12 junho, 2010

«« Laço ««


Uma cercadura me envolve
Mil anéis me mantém refém
Uma clausura me consome
Me inibe a vontade de ir mais além

Assim é a sombra por onde passo
Assim é o medo que me sustêm
Assim são meus dias e noites também
O desconhecido ocupa muito espaço
Talvez me falte desembaraço
Ou quem sabe seja cansaço
Precisava de uma mola de aço
Que desatasse este meu laço.

«« Já saí ««


Por mais que diga ou pense
Não sei onde é o limite
O ponto exacto antes do cume

Onde começo eu e terminas tu

Por mais que diga ou pense
Não me reconheço
Nem te conheço
Somos dois desconhecidos
Numa luta constante, egocentrismo
Caminhos paralelos, sem se cruzarem
Já sei que vais dizer

Afinal quem és

Eu direi, sou nada
E o nada nunca ocupa espaço
Falta-lhe desembaraço
Para ser
E eu vou perguntar

Porque voltas

Vais olhar para mim
Como se não me visses
Num encolher de ombros
É o hábito

Mas eu quero ser mais
Muito mais
Quero ser o sol que te aquece no Inverno
Quero ser a água que te mata a sede
O vinho em que te deleitas
Quero ser o teu doce pela manhã

Viras-me as costas
Num gesto a medo

Quando te voltares eu já saí.
O mundo lá fora não espera
E eu vou caminhar ao encontro da lua.

09 junho, 2010

«« Sonho perfeito ««


No tempo em que as rosas florescem
Meu amor, sentirei o calor do teu peito
Quero me aninhar em contra luz, com jeito
Enlaçar tuas mãos, quando as rosas florescem

Quero adormecer contigo ir mais alem
Pela ladeira em que o sonho é perfeito
E assim nessa mansidão sem defeito
Aos meus olhos as rosas se esvaem

Uma a uma dando espaço à certeza
De que o amanhã será hino duradoiro
Meu amor, sei, sei com tão grande firmeza

Que para o ano, numa espiga de oiro
Encontrarei a mesma candura e beleza
De uma rosa branca, num trigal loiro.

Júlia Soares ( pseudónimo )

08 junho, 2010

«« Cala-te ««


Como querem que me cale
Se calada falo mais
Já sei,

Faço barcos de papel
Dentro deles acomodo
O que falo não falando
Deito-os do cimo do monte
Onde um riacho desperta
Segredando ás aguas salobras
Vão, mas não digam de que lado
O vento é mais certeiro
Deixem, quem pensa não pensando
Virar tronco oco e matreiro

Como querem que me cale
Se calada digo tudo
Pego num carvão apagado
E besunto a indiferença
Escrevo, não pensem que mudo
Falo igual a criança

No meu barco de papel
Embarcam gritos sem voz
Em cada grito calado
Se esconde uma seta veloz

«« I Morte ( O peso das minhas duvidas )««


Pesa-me o que não sei
Com a força intempestiva dos vendavais
Que tudo arrasta na sua fúria

Pesa-me o vazio
Pesa-me o abandono
Pesa-me no peito a nortada
Num tempo húmido e doentio
Caíram folhas novas, em pleno Outono
Subiram as águas na fria madrugada

Não, não as águas que correm no rio
As águas estagnadas, em lágrimas dobradas
No quarto húmido, tão velho, tão velho
Que encerra o mistério
Das coisas, sérias e recatadas
Embrulhadas em papel vermelho

Pesa-me o que não sei, sei lá
Talvez me olhem de lado
Talvez me vejam quarto fechado
Quem sabem um velho dirá
Ao ler o que nem eu sei, será o meu fado
E o velho dirá, é um verso desolado

Olharei o seu riso amarelo
Rir-me-ei virando as costas
Como me queres entender, se escrevo mas já estou morta.

