25 março, 2010

«« Medo ««


Meu amor, porque desgastas o medo
O medo é a recordação
Que peca por ser o que é… medo
Descabido, de esquecer o que se foi
De tentar vencer o inevitável
Numa emoção miserável
Meu amor o medo dói
Tal qual chaga profunda
Cratera de lava quente
Meu amor se ficas ausente…

O medo toma posse de mim

E assim, assim, talvez mais
Com medo que os dias não sejam iguais
Por entre chuva, vendavais
Soltam-se as lágrimas em ais.
Ais…por não saber por onde vais

Enquanto o medo me faz companhia

Meu amor, não desgaste o medo
Ele é feio, mas é solúvel
Pode chegar manhã cedo
E á noitinha arder …feito papel.

23 março, 2010

Contos «« Uma mulher que podia ser nada ( II Velório)««



Meio dia e meia hora.
E o telefone continua em silencio, parece que está sentado na fila de trás de um velório, daqueles a que vamos por bem parecer, vamos porque precisamos de ser vistos, por este ou aquele motivo, o morto esse mal conhecemos, lembrávamos-nos dele sempre que aparecia nas páginas dos jornais, embora, que por um motivo que a memória recusa lembrar já nos tenhamos cruzado com ele, em qualquer sitio mas a imagem deixada foi tão ténue, que agora ali, sentado na ultima fila do velório, o telefone se ache um paspalho, um actor de teatro apupado diariamente devido ás más representações.
E ela ali está, sentada de frente para o telefone, e sente-se o morto que o telefone vela.
Perdeu a noção do tempo, sabe que se levantou e pouco mais, nem disse bom dia ao espelho, esse é outro, um sacana de primeira que teima a todo o custo mostrar-lhe a realidade, mas quem lhe disse a ele, espelho insípido, que ela quer que lhe mostrem seja o que for. Por mais alguns minutos olhou o monstro, que a vela silenciosamente, depois deu meia volta e enfiou-se na casa de banho, tomou um duche rápido vestiu a primeira roupa que lhe apareceu e correu escada abaixo, precisava de ar puro de falar fosse com quem fosse, caminhou sem destino e deu por si a entrar na mercearia do bairro, o merceeiro homem de muitas falas olhou-a de alto a baixo e gritou, - bom dia minha senhora, - O raio do homem podia falar mais baixo, por acaso pensará que ela é surda.
-Bom dia retorquiu, como está o Sr. Manuel.
Mal minha senhora muito mal, sabe, é esta ulcera que não me larga.
Embrenhou-se pelos corredores estreitos da mercearia, por entre compotas e garrafões de lexivia, havia de tudo um pouco, a mercearia recordava o largo da fonte em dias de feira, de onde o freguês nunca saía de mãos a abanar. De vez em quando repetia maquinal-mente um sim, talvez, ou não, ao rosário de lamentações que o pobre homem ia desfiando, ele era a gota que não o largava, os impostos por pagar, os fregueses que levavam fiado e desapareciam, a mulher que tinha fugido com um caixeiro viajante fazia mais de trinta anos, não que não tivesse voltado a casar, claro que casou com a sua Mariazihna , que era uma mulher e pêras, uma daquelas que já não se fazem, mas a primeira estava-lhe atravessada nas goelas, deixá-lo por aquele pelintra a ele um homem com as suas qualidades.
Pegou no pão que precisava de levar e de novo se abeirou do balcão, onde o merceeiro continuava a tagarelar, desta vez com o homem do talho que tinha ido comprar os cigarritos.
- Pois é Sr. Manuel este vicio ainda me vai matar, até logo que a freguesia não espera, e assim como entrou saiu, correndo em direcção do talho que ficava do outro lado da rua.
O Sr. Manuel especa, olha-a de cima a baixo como se tivesse visto assombração, e replica no vozeirão que lhe é característico.
- Ó minha senhora diga-me lá, vossemecê já mora no bairro há um bom par de meses, e nunca tive o privilégio de ver o seu excelentíssimo esposo.
- Nossa Sr. Manuel, do que você se teria que lembrar agora, ó homem claro que não viu eu sou duplamente viúva.
O bom do homem olhou-a de boca aberta levando a mão á cabeça , tentando alisar os poucos cabelos que lhe restavam, fechou a boca, abriu de novo e voltou a fechar, como se tivesse mordido a língua, até que disse a meia voz.
- Duplamente viúva, ó minha querida senhora desculpe não sabia, os meus sentimentos.
- Senhor Manuel, eu sou viúva de marido vivo, e viúva daquele com quem me casarei um dia. Por isso não se preocupe.
O merceeiro nem pestanejou, ela deixou os quarenta cêntimos que custava o pão em cima do balcão e saiu no seu passo apressado.
Quando chegou a casa, olhou de relance o telefone, este mantinha-se imóvel no velório, nem uma lágrima o desgraçado deitava pelo finado.
Terriiiimmm, de um salto levantou o auscultador.
-Está sim. Ouviu-se do outro lado da linha.
- Estou
- Fala da Portugal Telecom se nos puder dispensar uns minutos gostaríamos de lhe levantar algumas questões, é um inquérito simples que estamos fazendo junto dos nossos clientes tendo em vista o melhoramento dos nossos serviços. A senhora tem alguma reclamação a fazer dos mesmos.
Então não querem lá ver, veio mesmo a calhar este inquérito, reclamação claro que tem.
- Tenho sim, retorquiu, quero reclamar contra o silêncio do meu telefone.
- Como assim, respondeu a voz do outro lado, num tom de espanto.
- Silêncio, a senhora não sabe o que é silêncio, o meu telefone passa dias e dias sem tocar. E a culpa só pode ser vossa, claro está.
- Adiante respondeu a voz, vou colocar-lhe a segunda questão.
- Qual adiante qual carapuça, enquanto não me resolverem o problema não respondo a mais nada. E desligou o bendito aparelho.
Encaminhou-se para a cozinha, mas voltou atrás e de dedo em riste dirigiu-se ao imóvel telefone.
- Ficas aí velando o morto e eu é que faço figura de parva.

