Poemas declamados

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16 junho, 2009

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Deixei de contar contigo:
Esta é a frase, que lhe martela a cabeça faz tempo, deixei de contar contigo, estava habituada a ouvir tudo, mas esta frase abalou-lhe a existência como se de um terramoto se tratasse. Como era possível, que lhe dissesse tal coisa, a ela, que vivia confinada a esta relação ia para cinco anos, ainda por cima uma relação proibida, como se diz por aí, sempre que as relações entre um homem e uma mulher não obedecem a ordens pré estabelecidas sabe-se lá por quem, e a troco de quê. Da família, mas que família, pode existir família quando impera a traição e a mentira. Dos bons costumes, onde estão, se o regabofe se instalou na sociedade tal carraça em tempo estio. Da moral, da religião, não, está tudo a cair de podre.
Marta, assim se chama, mulher simples, sem grandes pretensões na vida, 38 anos, cabeça feita sem tabus ou preconceitos, muitas vezes sente-se uma miragem no ambiente que a rodeia, filha de gentes do povo herdou das suas raízes a simplicidade de ver as coisas com clareza e nitidez, tem plena consciência que por vezes têm receio do que pensa ou até medo, chama tudo pelos nomes, as pessoas gostam de florear os sentimentos e as emoções, principalmente gostam de florear a existência, desse modo ficam mais leves dos pecados que praticam, se é que o pecado tal como o definem existe realmente, pecado é morrer de fome, são crianças estropiadas, é matar gerações inteiras em guerras ditas santas, assim pensa Marta.
Rondava os trinta e três anos quando conheceu Alfredo, numa manhã de Julho, lembra-se, como se o tivesse conhecido neste momento, entrou no café habitual para beber a bica da manhã, como fazia todos os dias, enleada nos seus pensamentos, ao esticar o braço para pegar na chávena de café, tocou no ombro do vizinho do lado, e lá vai disto, houve café entornado por tudo quanto é sitio, atrapalhação total, mal conseguia articular palavra, não fosse o alvo da chávena ser tão simpático e ainda hoje estava pedindo desculpas.
A partir desse dia ele lá estava todas as manhãs à espera que ela aparecesse, a conversa foi fluindo, até que chegou o dia em que a convidou para almoçar. Marcaram encontro para as doze e trinta junto à praça de táxis da baixa.
Marta foi ao seu encontro de pernas bambas, começava a amá-lo tinha certeza disso, mas ele era casado, a aliança que usava na mão esquerda não deixava qualquer duvida, nunca tinham falado disso, aliás da vida dele muito pouco falaram, sabia que era engenheiro, que trabalhava num escritório da baixa e pouco mais, era o suficiente, para quê saber mais. Ás doze e trinta em ponto, Alfredo chegou, estacionou o carro e foram a pé até ao restaurante, que não ficava longe, não trocaram uma única palavra, já dentro do restaurante escolheram uma mesa reservada, pediram o almoço depois de consultarem a ementa, ele pediu, choquinhos de tomatada e ela bifinhos com cogumelos, regaram a refeição com uma garrafa de vinho branco, de Borba, no final dois cafés. Durante a refeição o silêncio reinou, uma ou duas palavras trocadas e pouco mais, depois de paga a conta dirigiram-se ao carro, ele abriu-lhe a porta que fechou lentamente depois de ela entrar e tomou o seu lugar. Partiram em direcção á serra da Arrábida.
Rolavam na estrada nacional havia já alguns minutos, Marta de tão nervosa não sabia o que fazer com as mãos, como que adivinhando os seus pensamento Alfredo posou a sua mão livre sobre as dela, continuaram em silêncio tinham tomado um caminho de terra batida que terminou junto de uma moradia antiga, uma daquelas casas rústicas que existem na serra, Alfredo estacionou debaixo de uma laranjeira, e apressou-se a sair para lhe abrir a porta, ela ainda não tinha acabado de por os pés fora do carro já ele a tomava nos braços e a beijava, Marta sentiu que o chão lhe fugia debaixo dos pés, tinha sonhado com um beijo assim desde que se conhecia, já tinha tido alguns namorados, mas não eram os beijos que queria, não, era este o beijo que ele sabia existir à sua medida, entregou-se a ele nesse dia, e a partir dai viveu para ele.
Ontem à noite sem mais nem menos durante uma conversa ao telefone, a maldita frase, deixei de contar contigo.
Está certo, o tempo de que dispunha diminuiu substancialmente, trabalha muito mais do que à cinco anos atrás, tem algumas limitações familiares, a sua mãe, com quem sempre viveu, adoeceu devido à idade e ocupa-lhe mais tempo, mas, e ele, casado, casadíssimo, trabalho, filhos, pais, cão, só falta um gato e um periquito, será que ela algumas vez contou com ele.
Não pegou olho esta noite, pela madrugada mandou-lhe uma mensagem para o telemóvel, para quê só a ia ler no outro dia de manhã, mas mandou, conversa fiada, lamuria de mulher despeitada, infeliz, sim infeliz, ama-o com todas as suas forças, não consegue pensar sequer a sua existência sem ele, mas de cada vez que se olha no espelho vê a vida a fugir, sabe que um dia acabará sozinha, sem ninguém e aí será tarde, como pode ele dizer-lhe que não conta com ela.
Pelo meio da manhã Marta pegou no telefone, tinham decidido que seria ela a telefonar todas as manhãs, marcou o numero, ao fim de uns segundos a voz dele apareceu, cristalina como sempre, tem uma voz doce, que lhe aquece o coração, meia dúzia de palavras trocadas quase a correr, longe vai o tempo das conversas demoradas. ele ainda lhe perguntou - estás zangada, não que ideia, porque haveria de estar zangada, simplesmente disse que estava tudo bem, ao desligar Marta sentiu um travo na boca, doida, devias de lhe ter dito o que realmente sentes, o abandono a falta de atenção algumas vezes e não são poucas, os dias os meses os anos á espera que sobre tempo para ela, por incrível que pareça o tempo quando lhe sobra a ele falta-lhe a ela e vice versa, é o que dá ter duas vidas paralelas, vida, com ela não é vida são retalhos, farripas de vida. Vai ter que acabar com isto. Pôr ponto final a uma relação que só a desgasta e poucas alegrias lhe dá, e vai ser da próxima vez que ele telefonar, chega.
Passado pouco mais de uma hora toca o telefone, Marta atende num ápice, do outro lado da linha ouve a voz terna, doce, minha querida que se passa, estás zangada, sei que sim.
Marta respondeu, não está tudo bem, amo-te.
Ama-o mais que a própria vida, vai estar sempre ali à espera que haja tempo, teve a certeza disso a primeira vez que ele a beijou.

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