A tua alma em forma de rosa,
Vermelha, rubra de emoções, de desejos aflições, de quem viveu solidões
E agora…
Conversam dois corações.

«« Saudade ««


Um aperto, a saudade, do quê, não sei
Quem sabe é do mar, talvez da chuva fria
Que se desfez na lágrima que corria
Quisera eu agarrar, o que jamais terei

Desejo, paixão, ilusão que apaziguei
No verso já sem vida, escrita vazia
Sou actor de mim, sem horas de acalmia
Sem cor, sem rumo, horizonte, ou lei

E esta saudade, que trouxeste contigo
Será, que a avistas nas horas da sesta
Quando nos sonhos me tens, me deito contigo

Perdida embrenho-me por essa fresta
Que me empurra, nessa viagem do sentido
Me eleva a ti, esperança ténue, fina aresta.

12 junho, 2009

«« Montanha ««


Sussurras palavras, por onde caminho de alma nua
São como canteiros de flores em botão,
Tão delicadas, ternas, rosadas, dizem serei tua
Trémula deposito, o meu coração, na tua mão

Fiz de ti o sol, que me ilumina pela manhã
Corro ao encontro do arco íris, nos raios da aurora
Deleito-me nos doces bagos da romã
Sonho , sonho acordada, subo à montanha

Montanha onde espero, o final dos tempos
Que me faça brisa, me eleve a ti, em flor
Que me faça mulher, por breves momentos

Assim passo os dias, as noites, esperando um sinal
Que me mostre o sol, em todo o seu esplendor
Que me convença, não, não estás doida, é bem real.

«« Ilusões pendentes ««


Vou esperar, sentada ,na cadeira dos sonhos, aqueles que vejo passar,
E não consigo alcançar, naqueles que se esvaziaram, e desisti de sonhar,
Vou esperar sentada, á soalheira, encostada na ombreira da porta,
Por onde, um dia tu entrarás, sim tu, o sonho, perdido em dia de chuva,
De ventos e vendavais, tal a trovoada, que não sonhei nunca mais,
Mesmo que a espera seja longa, não arredo pé, és a réstia de luz,
Que me mantêm cativa, a uma vida cor de chumbo, que, por vezes,
A aragem fresca da manhã, teima em inundar de sol,
Esse sol quente, que revigora os campos, cobertos de neblina,
Depois de um dia de chuva, depois do arco íris trazer com ele, os sonhos, que,
Espalhei em campo aberto, que teimam em voltar. Que querem se enraizar, mas tenho medo, medo de sonhar, medo de já cá não estar,
Porque teimas os sonhos avivar,
Sempre que ponho a alma a descoberto, e tu, sorrateiramente, entras pela brecha,
Do sentir, e me mandas recados no sol que trouxe do nascente,
Ilusões pendentes, sonhos dormentes, de dias felizes.

11 junho, 2009

«« Do que falo ««


Do que falo, ou antes, do que tento falar, sem ninguém para escutar,
Não...
Sou eu, que não sei dizer, o que sinto, ao olhar, um pássaro a voar.
Como eu queria me enlaçar, nesse voo perdido, sem tempo.
Assim ele me levasse p´rós confins do firmamento.
Por lá ficava esperando que fosse tempo, tempo de não falar.
Uma lágrima a deslizar, no meu peito vem findar, o que acabou por não chorar
Do que falo, nem eu sei, nasci nas entranhas da terra, que já farta me renega,
Terna mãe, que não me aturas, as falsas diabruras, de poeta de ninguém,
De poeta o fingimento trouxe agarrado no tempo, no cordão umbilical
Mas tão mal, sei fingir, que pergunto,ó terra mãe, por que me fizeste assim,
Deixa-me ter pena de mim, amanhã serei melhor, medirei as palavras,
Com o prumo da certeza, que viver nesta incerteza, não é vida, é vegetar.
Do que falo, eu falarei, no dia em que acreditar, que vale a pena falar.
Que alguém me vai escutar,
E quem sabe me enlaçar, nessa conversa se embrenhar.

