11 julho, 2010

«« V Alarido ( O peso das minhas duvidas) ««


Pesa-me uma saudade em alarido
Curvo os ombros. Tão grande peso
De uma ausência, um eco descabido
Mas sempre, sempre coeso
Meu Deus que peso cândido
Na sua inocência revela
Que a noite é matreira
É espada de bandido
É mar sem caravela.
Num olhar alongado
Tento vislumbrar uma estrela
Pedirei que ela te dê um recado

Pedirei que te fale do meu peso
Rogarei que te fale com cautela
Que não te acorde sem ouvires, este eco abafado

10 julho, 2010

«« Eco distinto ««


Foquei um ponto sucinto
Meus olhos juram que viram
O teu rosto no labirinto
Onde duas lágrimas caíram

Caíram num breve silêncio
Que o meu coração me deu
No segundo em que doeu
O meu quarto tão vazio
Se dizer não é porque minto
Os meus ais já não expiram
Tornaram-se eco distinto
Nem nas lágrimas se esvaíram.

08 julho, 2010

«« Ápice ««


Fecho os olhos por um segundo
No negro que se achega, adivinho
Teu rosto, ao de leve um carinho
Teu sorriso franco e profundo

Breve ilusão, musica de fundo
Uma lamparina, um travo a vinho
Ápice claro cheira a azevinho
Luminária que reflecte por um segundo

Uma tez morena, brilho no olhar
Ligeira ruga no canto da boca
Passo ligeiro ao caminhar

Aos poucos eu vou voltando
A retina de novo foca
Aquele melro que vai voando.

«« Rio e choro do mundo ««


Não indaguem porque rio
Nos dias em que almejo chorar
Até eu queria alcançar
Porque rio do vazio

Se sou sã ou demente
Como querem que responda
Se o mundo é esfera, redonda
Tanta razão, tão diferente

Não queiram saber porque choro
Num riso que deita abaixo
Um gesto mudo mas prefixo
O meu choro é riso sonoro

Não me olhem desse jeito
Nem me tentem entender
Sei que sou mó de moer
Sou pedra de rio sem leito

Perdi-me na enxurrada
Do choro e do riso a eito
Fujo do preconceito
A mente é a minha enxada

Talvez não cave tão fundo
Como eu acho que devia
Mas ao rir e chorar do dia
Do dia que nasce imundo

Cavo, cavo até mais não
Abro buracos perfeitos
Enterro lá os defeitos
Deste mundo em trambolhão

E assim rio se quero chorar
E choro se me apetece rir
É minha mente a aludir
Fazendo a esfera saltar
Fazendo o mundo girar
Ficar um pouco melhor
Com a mente colho a dor
Colho também o ódio
Deito abaixo do pódio
Tudo o que é retrógrado

Num buraco bem fundo
Enterro os devaneios
Os risos são finos lábios
Que querem beijar o mundo
Sonham que secam as lágrimas
Deste mundo, por um segundo.

07 julho, 2010

«« O pastor ««


Corre apressado ao encontro de si
Entra na dança das sete saias
Ligeira cadencia sempre que ensaia
Um belo sorriso que não tem fim

Olha o dia é de manhãzinha
Já raiou o sol lá no montado
Mas onde está o raio do cajado
Ai Jesus que sorte a minha

Mais um volta e abre a porta
Como quem quer sorver a vida
Corre o cão já sabe que a lida
Os espera pelos campos fora

Anda Piloto deixa a preguiça
O rebanho está cheio de fome
Porque será que vida de pobre
Não passa de pão com linguiça

Anda piloto vamos á vida
Que o dia corre e não espera
A noite veste-se de roupa negra
Anda piloto não há saída

Entra na dança das sete saias
Homem do campo, olhar profundo
Agra ardente, tal vagabundo
Pastor, poeta de maresias

04 julho, 2010

«« Bom Dia em video ««

«« Bom dia ««


Apetece-me partir partículas ao meio
Um grão de areia, um pigmento de cor
Uma ilusão que se alberga no seio
Uma rosa brava no seu esplendor

Apetece-me partir partículas ao meio
Dividi-las em moléculas de esperança
Espalhá-las no ar feito lembranças
Falar às gentes é o meu anseio

Que o dia traga alegria
Um beijo e um sorriso alargado
Um olhar sem encontro marcado
Que o dia traga magia

No olhar pasmado da criança que salta
No eixo da vida, passo apressado
No canto da boca, cansado
Do velho que sente a falta

Das corridas de outrora
Uma vida cheia
Um arremesso da sorte, tão fina teia
Um cair de ombros sem maré cheia


Que o dia traga alegria
Um calor, um aconchego
Em cada partícula te entrego
Fragmentos de poesia.

02 julho, 2010

Morro em cada ideia dispersa, de seguida encontro o eixo que me eleva pelo ar, assim dou asas à vida e aos poucos desnudo-me de mim..

«« Oásis ««


Sempre que os dias ficam mais compridos
Os meus olhos teimam em ver o incerto
Tudo fica árido como um deserto
Nem uma gota de água me chega aos lábios

As ideias são emaranhadas de tentáculos
Selváticos que me impelem ao enxerto
De mil ou de uma vontade, campo aberto
Terra gretada pela salmoura dos choros

E tu que me olhas, e não me conheces
Ficas impávido nesta nostalgia pobre
Mas consegues pintar-me de todas as cores

Olhas-me num olhar resguardado que encobre
O medo mordaz, mas que é tão simples
Aos meus olhos és, um oásis que se descobre.

01 julho, 2010

«« O tempo é definição ««





O tempo urge em cada fim de tarde
Estreita os nossos anseios
Num ritmo agonizante
Tão decadentes são os nossos medos
Porque o receio me parece impostor
Há nele um não sei quê que me impele
A acoitar-me na noite que espreita
Numa vigia que me protege
De ti e de mim, numa clausura que é feita

Do imaginário infernal…

Meu amor
No recolhimento em que reinam
As tuas e as minhas paixões
Será que existem motivos para contradições
Será que a minha e a tua alma são da mesma massa
Será que o teu medo me vê nua
Será que temos as mesmas aflições

Não estará a coragem na união

Quem sabe não estará na junção
Do tempo que urge à noitinha
Sempre que cai uma chuva miudinha
Que geme na perfeita fusão
Com a terra ressequida
Como eu queria ter a mesma guarida
Que a agua encontra no chão
E o tempo, é definição

Ou o olhamos de frente, e saltamos mais que ele
Ou somos aniquilados, e aí é tempo de nada
Por mais que se martele
Jamais ganhará forma a calçada