Poemas declamados

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08 abril, 2010

«« Recados ( I ) ««


Se eu te pedir, não me olhes é porque os dias morreram e as searas perderam o verde viçoso, o Alentejo ficou inundado de flores azuis, são o reflexo do céu num deserto de areia, a miragem entre o limite estonteante da imaginação.
Se eu te pedir não me queiras, vira-me as costas e volta-te num repente, toma-me nos braços, tal como a terra toma o sobreiro, e a sua sombra magistral alberga as almas em fuga pela planície em chama.
Se eu te pedir não me beijes, aí, olha-me apenas, bem no fundo dos meus olhos verás um rio, é o Guadiana nas tarde calmas de verão, repara nas estrelas cintilantes que se vislumbram no céu rubro, pelo sol de Agosto, nesse instante meu amor, não digas nada, deixa que encoste a cabeça no teu ombro, à espera que seja beijada.
Se eu te disser estou cansada, é porque não dormi na noite anterior, abri a janela do quarto e contei as estrelas, pela via láctea vislumbrei o teu vulto, olhei, reparei então que me acenavas, num gesto desmedido, lançavas-me beijos, olhei de novo, eram estrelas cadentes, que traçavam o céu por cima da cidade, na sua cauda traziam os teus sonhos, dormias ali ao lado.
Se eu te disser que te amo, quero ser levada a sério, igual ao trigo loiro que em tempos cobriu o campo, quero que sintas ao tomares-me a mão, as raízes entranhadas da azinheira onde as cotovias fazem os ninhos, ao escutares o seu trinado escutas a minha voz num fado, bairrista e dolente onde te cantarei em versos estridentes, meu amor é para sempre.

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