11 fevereiro, 2010

«« Cair da noite ««

Se eu dissesse que não tenho saudades
Mentia, não te mentia a ti, iludia-me a mim
O dia parece maior, as flores murcharam, enfim
Como murchou o rir daquela que conheces

Mas, porque haveria de rir, talvez penses
Porque as mulheres devem rir, imagino-te sim
Olhando o dia desgastado, venha depressa o fim
Que a noite caia, e um apagão destrua as cores

Que envolvem a cidade, talvez encubram
A gélida realidade, a tua, e quem sabe a minha
Que o escuro tape o lado funesto, que cubram

As estrelas que teimavam em cintilar
No meu olhar, aquele com que te olhei
Ao mesmo tempo em que entreguei o meu acredita

«« Só ««


Um dia acreditei na vida simples
Acreditei, que encontrava o amor
Numa esperança renovada, esvaia-se a dor
Um dia fui outra mulher, vibrava com as cores

Do arco íris, conseguia ver-me através
Do cinzento da vida, conseguia sentir o odor
Do rosmaninho, bebia o orvalho com sabor
A terra molhada, e era feliz, apesar dos cortes

Que a existência ia escrevendo no meu olhar
Depois, veio a primavera e acreditei
Que o campo floriria para não voltar

A ficar árido, louca, na loucura me abstraí
Acreditei, de seguida esqueci-me de olhar
O Inverno chegou, estou só… só agora é que vi

10 fevereiro, 2010

«« Escasso ««


Não me dói a indiferença de quem passa
Tão pouco daqueles que só me conhecem
Não me dói o não em palavras que caem
No vazio de um aperto de mão, escassa

É a confiança no dia por detrás da vidraça
Por onde os sonhos se esvaem, nada os retêm
Escassa é a ilusão de que se tem alguém
Tão ténue que é que se esvai na fumaça

Que circunscreve o limite do horizonte
Por onde nos é permitido ir, retaguarda
É o limite que fica por detrás da ponte

Chamada ilusão, a minha alma está cansada
No limite de um monte agreste e vazio
Tão vazio que nada renasce, o tudo é nada.

05 fevereiro, 2010

«« O trinar da guitarra ««


Os nosso olhar se entre-cruzou, assim
Que o vento amainou e a chuva parou
Tal qual as cordas de um bandolim
Nosso olhar se cruzou, o dia avançou

Em direcção ao tudo que chega por fim
Depois da espera que a vida traçou
Floriram as rosas num belo jardim
Trinou uma guitarra, baixinho chorou

Fundem-se as almas em comunhão
Unem-se os corpos, quente madrugada
Bocas unidas, dadas as mãos por essa estrada

Plana ou em ziguezague, em abolição
Germina o amor, numa farta colheita
Duas lágrimas que caem, é o gemer da guitarra

«« Cadeira de palha ««



Esperei eu pelo amor
Sentada numa cadeira
De palha
Palha tão gasta e branca
Que a confundia com o alvor

Que inundava o meu céu
Sempre que a manhã sorria
Sentada nessa cadeira
Fui definhando, sombra minha
Até que a cadeira quebrou

Ao entrar uma andorinha
Que no meu colo poisou

Falou-me então ao ouvido
Num trinar suave e fresco
Levanta-te dessa cadeira
Desbrava o terreno árido
Estás viva, estás inteira

Olhei-a placidamente
Estou louca agora sei
As andorinhas não falam
És ilusão aparente
Vai-te, sozinha ficarei

Esvoaçou a andorinha
Pelo quarto abafado

Bateu asas e voou
Deixando atrás de si
Um recado

A cadeira já não volta
Quebrou-se com o bolor
Que o pensamento inundou
Acorda e faz-te à vida
O sol lá fora raiou

Acenei-lhe num adeus
Abri os olhos acordei
Entrou um ramo verde
Que apressada agarrei
Eram os braços teus

Caminhei à luz do dia
Mão na mão, uma jornada
Depois da chuva a acalmia
Duas vidas uma estrada.

04 fevereiro, 2010

«« Agora Penso ««


Ao chegar a noite descobri um campo de trigo loiro
O sol de Maio, um planalto de rubras papoilas
Encontrei, o meu chão, uma trave, o meu tesouro
Encontrei num areal um mar de brancas conchas

Despi-me por entre as sombras difusas e abstractas
Banhei-me nas conchas semigastas, retive um suspiro
Que encobriu as palavras gastas, por entre as lágrimas
Que fechei num pote, argiloso de um amarelo oiro

Que contêm o amor que te tenho, a forte corrente
Que me mantém suspensa átona de água, fria
Como fria era a falta que no meu intimo sentia

Sempre que chegava a noite e o silencio me envolvia
Esta noite meu amor, o meu sonho foi diferente
Agora penso, semearei esse campo e sigo em frente.

Júlia Soares ( pseudónimo )

«« Adeus Rosa ««


Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.


Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
a saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.


Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.


Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.


Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.


Rosa Lobato de Faria ( 1932... 2010 )

01 fevereiro, 2010

«« Realidade ««


Porque será que a realidade, se
Sobrepõe à vontade ao sonho e ao crer
Chega fria e sinistra, sem sequer dizer
Acautela-te, aqui estou com leviandade

Vou manipular-te, visto-me de vaidade
E tu, não passas de ventania a bater
De encontro ás minhas fantasias, o teu ver
É mera passagem tão leve como a aragem

Que se esvai sem retorno, a realidade
É assombração, chega sem avisar
É água gelada, é dia não em alto mar

A realidade por vezes colhe a vontade
De seguir em frente, turva o olhar
Mas, só nos comanda se a gente deixar.