06 junho, 2010

«« Cinzas ««


Ó cinzas que caiem hirtas,
Porque caem afinal
Não pensem que ficam extintas
Só porque querem, está mal

Submergem as palavras, submergem
Numa euforia, tristonha
E as almas deslizam no trem
De uma ideia enfadonha

Gela em cada um a tristeza
Sem dar conta, o pano cai
Meu deus rezam sem destreza
E deus dorme, como os demais

E num abismo sem fundo
Caem sempre aos trambolhões
Deitam as mãos à cabeça, num grito mudo
Olhem, olhem, como somos campeões

Por adiante, se persegue
Sem tino ou rumo certo
Afinal é pequenino o sinónimo que o segue
Aperto, talvez destino, nublado e encoberto

E eu aqui sem ver nada,
Nada que valha a pena
Ó cinzas que estão tresmalhadas
Por uma qualquer vintena

Se me lerem, e não souberem
O que escrevo afinal,
Quem sabe me compreendem
Se escrever sobre o banal

Mas disso não sou capaz, gosto de escrever sob cinzas
Imagino-me num vulcão, um rio de lava vermelha.

«« Ideia ««


Esvoaça um balão brilhante
Uma volta e logo se escapa
Esvoaça, e em cada nova etapa
Um declive lhe parece galante

Esvoaça, num rodopio alucinante
Para logo se enlaçar no pavio
Roda, roda, causando arrepio
Por fim, achando que é o bastante

Se aninha por um breve instante
Nas asas de um passarinho
Infeliz, caiu do seu ninho
E o doido do balão cintilante

Lá continua no esvoaçar constante
Não repara no espinho da rosa
Que o atrai, tão bela e formosa
Se arrebenta o balão extravagante

No meu peito o coração palpitante
Acabou de saltar de emoção
Meu amor quer tu queiras ou não
Uma ideia é um balão deslumbrante.

03 junho, 2010

«« Penas ««


Deslizo como quem corre
Pelo impossível
Em cada segundo de vida
Um deslize, aquém saída

Por entre caminhos rudes
No impossível me enleio
Ora aqui ora acolá
Um enleio ao Deus dará

No deslize quase sufoco
Falta de ar agonia
Num repente olho de frente
Poço aberto água corrente

Deslizo como quem morre
De morrer perdi a conta
No nada que enche o rio
Minha mortalha, meu frio

Enregelada por dentro
Tapo o peito e não quero
Não quero que tenhas penas
Penas são grilhões, algemas

Que me escorregam dos braços
Sacodem a alma e moem
Penas são leves pedaços
Que aos teus olhos me consomem

«« Ao longe ««


Ao longe
A encruzilhada
A meio caminho
Uma tábua rasa
Num mês de Junho
A aurora
Um pássaro ferido
Sem asa

Ao longe
O meu pensamento
Desliza em degredo
Apetece-me gritar
É campo aberto
Sem medo, sem medo
A terra é vermelha
É barro por moldar

Ao longe
Em agonia
O calor mata a erva
Com o sol do meio dia
Meu amor, é terra, é terra
Num país a nascente
Tanta gente, tanta gente
Ai, Alentejo és suor
Do rosto, virado de frente
Do sonho num gemido
Pedaço de vida
Que acende

Ao longe a esperança
Embrulhada em estopa
Deambula pelas pedras
Sangue, negro, seiva viva
Encontram-se na encruzilhada
A meio caminho a planície
Agita os braços cansada
Grita, oiçam os grilos já cantam

Em tábua rasa me deito
Para logo me levantar
Um espinho cravado no peito
Montemor a abafar

Pelo calor do verão
Eu olho e mais nada
Mas pelo sim pelo não
Ponho o pé naquela estrada.

02 junho, 2010

«« Só ««


Vazio aldrabado
Ao lado o poente

Estou só, alheado
Ao lado, o presente

Um segundo, afinal
É uma hora vazia

Raquítica, está mal
Sou só, quem diria

Preciso de tudo
O tudo se vai

Num gesto difuso
Ergo a mão, logo cai

Na terra, um sonho
Ilusão descontente.