10 junho, 2009

«« Corre ««


Não me olhes, não vejas a transparência da morte que carrego,
Não essa morte, que costumas chorar, não, a morte do meu pensar.
Pensar, a força que me fez caminhar, novos matos desbravar, mas,
Cansei-me de raciocinar.
Porquê perder tempo, fazer-te perder tempo, com,
Ideias que nem eu entendo, com motivos que me afastam,
Sempre e sempre mais, da existência consensual, do que se diz normal,
Não percas tempo, passa, corre nas asas do vento, esquece o meu lamento,
Nada mais é, que simples tormento, tentando mostrar o que não é,
Corre pelo descampado da existência, procura a tua conveniência, e,
Não olhes, não vale a pena, ter pena.
Talvez valha a pena ter medo, do dia que vai nascer, da morte que chega sem bater
Da solidão desmedida, de quem cala e diz amem
Ao delírio, daqueles que nos julgam, que nos empurram, sempre e sempre,
Mais p`ro fundo do grande buraco sem fundo, a que chamam, clemência.
Pergunto quem me olha na sobrevivência.

09 junho, 2009

«« Desenraizei ««


Desenraizei, as vontades perdidas no tempo
Bruscamente as espalhei sem ter dó, reneguei,
Todos os sentires, que se infiltraram no lamento
Desbravando o ventre que me pariu, não chorei

Gritei, gritei, abraçando a luz, pena de mim não tenham
Virem-me as costas, deixem-me, caminhar sozinha
Pobres almas, que se consomem, não se detenham
Sou pasto, que virou funesta ladainha

Consola-me esta sensação esvaziada de cor
Anafo-me por entre a sombra da noite morta
Loucamente procuro os sonhos de um amor

Que se perde de mim, que se perdeu ao nascer, nem viu
A sombra fria, que teima em ficar na minha porta
A dor em mim, que submergiu, ao viver me atingiu.

«« Perdi-me de mim ««


Caminhei por entre as nuvens da solidão
Percorri embriagada o limiar do meu ser
Por vezes virei as costas, nada a fazer
Descalça, carreguei penas de aflição

Pergunto, onde estou, penso, não me vêem, não
Assombrada, olho, e acabo por não me ver
Perdi-me de mim, pouco me resta , findou o crer
Afoguei-me em delírios, parca alucinação

E agora, que me resta, por onde caminharei
Será , que a vida se perdeu de mim
Ou fui eu, que sorrateiramente a desviei

Embrenhei-me na loucura do ser, do ter sem fim
Pobre concubina da minha própria razão
Imaculada imaginação, restou este vazio, de mim.

07 junho, 2009

«« Que me faz poesia ««


Se um dia me oferecerem flores
Que sejam singelas, tragam-nas brancas
Atem-lhe uma fita de palavras francas
Embrulhem-nas em papel de muitas cores

As cores que traz o dia que nasce, e os odores
A rosmaninho, a flores do campo tão belas
Á agua que canta límpida, ás aguarelas
Que se espelham num Alentejo de sabores

Este é o sonho que trago comigo, visão
De que um dia me trazem flores de amor
Me conduzem ao sabor do vento suão

Me apertam ao peito, me roubam esta dor
Que carrego comigo, quase sem saber
Que me faz poesia, que me trás desamor

