Poemas declamados

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14 outubro, 2010

«« Lenços de papel ««


Acordei e duas palavras martelaram-me o pensamento, não pediram para entrar, nem sequer bom dia me disseram, duas maganas em forma de letrinhas, umas mais redondinhas que as outras.
Hoje, uma quarta feira igual à maioria das quartas feiras, a primeira coisa que me lembrei foi…
De lenços de papel, sim, lenços de papel, uns mais macios que outros, com cores catitas, ou brancos, com perfume ou de papel reciclado, eu cá gosto dos brancos.
Estou a imaginar a sua cara, dois olhos inquisidores, os óculos na ponta do nariz, e a pergunta na ponta da língua - Porque raio se lembrou ela de lenços de papel, estará constipada, a chorar, ou apetece-lhe escrever e não tem onde, talvez o computador esteja avariado, ou então deu-lhe uma dor de barriga.
Nada disso, lenços de papel descartáveis, como descartável é quase tudo nesta vida, se perdermos dois minutos a pensar, como o descartável se tornou banal nos tempos que correm, chegamos à conclusão que até nós virámos descartáveis.
Trabalhamos há quase uma vida num escritório, numa fábrica, ou noutro sítio qualquer, começamos a estar usados, logo o novo gestor pensa, aquele está a mais, é tempo de ser substituído. Logo vem a tormenta, onde o descartável se ajusta à nossa imagem, procuramos um novo emprego, a primeira coisa que querem saber é
- Sabe trabalhar com as novas tecnologias, tem formação nisto e naquilo. Muito encolhidos sublinhamos que sempre fomos bons funcionários, nunca nos atrasamos, trabalhamos mesmo doentes, a família fica sempre em segundo plano, mas a dita formação não existe.
Não é bem assim, está você a pensar neste momento, fiz uma formação em cidadania, reaprendi inglês, trabalho com o Word o Excel o Office e sei lá mais o quê, até vi as minhas competências validadas nas Novas Oportunidades, ou então fiz um doutoramento em gestão, por isso estou apto, e encaixo-me no perfil pretendido. Não tenha ilusões, depois dos 35 anos neste país já se é velho, e velhos são descartáveis.
Os velhos empurram-se para os lares, porque os apartamentos são pequenos, e precisamos daquele quarto para fazer um escritório. É que passamos muitas horas na Internet e precisamos de privacidade, ou então passamos o dia todo fora de casa e não é justo o pai ou a mãe estarem sozinhos em casa durante esse tempo, no lar estão melhores, sempre têm com quem conversar, outros há que moram sozinhos, mas não saem de casa, o reumático já não deixa, por isso não olhando se são válidos ou não, lá os convencemos que no lar é que estão bem, mesmo que no final do mês metade do ordenado seja para pagar o infantário, as crianças estão melhores entre crianças, que importa se saem de casa a dormir, e quando regressam o cansaço seja tanto, que mal engolem o jantar. Velhos e crianças não se dão, por isso além de descartáveis os valores também se vão perdendo, estamos a criar uma sociedade estéril à coabitação. Cada macaco no seu galho.
Depois temos as relações cada vez mais descartáveis, e essas não escolhem idade, hoje curte-se, não se namora, coabita-se, mas cada um passa metade do mês para seu lado, nem sei como alguns ainda se conhecem, temos os casados, tão bem casados, mas dormem em quartos separados, os sozinhos e egoístas porque não se privam da sua liberdade, o que eles não sabem é que daqui por meia dúzia de anos também eles já são velhos, num país de velhos.
Somos tão descartáveis que nem nos apercebemos, o quanto o nosso modo de vida é descartável.
Por isso hoje, passei o dia a pensar em lenços de papel.

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