19 março, 2010

«« Salto ««


Só sou o que tu vês…
Quando não me canso
Depois…
Embarco numa Piroga
Imagino-me Sorco!
E as águas riem
Em gargalhadas flácidas
Entornam a cegueira
Esta cai-me aos pés…
E agora…
Achas que lhe salte em cima?

18 março, 2010

«« Calada ««


Meu amor em quantos silêncios
Falo contigo na calada da noite
E nas longas conversas que mantenho
Falo-te de uma floresta…
Onde os pássaros são livres e afoitos
Mesmo que o vento por vezes açoite
As árvores na sua sonolência

E com engenho…

Uma arte que não aprendi
Mesmo assim na noite insone
Meu amor falo de mim, falo de nós
Afino a aresta…
Imagino-te ali.
Aqueces-me num abraço que arde
Num braseiro manso, que espalha beijos

Nas faúlhas, cintilantes que saltitam…

Assim eu soubesse saltitar!
Meu amor o silêncio iria esconder
Lá, na floresta do inconsciente
E assim, eu iria bem alto falar
Que és o meu sol no amanhecer
És o meu ninho, mesmo no silencio aparente.

«« Contos- Uma mulher que podia ser nada. ( I. Realidade crua ) . ««


Olhou o espelho, como quem olha a pira funerária onde jazem os restos mortais, de um qualquer herói Celta ou Ibérico . Não que se considere heroína, pelo contrario, sempre fora a seguidora silenciosa de Reis sem trono. Voltou a mirar-se no espelho, desde pequena que sempre que se sentia perplexa, olhava o espelho, como se o reflexo frio que emana lhe desse as respostas que necessita, e hoje não era diferente. Desde há algum tempo que se sente vazia, aliás, essa sensação caminha a seu lado desde que se conhece, por breves períodos esquece-se dela, mas são tão ténues que a memória a trai.
Num novo olhar, desta vez mais demorado, repara nas pequenas rugas que circunscrevem o globo ocular, que afinal não são assim tão pequenas, apesar delas ainda consegue iludir aqueles que lhe tentam adivinhar a idade, idade essa que sempre fez questão de sublinhar, essa, uma das suas vaidades, dizer quantos anos tem e ver a cara de espanto de quem pergunta. Mas, as rugas estão mais profundas, a pele está baça, como envelheceu sem dar por isso. Será que não deu mesmo, ou será que se ilude a si própria.
Nesta manhã acordou com uma vontade louca de fazer algo de novo, lembra-se que antigamente dizia de si para si, um dia ainda farei tudo o que gosto de fazer, gosta de arte, gostava de visitar os grandes museus, gosta do mar pela manhã, um dia iria acordar na praia, iria ao municipal, ver uma opera famosa, iria ao teatro, ver Shakespeare, iria, sim um dia, iria ter alguém com quem repartir a vida, tempos houve em que esse acreditar a mantiveram de pé.
O que o tempo nos faz, até os sonhos corrói, e passamos de sonhadores a realistas frios e calculistas num estrelar de dedos.
De novo o espelho, olha-a como se não a visse, nas circunstancias da vida essa posição é confortável, olhar e não ver, mas ao espelho ela não perdoa, o espelho tem obrigação de a ver, real, tal como é.