05 junho, 2009

«« A gatinha Matilde ««


Matilde é uma gata de pelo brilhante com umas manchas pretas e bancas, ou serão brancas e pretas espalhadas ao longo do corpo, duas orelhinhas sempre em riste uma branca outra assim assim, os olhos esses são vivos e cristalinos de um preto azulado, parecem duas azeitonas luzidias, isto é o que ela pensa cada vez que se olha no espelho, sim, ela passa a vida frente ao espelho, é uma gata muito vaidosa, ainda se lembra a primeira vez que viu a sua imagem reflectida no espelho. A sua dona a Sra. Maria tinha acabado de trazer para casa um objecto redondo e luzidio com uma moldura enorme cor de laranja, com a ajuda de um martelo e de um prego pregou o dito objecto na casa de banho por cima do lavatório, Matilde curiosa como sempre, não esteve para meias medidas mal a dona virou costas pulou para cima do cesto da roupa suja e deste para o lavatório miauuuu ouviu-se por toda a casa, Matilde com os pelos todos em pé de um salto ficou agachada dentro do bidé, que é isto pensou de si para si, outro gato cá em casa era só o faltava, manteve-se imóvel por longo tempo, delineou um plano, assim que o outro gato saltar para o chão saltar-lhe-á em cima ele vai ver com quantos paus se faz uma canoa.
A Sra. Maria que se encontrava no jardim a regar as flores não deu por nada, pela hora do almoço estranhou a Matilde não se encontrar em cima do frigorífico como era seu costume sempre que ela preparava as refeições, de cima do frigorífico o campo de visão era mais alargado e a gatinha não perdia pitada das lides da dona.
- Matilde chamou a dona, como esta não aparecesse decidiu procurá-la pela casa, encontrou-a ainda dentro de bidé olhando para o espelho como quem caça ratos, a Sra. Maria deu uma sonora gargalhada, anda cá minha tola disse, tinha compreendido a ausência da gata na cozinha, anda, pegou-lhe ao colo aproximando-a do espelho, Matilde arrepiou-se mas ao colo da dona estava segura, iriam as duas tratar do intruso, vês disse a Sra. Maria és tu, isto é um espelho onde podemos ver a nossa imagem reflectida, estás a ver eu estou a teu lado, com cuidado aproximou o focinho da gata do espelho, é frio e está imóvel, Matilde miou de contentamento, afinal, era só um espelho onde ela se podia mirar sempre que lhe apetecesse.
A vida continuou tranquila para a Matilde passava longas horas ao sol na relva do jardim, outras vezes brincava com as borboletas e os gafanhotos, havia ainda as formigas, delirava com os carreiros das formigas, todas em fila umas atrás das outras, pareciam soldadinhos de chumbo na suas longas caminhadas.
Uma manhã algo de anormal se passou, a sua dona ainda estava deitada e o dia já ia longo, Matilde pela vigésima vez abeirou-se da cama onde a dona continuava imóvel, tocou-lhe ao de leve com a patinha no nariz como fazia sempre que queria água ou comer durante a noite, mas nada, miou, ronronou não adiantou a Sra. Maria não se mexia, encostou-se ás pernas da dona e adormeceu.
No dia seguinte continuava tudo igual, começava a doer-lhe o estômago com fome, a comida na tigela tinha acabado na noite anterior e a água também estava quase a acabar, Matilde deu grandes miados pela casa silenciosa, a sua dona continuava na cama, agora o seu corpo estava frio, gelado como pedra, a gatinha estava a ficar sem forças, deitou-se novamente junto à dona e ali ficou, ninguém sabe por quanto tempo, a casa era isolada do resto da aldeia e a Sra. Maria não era dada a muitas falas, ainda ninguém deu pela sua falta.
