Poemas declamados

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15 janeiro, 2010

«« Noite ««


A noite é madrasta, agora sei
É tão fresca e bela, de seguida
É um campo aberto sem lei
Por onde os delírios encaminhei
A noite é madrasta, ressentida

Conduz-me ao limite
Da existência, quem sou eu
Sou mendigo, sou pedinte
Sou filha do nada, com requinte
De rainha fechada em mausoléu

A noite é a minha confidente
Com ela converso horas a fio

Responde noite, quem sou eu
De onde me saem os versos, enviesados
Porquê os meus medos viram apogeu
Na roda que o trigo já moeu
Porque escrevo versos, como dardos

Porque a terra me sai pelas pupilas
Dilatadas pelo sol escaldante
As palavras são as minhas fantasias
São meus filhos e agonias
Porque o Alentejo é meu amante

Responde noite, quem sou eu
Sinto-me um nada em tudo
Caminho como quem perdeu
Outras vezes como quem venceu
Uma batalha, num velho mundo

Ah… noite estás surda!
Ou estou louca, eu
Falo, falo e tu muda
Agonizo, o dia que me acuda
Acabei de escrever o que ninguém leu

Noite assim te foste
O dia já raiou em flor
Talvez o sol goste
Dos meus versos e me mostre
Que és madrasta, sim, mas abafas a minha dor

1 comentário:

Cria disse...

Expressão perfeita ! Beijos.