09 janeiro, 2009

««Parda utopia««


Queria atingir a perfeição
Pobre demência, parda utopia
Tantas réstias de ilusão
Aliadas à fantasia

Quem diria…
A uma criança revolta, que mulher adulta
Continuaria a buscar palavras de encantar
Para poder rimar versos de causa torta

Será que depois de morta
A perfeição atingi

Nessa altura pouco importa
Sabendo que sempre vivi

Procurando a perfeição
Em todas as coisas que vi
Em todos, a quantos sorri


Mas nunca no que escrevi
Nem naquilo que senti.
Parda utopia de mim.

08 janeiro, 2009

««Minha escrita turbulenta««



Em tempos consegui escrever
Versos de amor cintilantes
De uma beleza tal
Tal qual puro cristal
Esculpido por eternos amantes

Não, por mim não chores
Se perdi a escrita vistosa
Tal qual a bela rosa
Tudo tem seu tempo de vida

Ficou mais diluída
Minha escrita mentirosa
Restou uma rima fingida
Que inverte poemas em prosa

Quem sabe é mais corajosa
Esta escrita turbulenta
Que conta de forma airosa
As dores que minha alma enfrenta

Quando meu corpo não aguenta
Meus sentidos se esvaziam
Minhas escrita é um mural
Lavado com água benta
De uma pia baptismal

E então, passo a escrever
Sobre o bem, e sobre o mal
De igual para igual
Deixando para trás, minha escrita angelical

««A saudade bateu««


Madrugada alta
Dou voltas e voltas
Conto carneirinhos
Toda a espécie de bichinhos
Com calma, encaro a derrota

A espertina venceu
Uma grande saudade bateu
Dos tempos de criança
De menina do liceu

Na cabeça duas tranças
No rosto um sorriso largo
No coração a esperança
De quem não conhece o sabor amargo

Dos sonhos perdidos
Dos tempos esquecidos
De amores e desamores
De certos odores
Que lembram a morte

A morte tão fria, tão nua e crua
Que um dia chega, entra sem bater
E nos chama sua, doa a quem doer

07 janeiro, 2009

««Mar dos Sentidos««


Mar dos sentidos
Onde minha alma vagueia
Por entre gemidos
Sussurros contidos
Palavras que o vento semeia

Como quem colhe e a seguir presenteia
Assim é matéria, o nosso amor

Umas vezes surdo, outras perde o juízo
Umas outras teimoso, mas nunca vencido

Neste mar deslumbrante
Ergue-se tal força imensa
Que acalma e trás alento
Tal qual areias flutuantes
Perdidas num mar de tormentos

Eternos amantes
Do antes e do depois
Dois espíritos errantes
Envoltos em brancos lençóis
De tendas Mongóis

Vencidos, estafados, vibrantes
Há -de haver, um só instante
Meu amor,
Em que adormecemos os dois.

««Ramo com fita escarlate««



De manhã, por entre azinheiras
Olho o tempo, olho o espaço
Recordo uma vida inteira
Uma flor cai no meu regaço.

Ato essa flor com um laço
Uma fita de cetim escarlate
Junto-lhe margaridas, papoilas, rosmaninho
Um papel em tom de chocolate
E ofereço-te este raminho

Para que sintas seu cheiro
Perfumo-o com flores silvestres
Umas hastes do velho sobreiro
E umas gotas de amoras silvestres

Neste ramo campestre
Ponho toda a minha arte
Parece pintura rupestre
Meu ramo atado com fita escarlate.

05 janeiro, 2009

«« No meu leito viajo sem fim««


Semicerro o olhar
Para o meu pensamento, poder disparar
Caminho por terras distantes
Por serras e montes, bem perto do mar

Por cidades a fervilhar
De luz, de vida tão extensa
Umas são tão bonitas
Outras, não lhe encontro parecenças

Caminho por terras de crenças
Daquelas que matam a eito
Fechadas à liberdade
Viradas pró preconceito

Deitada no meu leito
Viajo de lado em lado
Quando volto trago no peito
Um coração quebrado em bocados

Metade um sorriso alargado
Pelo que vi em qualquer lado
Num país civilizado

Um pranto dobrado
Na outra metade

Por tanta morte, tanta fome
Tanto ser abandonado
Em nome de um Deus
Que deve estar tão revoltado

««Triste amor««


Meu triste amor
A minha dor
O meu clamor
Amor triste
O rir perdes-te
Sabes sorrir
Teus ais escondes-te
Porque nasces-te
Perguntas a Deus
Porque não te deste
Aos braços meus
Lamentos teus
Quero tomar
O teu abraço
Quero abraçar
No teu sonho
Quero entrar
Contigo quero
Sempre caminhar
Quero alcançar
Amor eterno
No teu olhar
Quero-me afogar
As tuas lágrimas
Quero secar
Os teus lábios
Para sempre beijar

04 janeiro, 2009

«« Terra de ninguém««


Meu pensamento voa
Dispara qual flecha aguçada
Encrava a ponta embriagada
Bem no centro desta terra, esvaziada

Voa sempre mais além
Por montes por vales
Por terra de ninguém
Quando regressa cansado
Sente-se tão só e aquém

Aquém das ilusões
Das dores, das aflições
Dessas gentes moribundas
Esquecidas, perdidas, viúvas

Minha pena e alma juntas
Não conseguem exprimir
O que vêem na planície
Não conseguem mais tingir

Soltam um grito aflitivo
De quem queria conseguir
Que alguém lhe desse ouvido

Que um dia nesta terra
Se calasse o gemido,
De um chão tão ressequido

03 janeiro, 2009

««Pele com pele««


Pele com pele
Doce desejo
Sabor a mel
Esse teu beijo
Sede ou pecado
No beijo dado
Sabor abafado
Num intrincado
Odor a desejo
Num beijo roubado
É tão arriscado
Beijar assim
Penso abismada
Meu doce amado
Que será de mim

01 janeiro, 2009

««Olho««



Olho a tremer, sem nada fazer
Miro o sul em redor
Um mal maior, em ré menor
Terras cobertas de pó
Entranhas de todos nós
Miro o seu desfalecer

Olho o entardecer
O entristecer
De quem parece viver

Olho com olhos de ver
Tudo à minha volta
A vida torta, o campo agreste
A seara que não floresce
O montado que envelhece
As gentes que não merecem

Olho a chorar
Alentejo a mendigar
A planície a soluçar
Um chaparro a gatinhar
E um melro a cantarolar

Uma canção triste de embalar
Escrita em versos de encantar
Como quem nos quer lembrar
Outros tempos outras eras
Os campos verdes, outras quimeras
Campos de esperança na primavera

Canta melro , canta , canta
Canta faz-me sonhar
Que a planície é um altar
Coberta de rosas bravas
De uma brancura tão alva
Que se estende até ao mar