Poemas declamados

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05 junho, 2009

«« A gatinha Matilde ««


Matilde é uma gata de pelo brilhante com umas manchas pretas e bancas, ou serão brancas e pretas espalhadas ao longo do corpo, duas orelhinhas sempre em riste uma branca outra assim assim, os olhos esses são vivos e cristalinos de um preto azulado, parecem duas azeitonas luzidias, isto é o que ela pensa cada vez que se olha no espelho, sim, ela passa a vida frente ao espelho, é uma gata muito vaidosa, ainda se lembra a primeira vez que viu a sua imagem reflectida no espelho. A sua dona a Sra. Maria tinha acabado de trazer para casa um objecto redondo e luzidio com uma moldura enorme cor de laranja, com a ajuda de um martelo e de um prego pregou o dito objecto na casa de banho por cima do lavatório, Matilde curiosa como sempre, não esteve para meias medidas mal a dona virou costas pulou para cima do cesto da roupa suja e deste para o lavatório miauuuu ouviu-se por toda a casa, Matilde com os pelos todos em pé de um salto ficou agachada dentro do bidé, que é isto pensou de si para si, outro gato cá em casa era só o faltava, manteve-se imóvel por longo tempo, delineou um plano, assim que o outro gato saltar para o chão saltar-lhe-á em cima ele vai ver com quantos paus se faz uma canoa.
A Sra. Maria que se encontrava no jardim a regar as flores não deu por nada, pela hora do almoço estranhou a Matilde não se encontrar em cima do frigorífico como era seu costume sempre que ela preparava as refeições, de cima do frigorífico o campo de visão era mais alargado e a gatinha não perdia pitada das lides da dona.
- Matilde chamou a dona, como esta não aparecesse decidiu procurá-la pela casa, encontrou-a ainda dentro de bidé olhando para o espelho como quem caça ratos, a Sra. Maria deu uma sonora gargalhada, anda cá minha tola disse, tinha compreendido a ausência da gata na cozinha, anda, pegou-lhe ao colo aproximando-a do espelho, Matilde arrepiou-se mas ao colo da dona estava segura, iriam as duas tratar do intruso, vês disse a Sra. Maria és tu, isto é um espelho onde podemos ver a nossa imagem reflectida, estás a ver eu estou a teu lado, com cuidado aproximou o focinho da gata do espelho, é frio e está imóvel, Matilde miou de contentamento, afinal, era só um espelho onde ela se podia mirar sempre que lhe apetecesse.
A vida continuou tranquila para a Matilde passava longas horas ao sol na relva do jardim, outras vezes brincava com as borboletas e os gafanhotos, havia ainda as formigas, delirava com os carreiros das formigas, todas em fila umas atrás das outras, pareciam soldadinhos de chumbo na suas longas caminhadas.
Uma manhã algo de anormal se passou, a sua dona ainda estava deitada e o dia já ia longo, Matilde pela vigésima vez abeirou-se da cama onde a dona continuava imóvel, tocou-lhe ao de leve com a patinha no nariz como fazia sempre que queria água ou comer durante a noite, mas nada, miou, ronronou não adiantou a Sra. Maria não se mexia, encostou-se ás pernas da dona e adormeceu.
No dia seguinte continuava tudo igual, começava a doer-lhe o estômago com fome, a comida na tigela tinha acabado na noite anterior e a água também estava quase a acabar, Matilde deu grandes miados pela casa silenciosa, a sua dona continuava na cama, agora o seu corpo estava frio, gelado como pedra, a gatinha estava a ficar sem forças, deitou-se novamente junto à dona e ali ficou, ninguém sabe por quanto tempo, a casa era isolada do resto da aldeia e a Sra. Maria não era dada a muitas falas, ainda ninguém deu pela sua falta.
Hoje de manhã o carteiro Joaquim tem uma carta para entregar no Monte Novo, assim se chama o monte onde a Sra. Maria mora, como o caminho até à casa é longo demorou algum tempo a chegar, finalmente achou-se defronte à casa, estranho pensou, este silêncio, a Sra. Maria adora ouvir rádio e com o som bem alto, sentiu um calafrio alguma coisa estava mal, chamou, bateu na porta e nas janelas da casa e nada, silêncio absoluto, não esperou mais, procurou ali perto algo com que pudesse arrombar a porta, encontrou um tronco de considerável dimensão, com toda a sua força arremessou-o de encontro à porta, esta cedeu lentamente, o carteiro entrou pela casa dentro chamando pela Sra. Maria sem resposta, mas nisto pareceu-lhe ouvir um gemido, seguiu o som, entrou no quarto frio onde a humidade se tinha instalado, procurou ver o que se passava, a escuridão era quase total conseguiu dar com a janela que abriu num repente, o quadro que se mostrou a seus olhos deixou-o sem palavras, a Sra. Maria jazia morta sob a cama, mas, algo se mexeu para de seguida ficar imóvel, o bom do homem reconheceu a gatinha Matilde, magra, de olhar baço, nota-se cada osso do seu corpo, mas lá estava ela deitada sob a dona, jamais abandonaria a sua dona.
Passaram-se alguns dias desde a descoberta, ao final da tarde o carteiro Joaquim toma o caminho para o Monte novo, numa derradeira tentativa de conseguir apanhar a gatinha que se recusa deixar o local, continua magra, não por falta de comida porque o bondoso carteiro todos os dias lhe traz comida fresca e enche a tigela da água, não, Matilde pouco se alimenta, as saudades da sua dona são enormes, nada nem ninguém a arranca dali até a sua dona voltar.
Na aldeia todos sentem pena da gatinha mas nada podem fazer, o carteiro homem sempre atarefado a pouco e pouco foi-se esquecendo da Matilde até que um dia deixou de aparecer, Matilde aprendeu a sobreviver sozinha, caça ratos do campo e pequenas aves, até os gafanhotos e as borboletas antigos companheiros de brincadeiras servem de refeição, já passou tanto tempo, Matilde de vez em quando olha-se no ribeiro de água cristalina que passa perto da casa, sente uma enorme saudade da sua outra imagem reflectida no espelho, no tempo em que era amada e cuidada pela sua dona, sente tantas saudades da Sra. Maria, mia um miar de dor e revolta, não compreende porque a dona adormeceu e nunca mais acordou, e depois, levaram-na sabe-se lá para onde, a demora é tão grande, porque não regressa, ter-se-á esquecido dela, não impossível a sua dona iria voltar.
Perdida nestes pensamentos estava ela se olhando no ribeiro quando um barulho desconhecido lhe chamou a atenção, correu em direcção à rua do monte, assustou-se, junto à velha figueira tinha estacionado uma camioneta de mudanças e várias pessoas tiravam de lá de dentro pesados móveis e outros objectos que carregavam para dentro da casa, eram os novos moradores do Monte Novo, os olhos de Matilde não paravam de fixar uma menina de tranças loiras e olhos azuis que corria de um lado para o outro, sentiu um calorzinho percorrer-lhe o corpo, uma força desconhecida a empurrou para junto da menina, esta quando viu a gatinha ajoelhou-se e pegou-lhe ao colo, mamã, gritou, olha o que eu encontrei e correu a mostrar a gata aos pais, este olharam um para o outro e acenaram com a cabeça, um gato, vai ser o nosso gato, disseram, Matilde e Margarida, era este o nome da menina não mais se separaram, durante a noite Matilde subiu para a cama da menina e com cuidado anafou-se junto ás suas pernas, nesse mesmo instante olhou para o céu estrelado através da janela e pareceu-lhe ver por entre as estrelas a Sra. Maria que sorria, Matilde finalmente adormeceu descansada.