Hoje de manhã o carteiro Joaquim tem uma carta para entregar no Monte Novo, assim se chama o monte onde a Sra. Maria mora, como o caminho até à casa é longo demorou algum tempo a chegar, finalmente achou-se defronte à casa, estranho pensou, este silêncio, a Sra. Maria adora ouvir rádio e com o som bem alto, sentiu um calafrio alguma coisa estava mal, chamou, bateu na porta e nas janelas da casa e nada, silêncio absoluto, não esperou mais, procurou ali perto algo com que pudesse arrombar a porta, encontrou um tronco de considerável dimensão, com toda a sua força arremessou-o de encontro à porta, esta cedeu lentamente, o carteiro entrou pela casa dentro chamando pela Sra. Maria sem resposta, mas nisto pareceu-lhe ouvir um gemido, seguiu o som, entrou no quarto frio onde a humidade se tinha instalado, procurou ver o que se passava, a escuridão era quase total conseguiu dar com a janela que abriu num repente, o quadro que se mostrou a seus olhos deixou-o sem palavras, a Sra. Maria jazia morta sob a cama, mas, algo se mexeu para de seguida ficar imóvel, o bom do homem reconheceu a gatinha Matilde, magra, de olhar baço, nota-se cada osso do seu corpo, mas lá estava ela deitada sob a dona, jamais abandonaria a sua dona.
Passaram-se alguns dias desde a descoberta, ao final da tarde o carteiro Joaquim toma o caminho para o Monte novo, numa derradeira tentativa de conseguir apanhar a gatinha que se recusa deixar o local, continua magra, não por falta de comida porque o bondoso carteiro todos os dias lhe traz comida fresca e enche a tigela da água, não, Matilde pouco se alimenta, as saudades da sua dona são enormes, nada nem ninguém a arranca dali até a sua dona voltar.
Na aldeia todos sentem pena da gatinha mas nada podem fazer, o carteiro homem sempre atarefado a pouco e pouco foi-se esquecendo da Matilde até que um dia deixou de aparecer, Matilde aprendeu a sobreviver sozinha, caça ratos do campo e pequenas aves, até os gafanhotos e as borboletas antigos companheiros de brincadeiras servem de refeição, já passou tanto tempo, Matilde de vez em quando olha-se no ribeiro de água cristalina que passa perto da casa, sente uma enorme saudade da sua outra imagem reflectida no espelho, no tempo em que era amada e cuidada pela sua dona, sente tantas saudades da Sra. Maria, mia um miar de dor e revolta, não compreende porque a dona adormeceu e nunca mais acordou, e depois, levaram-na sabe-se lá para onde, a demora é tão grande, porque não regressa, ter-se-á esquecido dela, não impossível a sua dona iria voltar.
Perdida nestes pensamentos estava ela se olhando no ribeiro quando um barulho desconhecido lhe chamou a atenção, correu em direcção à rua do monte, assustou-se, junto à velha figueira tinha estacionado uma camioneta de mudanças e várias pessoas tiravam de lá de dentro pesados móveis e outros objectos que carregavam para dentro da casa, eram os novos moradores do Monte Novo, os olhos de Matilde não paravam de fixar uma menina de tranças loiras e olhos azuis que corria de um lado para o outro, sentiu um calorzinho percorrer-lhe o corpo, uma força desconhecida a empurrou para junto da menina, esta quando viu a gatinha ajoelhou-se e pegou-lhe ao colo, mamã, gritou, olha o que eu encontrei e correu a mostrar a gata aos pais, este olharam um para o outro e acenaram com a cabeça, um gato, vai ser o nosso gato, disseram, Matilde e Margarida, era este o nome da menina não mais se separaram, durante a noite Matilde subiu para a cama da menina e com cuidado anafou-se junto ás suas pernas, nesse mesmo instante olhou para o céu estrelado através da janela e pareceu-lhe ver por entre as estrelas a Sra. Maria que sorria, Matilde finalmente adormeceu descansada.

