31 outubro, 2009

«« Agastada ««


Olhos que olham agastados, no momento:
Em que o dia se ri para a noite fria.
São os meus. Olhando o nada, quem diria!
Que estou estática e tísica no entroncamento...

De uma era descabida. Digam-me que é feito,
do alento, germinava na seiva que corria...
A fé e contra fé das gentes simples, ouviria...
Eu…um grilo a cantar, no seu canto, contrafeito!

Perdida a meio do caminho... O nada e o tudo.
Apetece-me gritar ... não sejas surdo!
Ouve o grilo que canta, é a voz do mundo...

Nim choro de criança. Como é absurdo!
E eu lambuzo-me agastada e demente.
Não vejo: a noite não é noite, caí no fundo!

«« Poema Síntipo ««

Escrever

Por tudo e por nada se mistura
A emoção ajustada à ternura
De seguida uma pitada de paixão
Por vezes tremenda confusão

Atiram-se as pedras pela ladeira

Rolam, rolam em turbilhão
Umas são parcas, outras admiração
Existem aquelas que fedem a censura
E depois, uma pitada de sal, formosura

A tudo isto chamo a arte de escrever.

30 outubro, 2009

«« Demente ««


Se eu pensar no que tento esquecer
O Inverno será eterno… envergonhada
A minha aura recusa percorrer a estrada
Que conduz ao sol poente… sou mulher

Tento contornar os meus medos, sobreviver
Ah! Será que um dia velhinha e cansada
Vou abrir os olhos, reparar que estou de abalada
E nessa hora, será que me sinto desfalecer

Não… vou erguer os braços ao sol nascente
Digo-lhe adeus num virar de costas tresloucado
Pensarei com os meus botões, estás na minha frente

Mas, atrevo-me a ser eu, assumo o meu fado
Sim… numa ânsia rígida por vezes demente
Isso permite que te olhe sorte… sem ter medo agastado

29 outubro, 2009

«« Seria mais feliz ««


Se as palavras loucas me extasiassem
Seria mais feliz? e vivia sem ousar…
Pensar desiludida, outras vezes embarcar
Num barco em alto mar, quem sabe aluíssem…

Os medos e os orgulhos que ficam aquém
De quem na vida não enxerga e tenta abafar
O cru e o frio, a inocência de abusar
O mundo é colorido! palavras sem além…

Se me perdesse em palavras moucas
Não era eu, era poeta, ou coisa pouca
Prefiro as chagas que perduram abertas

Pelo realismo, irrequieto olhar que se importa
Ou tenta perscrutar, o escuro que habita
Por aqui, por ali… é a vida que o transporta

«« Aurora ««



Se eu sair por aí ao encontro de um tudo
Olha-me de frente, verás que procuro
Desviar os tentáculos que no escuro
Teimam em nos mostrar o lado bicudo

Da vida, nesse instante verás que expludo
Como quem esbarra num insípido muro
Para de seguida me erguer e olhar o futuro
Vislumbrando ao longe o meu mais que tudo

Numa clareira de esperança, nasce
A certeza que contigo já trilhei o caminho
Que nos conduz ao dia que amanhece

Um dia dormirás tranquilo, a certeza floresce
Somos uno no tempo longínquo, sim
Agarra a minha força, deixa que te enlace

25 outubro, 2009

«« Lavagem ««


Porque me sinto envolta em neblina
Por mais que tente não avisto a clareira
Ando perdida numa floresta de cartolina
Que cheira a mofo e a bolas de naftalina

Bolas que teimam em subir a colina
Da ilusão desmedida, será ratoeira
Que os sentidos me pregam, será cegueira
De quem não enxerga o virar da esquina

Porque me sinto o espremedor de arame
Por onde se esvai a água da lavagem
Das rotinas que se impõe por mais que brame

Queria ser a fresca aragem
Que penetra pela janela
Mas não, sou espremedor de arame, a lavagem

«« Suspensa ««


No fundo de um nada estão as amarras
Que suspendem a imaginação remota
O caminho é uma seta sem ponta torta
Que nos impede de abrirmos as asas

No fundo de um poço estão as lágrimas
Com que lavamos a alma estafada
Por vezes ficam suspensas em quase nada
Quando deslizam, caem em ponta de adagas

Frias e cruéis afiadas nos momentos insípidos
Em que nos sentimos uma coisa incerta
Nesses instantes baixamos os braços

Como quem atraca numa ilha deserta
Sabendo nunca encontrar o local seguro
Ou a mão que nos traga átona na hora certa

24 outubro, 2009

«« O teu olhar ««


Deixa que durma junto ao teu peito
Como quem sabe que será a ultima
Vez, em que a vida solta fios de espuma
Colorida, anunciando o amor eleito

Por essa hora meu amor, o sol contrafeito
Adormece embalado na bruma
Que envolve a noite como uma pluma
Esvoaçante em ondulado perfeito

Se me embalares nesse ondular
Dormirei descansada, na noite fria
Porque a lua teimará em nos aconchegar

Nos braços do sol que acabou por ficar
Reflectido nos raios de luar cintilante
Onde me revejo, o teu aveludado olhar

«« Poema síntipo .... Insónia frustrada ««


Insónia frustrada.

Olho a lua envergonhada
Envolta na sua aura amarelada
Procuro na sombra reflectida
O significado da angustia desmedida

É o reflexo insípido do Outono

Sai-me a resposta sem peso ou medida
Como se tudo fosse uma aguarela colorida
E a lua lá está, parece rir de tudo e de nada
Acena-me num bocejo orvalhado pelo frio da madrugada

A lua não sabe, ajudou-me a vencer uma insónia frustrada.

23 outubro, 2009

«« Passaporte ««


Se eu me aninhar por um momento
Nos braços da morte, será que ela é quente
Será que me aquece do frio invernal
Ou será apenas um seguir em frente
Transladar de ilusões, em amor carnal
Se eu me aninhar por um momento
Nos braços da vida, será que é gélida
Será que destoa do mundo irreal
Por onde as duvidas circulam em queda
Livre de tudo o que é consensual
A morte e a vida, a mesma moeda
Da alma que nasce sabendo que morre
Agora digam-me vale a pena a guerra
Que se tenta travar entre o bem e o mal

Se eu me aninhar esquecida do norte
Que o universo traçou um dia
Ai de mim perdi o passaporte
Para viajar pela vida sem grande agonia.