Num movimento brusco vira-lhe as costas, pega na mala e sai porta fora, caminha como sonâmbula pelo bairro, ao fim de alguns minutos pára a olhar para uma montra onde num gesto de chamamento está exposto um cartaz de tamanho razoável onde se lê. Entre compre aqui o presente para o seu pai, dia 19 de Março é o dia do pai. Pai mas que pai, de pai só conhece o nome.
O espelho persegue-a, agora está estampado no vidro da montra, um ligeiro sorriso ao canto da boca, recorda-lhe o que alguém lhe dizia em criança, faz-te à vida que ela não se fará a ti. Vida, será a sua vida, trabalha feito uma condenada, passa mais horas no serviço do que em casa, o tal do serviço tornou-se a sua casa, essa é que essa. Não tem amigos, apenas conhecidos, as amigas quando se divorciou foram-se perdendo aos poucos, coisa que ainda não conseguiu entender, ás vezes pensa que é por inveja, têm inveja dela, ou por despeito, por ter feito o que muitas almejam fazer, e não são capazes, por medo, ou por conveniência. Resta-lhe duas ou três pessoas, mas todos demasiado ocupados, nesta era tudo e todos são demasiado ocupados. Depois existe outro inconveniente nos seus relacionamentos, tem um gosto apurado para o belo, e nos dias de hoje o banal e corriqueiro virou moda, não gosta de centros comerciais e os centros comercias são por excelência um ponto de encontro, ela não se enquadra em certas modas. Outra coisa que gostavam de lhe atirar à cara, tens a mania que és fina, antes fina que casca grossa, retorquía.
Andou mais uns metros. Parou como se tivesse sido apedrejada, deu meia volta e tomou o caminho de regresso a casa, pela cabeça deslizavam pensamentos a mil, que faz sozinha, porque não procura companhia, maluca, sim maluca, um destes dias está velha de vez e senta-se no banco da praça, a dar milho aos pombos, isto se o reumático não a prender a uma cadeira, ou pior a uma cama.
Nesse instante tomou a decisão mais importante nos últimos tempos da sua vida, pelo menos a que lhe parece mais importante, não pode continuar a passar os dias de descanso sozinha sem ter ninguém com quem falar, vai pegar no telefone, e vai convidar alguém para almoçar, melhor, vai mandar um email.
Entra em casa e senta-se frente ao computador, abre o correio electrónico e deixa correr o olhar pelos contactos, um a um, daqui a pouco decide a quem convidar, abre a página do site onde escreve, um sorriso aberto enche-lhe o rosto, estão lá todos, os seus amigos, tal como ela ali estão em casa, ali desabafam, conversam, chamam nomes uns aos outros, mandam beijinhos e abraços, mas estão juntos numa mesma realidade, a solidão.
Fecha o computador, e deita-se, são dez da manhã e só lhe apetece dormir, amanhã é dia de trabalho, vai ver os conhecidos, porque os amigos estão fechados dentro de um computador.



