12 abril, 2010

«« Tempo ««


Porque corro contra o tempo
Se o tempo não tem tempo
É inoculo parece cata-vento
Porque corro, em desalento
Pareço pião na mão do menino
Danço, flutuo presa na ponta da corda
Vira, revira e torna a virar, reviravolta
Perco-me sem tempo, que desatino
Acho que não passo de passatempo

Nas mãos traiçoeiras do gasto tempo
Se lhe virar as costas, talvez se suspenda na corda.

09 abril, 2010

«« Poetas e poemas ««


O poema é quando um homem quiser
Ou será uma qualquer mulher
Plagiando o poeta, um filho a nascer
Um poeta só é se o mundo o dizer

Um poema nasce mesmo sem rimas
Raios me partam se lhe encontro jeito
Nas malditas palavras vindas do peito
São adagas não querendo ser finas
Um poeta nasce ao amanhecer
Um punhado de nada, versos a escrever
Serão os meus olhos que querem ver
Será um poema a meu entender.

08 abril, 2010

«« A lua e o pastor ««



Uma lua minguante, a debilidade esfumada
Uma lua minguante é sinal de fim de ciclo
A debilidade esfumada na lua crescente inebriada
Lá vem a lua nova, já vem a caminho

Quem p´rá lua olhar de madrugada
Verá um braçado de lenha, carregado por um velho
Dizem que é o moiral da noite esgotada
Espera… acabo de ouvir a cegonha no ninho

E acabo de ouvir ao longe o pastor, assobia ao cão
O rebanho espera agitado, que o pastor abra a cancela
E saltam as ovelhas aos prantos, méeeee… o dia se revela
No horizonte espreita a lua ensonada

Lua, lua, minha madrinha, agora já é de manhãzinha
Vai dormir lua redonda, pisca o olho ao sol em brasa
Deixa-o entrar pela fresta da janela, senão atrasa
O pastor que vai p´rá lida, lá está ele na lua, e vai sozinho

«« Recados ( I ) ««


Se eu te pedir, não me olhes é porque os dias morreram e as searas perderam o verde viçoso, o Alentejo ficou inundado de flores azuis, são o reflexo do céu num deserto de areia, a miragem entre o limite estonteante da imaginação.
Se eu te pedir não me queiras, vira-me as costas e volta-te num repente, toma-me nos braços, tal como a terra toma o sobreiro, e a sua sombra magistral alberga as almas em fuga pela planície em chama.
Se eu te pedir não me beijes, aí, olha-me apenas, bem no fundo dos meus olhos verás um rio, é o Guadiana nas tarde calmas de verão, repara nas estrelas cintilantes que se vislumbram no céu rubro, pelo sol de Agosto, nesse instante meu amor, não digas nada, deixa que encoste a cabeça no teu ombro, à espera que seja beijada.
Se eu te disser estou cansada, é porque não dormi na noite anterior, abri a janela do quarto e contei as estrelas, pela via láctea vislumbrei o teu vulto, olhei, reparei então que me acenavas, num gesto desmedido, lançavas-me beijos, olhei de novo, eram estrelas cadentes, que traçavam o céu por cima da cidade, na sua cauda traziam os teus sonhos, dormias ali ao lado.
Se eu te disser que te amo, quero ser levada a sério, igual ao trigo loiro que em tempos cobriu o campo, quero que sintas ao tomares-me a mão, as raízes entranhadas da azinheira onde as cotovias fazem os ninhos, ao escutares o seu trinado escutas a minha voz num fado, bairrista e dolente onde te cantarei em versos estridentes, meu amor é para sempre.

