15 março, 2010

«« Silêncio ««


Há um silencio que mata
É o espiral de qualquer silencio
Aquele que não vê que o tempo passa
Aquele que bate o dente com frio

Há um silêncio que mói
Pela calada, hora morta
Bate à minha ou a qualquer porta
Entra e destrona, como dói
O silencio imposto, mas diplomata
Não grita é subtil, esfrangalha
As vontades morrem em fornalha
Que tudo quebra, feito aço que corrói.

13 março, 2010

«« Os teus cabelos ««


Quero enrolar sobe os dedos famintos de sentir
Cada cabelo branco que descai sob a tua nuca
Pouco importa a cor que outrora tiveram
Ou o toque sedoso que outros dedos tocaram
Quero, acabei de concluir
Que em cada fio do teu cabelo
Meu amor, os meus dedos acabam sempre por cair.

Júlia Soares ( pseudónimo )

«« Lágrimas ««


Há um nó na garganta que oprime
Os dias que espreitam ao longe
As nuvens que correm velozes
Esperam, que o tempo passe
Quem sabe choverá…

Oprime e cala o desaire
De partir e não olhar para trás
Este grito castrado, há saída
Enleia-se nas nuvens do meu olhar, distante

Um pingo de chuva cai na ruela
Silêncio…

A calçada molhada, é fria
As nuvens pararam agora
O tempo olhou-me e virou a cara
Não, não chove…

São pingos de sal, que a garganta engole.

11 março, 2010

«« Palhaço ««


Experimenta a olhar-me
Olhos nos olhos, talvez vejas
Uma tristeza crua a enlaçar-me
E não aquilo que desejas

A sina do palhaço
É agilizar a vida, dar-lhe asas
Fazer esquecer as horas tortas
O circo da sua existência, é baço
Como baço é o sentar-me
Na bancada de pau e esperar
As gargalhadas, esquecendo o olhar
Triste do homem, em risos de aço.

10 março, 2010

«« Nada ««


Vesti as vestes pesadas do silêncio
Adornei-me com grinalda de coragem
Olhei o horizonte, fui na súbita aragem
Afastei-me deste meu medo doentio

Que me atulha a alma e num mísero desvio
Me afasta de mim, no anseio selvagem
Que o dia me traga a tua esbatida imagem
Tentando com isso preencher o vazio

De um saco sem fundo onde pernoitei
De um silêncio atroz à hora do nada
Num pouco de tudo, ao silêncio rio

Rio de mim e de ti, quem sabe a veste pesada
Me traga de novo o fresco do orvalho
Na coragem de correr, mesmo estando parada

08 março, 2010

«« Sã ««


Se hoje me queres dar uma flor
Guarda-a para amanhã
Guarda-a para depois, p`rá hora vã
Aquela em que o riacho seca
Com o calor da minha pele, com o suor
Que me escorre do rosto sobre o divã
Da intolerância, que começa
Quando me enfeitas feito boneca
Se hoje me chamas mãe
Não precisas fazê-lo
Tão pouco dizê-lo
Serei pelos confins do tempo, mãe
Serei bela, de tez enrugada
Terei as mãos calejadas
Pelo cabo da enxada
Serei mulher, a apedrejada
Por piropos ridículos
Como ridículo é o dia D
Se cremos em reis, não sei porquê
Existem dias Dês
Mas não, não me dês
Floresjavascript:void(0)
Guarda-as para amanhã
Amanhã serei mulher, livre e sã.

05 março, 2010

«« Meninas ««


Meninas
São vossos sonhos vendavais
São o vento, são as flores dos laranjais
Meninas, são vossos sonhos borboletas
Que esvoaçam quando desfazem os ais
Sempre que se enlaçam nos sonhos desiguais
Meninas, são a pureza das rosas delicadas

Então mulheres
Caminham e vão em frente
Carregam na alma o seu sorrir ardente
Escondem a dor disfarçada em prazeres
Outras vezes num debrochar estridente
Escondem a dor numa lágrima sorridente
Então mulheres, são o arco íris, tantas as cores

É já avó
Pelo caminho traçado
Ficou a esperança espalhada pelo prado
Ficaram os dias presos em grosso nó
Ficou o rir, e a raiva lado a lado
É já avó, no fio de cabelo esbranquiçado
Ficaram as marcas de uma vida, o seu fado
Recorda os amores, nos dias em que está só.

Meninas.
São o vento que varre a planície
São estrelas brilhantes, a meninice
É o castelo, de um reino feito de anéis
lápis-lazúli, pedras azuis pelos areais.

04 março, 2010

«« Veste ««


Que final de tarde este
As ideias correm sem norte
Por aqui, por ali, em qualquer parte
Saltitam feito escaparate

Escaparate por onde deslizo
As ideias presas na ponta
De uma faca afiada que desponta
O grito hilariante em que agonizo
Que grito é este
Qual tufão ao longe indeciso
Definindo o ponto certo e preciso
Onde solto os ideais de que fiz minha veste

01 março, 2010

«« O que vês em mim ««


O que vês em mim
Uma barata tonta de perna partida
Uma emoção a cair de velha
Quem sabe uma sorte ressentida

O que vez em mim, tu o saberás
O que vejo em ti, isso não digo
Talvez me vejas um ramo partido
Que nesta hora deslizará
Naquilo que pensas, verás que sim
Lá mais à frente ao olhares para trás
Que sou a sombra que sempre verás
Enrolando a dor em flor de jasmim.

«« Cantiga ao disparate ««


Um dia quem sabe cantarei
À terra molhada uma desgarrada
Cantarei um fado e afinarei
A garganta seca em água gelada

Um dia te canto terra de ninguém
Te canto um fado pobre, sem guarida
Falo-te do fel e da alma despida
De um povo agastado sem vintém
Gente do povo, eu te falarei
Das dores agudas, e de alguma cobiça
Falo-te ainda da mulher roliça
Que de tanto falar, ficou tão aquém.