........................Nota da Autora

Desde há algum tempo que tenho vontade de escrever sobre a mulher, uma das muitas que preenche o quotidiano citadino, nas suas mil histórias, nos encontros e desencontros do dia a dia, inicio aqui esse ciclo, quero deixar bem claro que esta mulher, porque vai ser sempre a mesma que a autora retrata, não é ninguém e poderá ser qualquer uma de nós, vou-me basear em factos concretos numa mistura dissimulada com o irreal, factos que qualquer uma de nós mulheres, pode viver com mais ou menos intensidade. Para escrever estes contos, tenho como primeira ferramenta a observação cuidadosa das realidades,tanto sociais como humanas.

«« Carta a mim mesma ««


Esta madrugada escrevo. Uma carta a mim mesma.
Acabei de vislumbrar o seu olhar guloso
Ou está doida… ou está só… enganosa
É a forma de escrever seu curioso

Escrevo-te esta carta, nada
Como nada é a realidade quando escrevo
Escrevo-te esta carta e assim me atrevo
A dizer o que não sei, atrapalhada

Fico sempre que penso… o pensar mal me faz
Penso que escrevo quase nada, num tanto que sou capaz

De falar à muito perdi o jeito
Para quê? Está louca logo diziam
Agora ponho tudo no papel, a preceito
Coitada louca está, mal fariam

Se me lessem, e me vissem como sou
Mal fariam… se me olhassem a direito
Sou a tal que vou escrevendo, aqui estou
De alma vazia… nem tudo é perfeito

Perfeita seria eu se mentisse, ou iludisse
Quem navega em mar alto, tem mais valor

Pobre de mim sou pescadora no areal
Onde a maré vem despejar, todos as coisas
Que o mar rejeita numa fúria abismal
Como abismal são aos seus olhos todas as lágrimas

Aquelas que esta carta não mostra
Mesmo agora que acabei de me escrever
Vejo o seu sorriso igual a ostra
Em prato raso prontinha p`ra comer

Por favor deixe-me terminar, um abraço e um beijinho
Um calor, para mim é tudo ou nada
Atenção, é aquilo que preciso com carinho
Do nada que sou… para nada, assim dou esta carta por acabada.

16 março, 2010

«« Olhar ««


Se pensas que não vejo o que não queres
Então o sol encobriu-se
Quem sabe, o mar galgou…
Olho, e calo o que não quero dizer-te através
Do olhar doce
Espera, o mar por hora sanou…

Se pensas… que não te quero
Amedrontar com o som difuso
Da minha razão gasta, talvez casta
Então és um átomo que por vezes supero
Mas… é a mim que tornas recluso
Na inquietude da ideia estafada

Pois é! Assim passam as maresias
Levando um breve suspiro
Tão breve e leve que do mar retiro
Os passos marcados pelos dias
Dos quais as noites e o ver perfazem o trio
Da minha, da tua existência, num olhar matreiro.

Queres ensinar ao mundo o que é a poesia
Ensurdecedor o teu eco absurdo
Os mudos falam por gestos
Aos cegos deu Deus o tacto
Os poetas nasceram com aura.

«« Desejo ««


Meu amor, ao despontar o luar não digas nada
Olha-me apenas, verás no meu olhar a névoa
De quem cala o que sente, água parada
Na represa onde afogo, o desejo que não voa

Meu amor, ao despontar o luar se chorar, olha
Verás a lágrima que cai no chão seco
Desfaz-se em mil partículas de escolha
A escolha que não faço, quando calo o eco

Da palavra, que me inunda o crer, quem sabe
Inunda também o ser, aquele que não sou
Aquele que o luar numa noite perdida matou

Mas o luar, por vezes é brilhante e inunda
O desejo,que submerge na ânsia em que não cabe
O eco aflito temendo que o desejo não se acabe

Júlia Soares ( pseudónimo )

«« Apressa o passo ««


Apressa o passo, que a sorte espreita lá adiante
Silenciosa, escuta o cantar do Gaio
Nesse instante, um bandolim velho
Repenica ao sabor da brisa ligeira, distante
Tão distante que me abstraio
Da curva que esconde a morte, no espelho

Da vida. da morte não quero saber
Viro a cara, injecto o pensamento para lá
Apresso o passo… escuto o Gaio
Em mil falas, uma linguagem a amadurecer
Ao meu ouvido afluirá
O murmurar do vento no mês de Maio.