«« Pedaços de marfim ««


Uma lágrima caiu, furtiva, foi um grito
Silencioso, de quem contém a amargura
De um desconhecimento que leva à loucura
Em cada lágrima retraída me expiro

Não olhes, finge que não vês, ainda assim
Escuta o bater do coração, repara no compasso
Apressado, ele te falará do meu fracasso
E da minha sombra, onde caem pedaços de marfim

São nesgas de sonhos, retalhos de efémeras ilusões
São o ondular ao vento de quimeras e paixões
São pétalas de rosa em cada beijo que te dei

Pedaços de marfim, ou bocados de mim
São a mesma coisa, são flores do meu jardim
Aquelas que te ofereço, em todas as vidas que te amei

«« Oásis ««


Sou uma sombra sem oásis, nem palmeiras
Na ponta dos dedos ainda escorre a seiva
Que em outros tempos corria intempestiva
Que tentava derrubar todas as fronteiras

As de pedra e cal, e as ténues e imaginárias
As fronteiras da mente de poeta cativa
Do olhar sob o qual via o mundo, viva
Era a expressão coberta de ideias amontoadas

Mas hoje, sobe os cabelos soltos, fios de neve
Fragmentos que aqui e acolá sobrevivem
Envoltos em nuance estúpida mas leve

Até essa leveza me pesa, mas não ajuízem
Por detrás da sombra pernoita o oásis
E os dedos só esperam que as ideias enraízem

05 abril, 2010

«« Fedelho... do espelho ««


Olhei o espelho
Fiquei embasbacada
Me deu um conselho
Mulher, não fiques parada

Salta pela janela
Atenção, um salto equilibrado
Ou então salta pela telha do telhado
Que a porta só serve para espreitadela
Olhei o fedelho
Sem perceber nada
Olhou-me matreiro
Menina, a porta está entaipada.

02 abril, 2010

«« Sexta Feira Santa ««


Sexta Feira Santa
Vou rezar em campo aberto
Talvez descubra a campa
Onde enterraram o que é certo

Minha fé está abalada
Não é de agora é de há muito
Entrei num nefasto deserto
Sobreposto por grossa camada
De desilusão, e mentira
De crenças que não são nada
Minha fé está abalada
E a culpa é do homem esperto.

.........Feliz Páscoa a todos os que me lêem, o meu carinho e obrigado, mas estou como o coelho nada tenho a ver com essa coisa dos ovos.

01 abril, 2010

«« O desculpar silencioso ««


Sabem o que mais me chateia, é o desculpar silencioso das massas, esse sim é o grande retrocesso da humanidade, o desculpar silencioso, a retórica do coitadinho lá estará Deus para o julgar.
Estou a ver o ar de espanto de alguns que me vão ler, que logo pensarão o que vai ela aprontar desta vez, ou melhor quem será a coitada da vitima, o que vocês não sabem é que a vitima desta vez sou eu, eu, que bato três vezes com a mão no peito ao me levantar, que rezo antes de cada refeição, e antes de me deitar também.

Acreditaram, pois não passa de uma grande mentira, longe vão os tempos em que acreditava em certas coisas.

Mas o desculpar silencioso continua atravessado, depois deste desabafo.

Porque não se desculpam os coitados dos homossexuais que querem ver os seus direitos consagrados igual a qualquer cidadão de pleno direito, e digo coitados, porque bato com a mão no peito de cada vez que visto a capa e a espada e rumo à avenida da Liberdade, para gritar alto e bom som, não ao casamento homossexual, não à adopção por cidadãos de segunda sádicos e masoquistas, que em nada mais pensam que molestar criancinhas pobres e inocentes. Nasceu uma mãe para ver isto.

Não faz mal se essas mesmas crianças forem violadas pelo pai ou pela mãe, pelo tio pela prima pelo professor, se passarem fome e receberem maus tratos permanentemente, não, isso Deus se incumbirá, agora aos homossexuais nunca!

Por acaso conheço alguns que dariam bons pais, tenho quase certeza.

Mas o raio do desculpar continua a martelar-me o sentido

Porque não desculpo as mulheres que em plena consciência querem abortar, porque são elas que devem decidir sobre a sua vida e sobre a dos filhos que inconscientemente ou conscientemente geraram, para não falar das violadas e estropiadas, essas são raia miúda, porque voltei a vestir a maldita da capa e a pegar na espada, e lá fui eu, num não heróico contra um referendo de um país leviano, porque gritei em todas as homilias repetidamente, não ao aborto, sim à vida.