«« Incerto ««


O que será de mim, sem ti, sem nós
Penso por entre as sombras da noite escura
Devora lentamente esta loucura
Como o mar devora a duna junto à foz

Desfaz em mil pedaços, tal casca de noz
Os delírios que carrego na tremura
Do incerto, que me prende na ternura
Centelha onde me banho a tua voz

O que será de nós, ao despertar
No dia em que o outro esteja mudo
Diz-me, eu preciso de escutar

Que eu e tu, somos um só neste mundo
Somos o mesmo barco em imenso mar
Navegamos lado a lado num segundo

04 junho, 2009

«« Em sangue que jorra morto ««


Socalcos abertos com a adaga do sarcasmo
Crueldade nas palavra que me engole
Faca rígida que corta o entusiasmo
Exalta agonia que lentamente me consome

Abafo o despeito da alma silenciosamente
Procuro na escuridão certo conforto
Olhando o escuro acredito copiosamente
O que escrevo, sou eu em sangue que jorra morto

Vejo esvair-se a força que me mantém sã
Em cada gesto que fazes sem pensar
Em cada sílaba escrita pela manhã

Envenena-me a alma, trás consigo a incerteza
Manhã de nevoeiro que teima em me enlaçar
Se meus versos emudecerdes, em quem acreditar.

03 junho, 2009

«« Procura-me ««


Procura ao longe onde o céu e o mar se fundem
No mais ínfimo ponto do infinito
Procura-me onde a terra se esvai em lume
No imaginário fértil do labirinto

Encontro-me comungando com a natureza
Paixão sublime inconstante e louca
Enleio-me nesse delírio da incerteza
Tudo é pouco, fruta silvestre na minha boca

É doce e ácida , esta espera constante sim
Razão feroz que me mantêm átona de água
Cego em desejos, cada vez me afasto mais de mim

Sobre duras e frias pedras faço o meu leito
Insaciável feitiço que não lhe avisto o fim
Vem, trás contigo o sol que ilumine o meu peito

«« Conta-me histórias do mar ««


Ouve,
Conta-me histórias do mar, sim, histórias de encantar
Não faz mal se eu chorar, preciso acreditar que algures por esse mar, existe
Um porto onde possa atracar
Conta-me
Histórias de um pais longínquo, de praias de areia quente
De campos vestidos de verde, onde os dias ainda sejam azuis, e de noite
Se saiba sonhar
Conta-me dos teus caminhos, dos teus risos dos teus choros, dos teus ais e lamentos
Conta-me o teu rodopio, o teu sonho fresco e esguio, o que faz girar o mundo
Conta-me, que eu conto-te
A criança que fui um dia, a mulher que se seguia, e a mulher que sou agora
Um pouco torta, sempre na descoberta de uma praia deserta onde possa adormecer
No dia seguinte acordar, dizer bom dia ao sol, nos teus olhos me perder
Conta-me histórias do mar, sim, lindas de pasmar, manda-me recado nas nuvens
Que nunca é tarde para recomeçar, que lançaste velas ao vento
E me buscas sem cessar.

