06 novembro, 2009

«« Silêncio ««


Escuta a voz do silêncio, o frio intenso
Te conduzirá a mim, estática estou
Presa na placenta que o tempo gerou
Cordão umbilical entrelaçado no propenso

Ser de ninguém, tão aquém do meu eu
Serei por ventura um desaguar de ilusões
Onde se afogam as frustrações
E as minhas, a cinza as esvaiu

Nos confins da era do faz de conta
Fui arrastada, fui ensaimada, e até o medo
Se afastou do meu caminho, tropeçou no rochedo
Chamado vida aquém e tonta

Vestida de ilusão, mas na vertical
A mesma verticalidade que me mantêm suspensa
No silêncio de quem sabe que é a lagoa imensa
Onde se afogam as rotinas diárias, afinal

A lagoa é esverdeada no fundo segredam emoções
Recheadas de sonhos coloridos
De um dia, por um só dia nada seja fingido
E o verde das águas se dilua em outras cores.

Escuta a voz do silêncio ele te falará de mim

«« Vazio ««


O vazio penetra pelas artérias
Revitaliza a angustia em chaga
Que me toma como um pedaço de nada
Pergunto, porque não as portas abertas

Por onde deslizassem as folhas caídas
Restos de uma primavera adulterada
Pelo verão que amanheceu na madrugada
Num tempo já esquecido, perdi as asas

Que me incentivavam a voar… força de ser
De ouvir e de gritar, sou força viva
Sou uma sombra esgaça, acredito ter

Um caminho a percorrer, vida cativa
Por razão desconhecida, sobreviver
Mas… o vazio faz a derradeira tentativa

05 novembro, 2009

«« Amar ««


Amar


No planalto onde vagueiam os sentidos
Por vezes a neblina chorosa me envolve
Como se fosse um manto que tudo encobre
Mesmo assim deixo que me guiem os anelos

Que me elevam a ti, e ao sabor dos teus lábios
No planalto onde perdida sou pobre
Transmudo o verbo que se inibe, mas descobre
Que o dia é inútil se por breves momentos

Cair na tentação de te esquecer, enfim
Faço parte de ti e tu és a minha costela
Somos átomo de uma galáxia longínqua, sim

Até a discórdia é uma enorme janela
Onde se avista o planalto e dançamos ao luar
Envoltos no verbo que é amar… segura cidadela.

04 novembro, 2009

«« Outono ««


Porquê correr ao encontro das horas
É tão bom andar devagar, ao sabor do vento
Que varre a planície no momento
Sou filha da terra, com uma costela nas águas

Que caem nas tardes de Outono, frias e calmas
Renova-se a vida, esquece-se o lamento
Que o chão gretado pelo sol ciumento
Grita no pingo do verão, em lágrimas

Que se assemelham a espigas doiradas
Outras vezes ás papoilas encarnadas
as nuvens altas parecem longas velas

Planando no céu azulado, aliadas
Que tenho, companhia do meu sossego
Na planície se renovam as almas

02 novembro, 2009

«« Solidão ««


Porque quebras o silêncio da madrugada
Avivando a memória meio esquecida
Porque queres fazer parte da minha vida
Porque teimas em te cruzar na mesma estrada

Que percorro presa no tempo, e tão cansada
Esta carga dobra-me as costas, entorpecida
Vai-te leva-a contigo deixa-me só, esquecida
Mais vale só, curioso ditado recorda o nada

O tal nada que me visita na noite morta
A solidão envolta na lua gélida
Porque teima em abrir a minha porta

Queria estar só, sim, eu e a porta de saída
Por onde afugentasse o desalento
De mais uma noite mal dormida

31 outubro, 2009

«« Agastada ««


Olhos que olham agastados, no momento:
Em que o dia se ri para a noite fria.
São os meus. Olhando o nada, quem diria!
Que estou estática e tísica no entroncamento...

De uma era descabida. Digam-me que é feito,
do alento, germinava na seiva que corria...
A fé e contra fé das gentes simples, ouviria...
Eu…um grilo a cantar, no seu canto, contrafeito!

Perdida a meio do caminho... O nada e o tudo.
Apetece-me gritar ... não sejas surdo!
Ouve o grilo que canta, é a voz do mundo...

Nim choro de criança. Como é absurdo!
E eu lambuzo-me agastada e demente.
Não vejo: a noite não é noite, caí no fundo!

«« Poema Síntipo ««

Escrever

Por tudo e por nada se mistura
A emoção ajustada à ternura
De seguida uma pitada de paixão
Por vezes tremenda confusão

Atiram-se as pedras pela ladeira

Rolam, rolam em turbilhão
Umas são parcas, outras admiração
Existem aquelas que fedem a censura
E depois, uma pitada de sal, formosura

A tudo isto chamo a arte de escrever.

30 outubro, 2009

«« Demente ««


Se eu pensar no que tento esquecer
O Inverno será eterno… envergonhada
A minha aura recusa percorrer a estrada
Que conduz ao sol poente… sou mulher

Tento contornar os meus medos, sobreviver
Ah! Será que um dia velhinha e cansada
Vou abrir os olhos, reparar que estou de abalada
E nessa hora, será que me sinto desfalecer

Não… vou erguer os braços ao sol nascente
Digo-lhe adeus num virar de costas tresloucado
Pensarei com os meus botões, estás na minha frente

Mas, atrevo-me a ser eu, assumo o meu fado
Sim… numa ânsia rígida por vezes demente
Isso permite que te olhe sorte… sem ter medo agastado

29 outubro, 2009

«« Seria mais feliz ««


Se as palavras loucas me extasiassem
Seria mais feliz? e vivia sem ousar…
Pensar desiludida, outras vezes embarcar
Num barco em alto mar, quem sabe aluíssem…

Os medos e os orgulhos que ficam aquém
De quem na vida não enxerga e tenta abafar
O cru e o frio, a inocência de abusar
O mundo é colorido! palavras sem além…

Se me perdesse em palavras moucas
Não era eu, era poeta, ou coisa pouca
Prefiro as chagas que perduram abertas

Pelo realismo, irrequieto olhar que se importa
Ou tenta perscrutar, o escuro que habita
Por aqui, por ali… é a vida que o transporta

«« Aurora ««



Se eu sair por aí ao encontro de um tudo
Olha-me de frente, verás que procuro
Desviar os tentáculos que no escuro
Teimam em nos mostrar o lado bicudo

Da vida, nesse instante verás que expludo
Como quem esbarra num insípido muro
Para de seguida me erguer e olhar o futuro
Vislumbrando ao longe o meu mais que tudo

Numa clareira de esperança, nasce
A certeza que contigo já trilhei o caminho
Que nos conduz ao dia que amanhece

Um dia dormirás tranquilo, a certeza floresce
Somos uno no tempo longínquo, sim
Agarra a minha força, deixa que te enlace