Porque é mentira.

Porque eu sou a favor do aborto, cansei-me de ver mulheres a sofrer uma vida inteira por se julgarem pecadoras e inferiores a todas as outras.
Porque eu sou a favor do casamento homossexual, ou não fosse o bendito casamento nada mais que um contrato cada vez menos vitalício, que cada um assina sempre que quer, e quando bem quer, para não falar da feira de vaidades que quase sempre envolve o dito casamento ficam os pais endividados e os pombinhos ao fim de um ano já se estão a divorciar, ás vezes menos que isso, o padre esse fica satisfeito cumpriu o seu divino papel, unir um homem e uma mulher segunda as leis da santa madre igreja, porque sou a favor, se um casal homossexual tiver uma vida estável tanto financeiramente como afectivamente, tem o direito de facultar ás crianças que enchem os lares para menores deste pais, sujeitas ás mais variadas atrocidades ( lembrei-me agora da Casa Pia por onde andará esse processo ), tem o direito de proteger e dar uma vida digna a essas crianças, já que a sociedade na maioria das vezes não o consegue fazer.


Mas lá vem a desculpa de novo.

Porque será o silencio, tão silencioso em redor das ultimas noticias vindas a publico sobre a pedofilia praticada por padres católicos contra menores aos seus cuidados.

Li esta manhã qualquer coisa que dizia, mais ou menos isto, vitimas querem que sua santidade o papa seja chamado a depor, de seguida lia-se.

A santa igreja prepara já a respectiva defesa, uma das alegações principais é a de que sua santidade como chefe de estado, está abrangido pela imunidade diplomática.

Não sei se ria se chore, sua santidade foi a (África) a um dos países onde mais se morre com sida, e teve a brilhante ideia de condenar o uso do preservativo assim que saiu do avião,( isto passou-se no ano transacto) continua a levantar o dedo contra o aborto, chamando-lhe crime contra a humanidade, e agora quer imunidade diplomática, apenas porque sua santidade tem conhecimento da maioria dos abusos contra menores desde há algumas décadas e preferiu camuflar os casos e tapar o sol com a peneira.

Pois é o raio da desculpa que me continua a enevoar o cérebro desde esta manhã,

Agora vou rezar três pais nossos e três Ave Marias em nome do Pai do Filho e do que a gente Quiser, porque estou chateada, e vou vingar-me na próxima manifestação que a minha santa fé e sobretudo a minha moral me exija que faça.

E tudo isto porque é tempo de Páscoa, e dizem que existiu um Homem que morreu para limpar os nossos pecados.

Lembrei-me agora, se Ele morreu para me limpar a alma posso pecar à vontade. Amem.

««Tempo de Páscoa numa igreja caótica.««


Não faz sentido, é tempo de Páscoa
Olho em redor e deixei de lhe encontrar significado
Em cada página de jornal, salta à vista o pecado
Aquele que teimam em apontar, há toa

Nas homilias omissas e submissas
Em cada sinal da cruz, atacam o pecador
A mulher que aborta num mar de dor
Aquela que quer liberdade sobre as agruras

Um desviar de atenção, desculpem mas estou em dia não
Não, não pensem que é um não qualquer
É um não de mãe e mulher
A quem roubaram o acreditar, na suposta absolvição

Daqueles que tinham o dever, de ensinar a arte de amar
Funcionários de uma igreja caótica, cheia de mofo e bafio
Cheira a estrume, desculpem mais uma vez o meu arrepio
Em cada noticia sobre pedofilia, em cada tentar abafar

Que aquilo que mais tresanda numa igreja caótica
Não é o laxismo comum àqueles a quem chamam inferiores
Num sinal da cruz ou num credo imperfeito se escondem os crimes
Estará Jesus olhando o mundo numa Paixão, simbólica.

Quem sabe não fique pedra sobre pedra
Quem sabe aqueles que deviam defender a igreja
Sejam o seu desmoronar de bandeja
Porque os caminhos são tortuosos e a igreja se esquece de ser Cátedra.