02 junho, 2009

«« Os devaneios da Maria Papoila ««

Maria Papoila, moçoila casadoira, de carnes cheias, nem demais nem de menos, a medida certa, assim se comenta na taberna da aldeia. De seu pai herdou o porte altivo, a mania das grandezas, olho verde e tez leitosa, sua mãe essa deixou-lhe de herança dois calos no dedo mindinho, um ao lado do outro, ali onde o dedo termina e a planta do pé começa, coincidência dizem uns, sina dizem outros, mas foi de uma tia avó que recebeu herança abastada, uns marmelos anafadinhos de se lhe tirar o chapéu, cobiça de qualquer homem da terra, inveja de todas as mulheres.
Por volta das nove da noite Maria saiu de casa para o seu passeio habitual pela estrada velha que vai dar ao cimo da serra, leva esse caminho a uma enorme rocha que pela sua dimensão e formas um tanto ou quanto disparatadas, fazem dela um local de culto das moças solteiras e algumas viúvas da região, é formado o dito monumento por uma pedra mais comprida ao centro e uma redonda de cada lado, fazendo lembrar a varinha de condão e as respectivas bolas de cristal que o Jerónimo ajeitava entre as pernas sempre que a Maria Papoila se descuidava e deixava adivinhar o que escondia entre as suas, Jerónimo foi em tempos o seu companheiro de brincadeiras, rapaz moreno um pouco vesgo, as raparigas comentavam em surdina que nas partes baixas era o mais avantajado da aldeia, era ele o conforto da viúva do tio Anacleto, foi com ela que aprendeu a arte da alcova, daí nunca ter dado grande importância ás suas formas arredondadas, até porque a diferença de idades ainda era alguma, não odiava ninguém mas jamais perdoaria ter sido trocada pela viúva, isso jamais.
Com estes pensamentos se meteu ao caminho, nem vivalma, só se ouve o piar das corujas e o murmurar da água do ribeiro, como rejuvenesce nestes passeios, sente-se livre, liberta pouco lhe importa o falatório das vizinhas, falam por inveja. Rapariga dada ao natural enquanto caminha vai -se livrando da roupa peça a peça, falta despir as delicadas cuecas, com as iniciais do seu nome bordadas a ponto de cruz com fio de ouro, assim marca toda a roupa interior, símbolo de valor e resguardo, sim, porque Maria é virgem em tempos namoriscou o carteiro da aldeia mas depressa se cansou dele, só ele e o Jerónimo tiveram o privilegio de provar o sabor dos seus beijos, os homens são todos uns idiotas pensa, nenhum me merece, sente-se uma daquelas concubinas de um qualquer romance barato sempre que mete pés ao caminho para cumprir o seu ritual diário, ela é a amante espiritual do deus pedra.
Maria parou, um ligeiro barulho despertou a sua atenção, não conhecia a palavra medo, mas desta vez algo a susteve, algo lhe dizia que não caminhava sozinha, avançou mais um pouco pé ante pé, quanto mais avançava, maior a certeza que aquele barulho não lhe era familiar, a noite caiu faz algum tempo, sentiu um arrepio na espinha que lhe deixou a pele como se de uma galinha depenada se tratasse, seus olhos verdes esmeralda arregalaram-se numa tentativa de vasculhar a escuridão, era noite de quarto minguante, ainda por cima o dia tinha estado enevoado, nem uma réstia de luz se avistava, apressou o passo nada a faria voltar para casa sem fazer o que tinha que ser feito, tinha sido a escolhida da rocha só com ela o deus pedra se saciava teve a certeza disso numa tarde de Agosto em que pela primeira vez se despiu naquele local, e tocou as suas partes mais intimas, não era ela que se tocava, era a pedra, que lentamente a penetrava, tal foi a sensação de prazer que todas as noites o ritual se cumpre dia após dia.
Maria desconhece que num desses momentos de luxaria não estava sozinha, Jerónimo o seu companheiro de brincadeiras escondido por entre uns arbustos assistiu a tudo, e com ela gozou em silêncio, jurando a si mesmo que a haveria de possuir fazendo-se passar pela maldita pedra.
