Poemas declamados

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21 junho, 2009

««O estranho caso do homem que passou a ser rato ««


Doutor Manuel Jeremias vai com Deus, homem abastado,tanto em figura como na conta bancária, mas coitado pobre de pensamento, isto é o que diz a esposa, a Sra. D. Efigénia da Conceição, vai com Deus, claro está.
Com Deus e com o Diabo, arremata a vizinha do lado, a menina Augusta. Sempre que a coisa lhe corre mal. Nada lhe escapa no prédio, e a vida dos vizinhos da porta da frente, muito menos. O seu interesse deveras aguçado, pelo casal vem de longa data, mas nos últimos tempos, criou contornos anormais. Leva horas de funil em punho, encostado à parede da sala, ouvindo assim tudo o que se passa na casa ao lado. Tudo isto, desde que um dia acordou sobressaltada com uns guinchos aflitivos, que mais pareciam porquinhos da índia, não querem lá ver, o semítico do Dtº comprou porcos da índia , fez isto só para me moer a cabeça aposto, não descansou enquanto não arranjou uma desculpa para entrar na casa dos vizinhos, queria ver com os seus próprios olhos.
Conforme o pensou assim o fez, aproveitando a hora da sesta, agarrou no canário que tinha numa gaiola pendurada na varanda, e sorrateiramente meteu-o pela fresta da janela da cozinha dos vizinhos, depois correu aflita a tocar à campainha, quando a porta se abriu, em alvoroço deu conta do sucedido ao Dtº Manuel, que, com muito mau modo lá a deixou entrar em casa para apanhar o canário, demorou-se longamente pela casa, parecia que em vez de apanhar o pássaro, cada vez o enxotava mais, assim percorreu todo o apartamento, nem a despensa escapou, até que o dono da casa farto de tanta palhaçada pegou numa toalha que jogou para cima do pobre animal, e lá saiu a menina Augusta com o seu malfadado canário, saiu, pior do que entrou, tanto trabalho, tanta correria para nada, nem sinal do que poderia causar tantos guinchos fora do normal todas as manhãs à mesma hora.
Estava uma manhã primaveril daquelas em que não apetece ir trabalhar, e muito menos enfiar-se no auditório da faculdade de ciências onde iria dar uma conferência , sobre a ciência do esquecimento, ai vocês não sabiam, que até para nos esquecermos é preciso ciência, é esta a área pedagógica que o Dtº Manuel Jeremias abraçou vai para mais de vinte anos, ensina a nobre arte do esquecimento.
Este ano lectivo até nem lhe tem corrido nada mal, tem uma turma de vinte alunos todos eles aplicados na disciplina do esquecimento, mas estas conferências todas as quintas feiras da segunda semana de cada mês dão cabo dele, ter que enfrentar um auditório cheio de gente interessada em esquecer é obra, com estes pensamentos saiu de casa.
A viagem até à faculdade durou cerca de meia hora, pelo caminho lá foi apreciando as meninas de mini saia que se dirigiam para os seus empregos a passo apressado, aqui e ali uma ou outra despertava-lhe a atenção.
- hummm boa perna sim senhor, olha aquela o decote dela, belas mamas, sim aquela até que ia. Assim chegou à porta do auditório, mas coitado já não se lembrava de nada do que tinha visto pelo caminho, é a vantagem da sua profissão. Antes de entrar arrumou o carro no parque de estacionamento no lugar que lhe era reservado, mas, uma morena, alta e espadaúda despertou-lhe a atenção. É pá, parece um avião, olha aquele traseiro, saiu dali quase a correr, ainda teve tempo de se lembrar da D. Efigénia ai se ela tivesse aquelas pernas, mas coitada um metro e meio de gente, roliça ainda por cima sardenta, eh,… quando tinha vinte anos até que não era pior, mas agora desmazelou-se isso é que foi.
E lá foi o pobre do Dtº Manuel Jeremias dar a bendita conferencia, mas algo estava mal, todos notaram, não se conseguia concentrar, ele, um orador nato que cativava plateias inteiras quando começava a falar de como era importante saber esquecer.
- Ai aquele traseiro, e abanava a cabeça de um lado para o outro, articulava mais meia dúzia de palavras e lá vinha a morena de novo, ai se a tivesse nos meus braços, suores frios escorriam-lhe pelo rosto, começou a ver tudo a andar à roda e catrapumba, o bom do Dtº estatelou-se ao comprido no chão.
Quando acordou viu-se ladeado de uma multidão, mesmo por cima da sua cara um decote e… ai, desmaiou de novo, alguém tirou de uma maleta de médico uns sais ou coisa parecida que lhe deu a cheirar, ao abrir os olhos, balbuciou. Hi, hi, hi, hi, as pernas.
Ninguém lhe ouviu nem mais um pio enquanto esperaram pela ambulância, que o conduziu ao hospital, sempre a acompanha-lo foi a dona das pernas, nada mais nada menos que a morena do parque de estacionamento.
Depois de vários exames, os médicos não lhe encontraram doença que valesse a pena a sua permanência no hospital, mandaram-no para casa com a recomendação de que teria que evitar surpresas desagradáveis de qualquer ordem, fique descansada doutora balbuciou a D, Efigénia que entretanto tinha sido chamada para tomar conta do marido.
Já passaram mais de dois meses , o bom do Dtº nem parece o mesmo, todas as manhãs à mesma hora é vê-lo saltar da cama de um salto, e leva pelo menos cinco minutos aos saltos gritando, hi, hi, hi, hi, deixou a profissão de docente e agora é bibliotecário na biblioteca da cidade, leva o dia inteiro enfiado nos cantos escuros da biblioteca lento tudo e mais alguma coisa, decorou até o mestre cozinheiro de uma ponta a outra, de vez em quando pára frente a qualquer espelho e repete para si mesmo, hi, hi aquele traseiro.
Finalmente a menina Augusta conseguiu descobrir de onde vinham os estranhos guinchos o que ela não sabe é que desde o celebre dia em que desmaiou no auditório da faculdade o Dtº Manuel Jeremias vai com Deus descobriu que a importância da recordação é muito maior que a do esquecimento, daí ter passado a ser rato de biblioteca, foi a melhor maneira que encontrou para exercitar o cérebro e nunca mais se esquecer de nada. Descobriu a importância das coisas simples da vida e do doce sabor da recordação, o que ele não se importava nada de esquecer era a bisbilhoteira da vizinha do lado que agora meteu na cabeça que tem que descobrir porque é que o Dtº se ri a torto e a direito todas as manhãs assim que a esposa sai para comprar o pão.
Deixa estar, não perdes pela demora pensa com os seus botões a menina Augusta.

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