Dito e feito, depois de muito pensar elaborou o plano, apetrechou-se de um bocado de serapilheira, que pintou de cinzento igual à pedra, andou pelos recantos mais sombrios catando musgos para colar na saca assim esta ficaria mais macia, a bendita rocha ficava junto à nascente do ribeiro e estava coberta de musgos, agora só faltava descobrir o que fazer para pôr a Maria Papoila de quatro, num serão depois de beber uns copitos fez-se luz, iluminaria o local, para isso precisava de algumas velas para pôr ao redor da rocha, só meia dúzia de velas para que a rapariga não lhe descobrisse a marosca assim que chegasse, ainda faltava o som este tinha que ser fantasmagórico mas ao mesmo tempo sensual, lembrou-se então que o padre da aldeia tinha a mania que era musico, e costumava tocar uma velha rebeca sempre que se sentia mais sozinho, as más línguas diziam que só tocava para avisar a mulher do sacristão que estava na hora de visita habitual, claro está só nos dias em que o sacristão ia para a taberna jogar o seu joguito de baralho, más línguas nada a fazer, muniu-se de um velho gravador e foi para debaixo da janela do quarto do padre gravar os som da velha rebeca, mas, ainda não bastava então esperou que a visita do padre chegasse subindo ao peitoral da janela conseguiu gravar os gemidos de prazer que vinham da alcova do padre, mais tarde tratou de fazer a mistura e o som ficou perfeito.
Na noite anterior nem dormiu, suores frios escorriam-lhe pelo pescoço, imaginou a Maria Papoila despindo-se lentamente por entre a folhagem da velha estrada, sentiu o seu cheiro a amora silvestre, as cuecas bordadas, haveria de lhas roubar, seria o seu troféu, e agora ali estava trémulo à espera que ela aparecesse, quando ouviu os seus passos nas pedras do caminho não se susteve e veio escondido na escuridão ao seu alcance, seguiu-a pé ante pé, fazendo o mínimo de ruído, mas as malditas das mulheres tem um sexto sentido e ela apercebeu-se que algo se passava, tinha que ter mais cautela, por isso ficou para trás, não fosse o plano dar gorado depois de tanta trabalheira, esperou que ela se aproximasse da rocha, deleite dos deleites.
Maria ao aproximar-se ficou sem fôlego ao deparar com as velas ladeando a pedra, um gemido sussurrante ao mesmo tempo musical se espalhava pelo ar, milagre gritou Maria Papoila, e correu de braços abertos deitando-se ao comprido sobre a rocha, rebolou sobre si, Jerónimo aproveitou esse momento e saltou-lhe para cima, minha pedra, gemeu Maria aqui me tens penetra-me faz-me mulher, Jerónimo não se fez rogado, penetrou-a por trás, sentiu o seu ninho quente e fez dela mulher.
Maria Papoila, jaz sobre a rocha fria, acordou de um longo e profundo sono, onde mais uma vez se tinha entregue ao deus pedra, tudo lhe dizia que a rocha cheirava a tabaco, devia estar doida, e as suas delicadas cuecas tinham desaparecido, foi a pedra que lhas roubou, não faz mal, amanhã vestirá outras, mas o que menos compreendia eram os pingos de sangue pelas pernas a baixo, será que engravidou, será que a rocha vai ser pai, com estes pensamentos se vestiu e abandonou o local.
Esta noite Maria lá foi ao encontro da rocha, mas no local onde estiveram as velas estava o Jerónimo sentado afagando as delicadas cuecas bordadas a fio de ouro, ao seu lado estendidas sobre a pedra a serapilheira metade dos musgos colados tinham desaparecido na noite de ontem.
Maria Papoila finalmente compreendeu o que tinha acontecido, deu-lhe um par de estalo, de seguida abraçou-o e pegando-lhe pela mão levou-o dali para fora. Nunca mais a Maria subiu ao monte agora, dorme todas as noites abraçada ao seu deus, que deixou de ser de pedra.

«« Pés descalços ««


De pés descalços entrei no mundo
Palmilhei por mil lonjuras
Por entre silvas dei caminhadas
Por entre mato, vi-me estafada
De pés descalços, sempre ao contrario
Fui aprendendo a custo
De que serve virar fadário
Tudo aquilo que achamos injusto
De pés descalços
Andei pra trás
Na retaguarda me fui perdendo
Hoje cansada já tanto faz
Que ande descalça
Ou bem calçada
Tamanha foi minha jornada
Vesti vestido bem justo
Que me adorna, o busto
Pouco importa
Que esteja trocada
Que seja somente susto
Ou apenas encalhada
Pé descalço, de alma cansada.

01 junho, 2009

«« Êxtanse final ««


Senti na minha pele o beijo quente
Arrepio ávido num antevir de paixão
No deslizar da tua mão na minha mão
Pressenti teu libado na corrente

Por entre beijos dados ternamente
Nossas bocas unidas em comunhão
Nossos corpos numa constante mutação
Exalando teu perfume doce e quente

Dois corpos que se fundem num instante
Delírio permanente humedecido
Deleite, seiva que corre abundante

Desliza na minha carne em fluxo extraído
Sumarento como fruto salivante
Êxtase final, que se perde num gemido