29 outubro, 2009

«« Aurora ««



Se eu sair por aí ao encontro de um tudo
Olha-me de frente, verás que procuro
Desviar os tentáculos que no escuro
Teimam em nos mostrar o lado bicudo

Da vida, nesse instante verás que expludo
Como quem esbarra num insípido muro
Para de seguida me erguer e olhar o futuro
Vislumbrando ao longe o meu mais que tudo

Numa clareira de esperança, nasce
A certeza que contigo já trilhei o caminho
Que nos conduz ao dia que amanhece

Um dia dormirás tranquilo, a certeza floresce
Somos uno no tempo longínquo, sim
Agarra a minha força, deixa que te enlace

25 outubro, 2009

«« Lavagem ««


Porque me sinto envolta em neblina
Por mais que tente não avisto a clareira
Ando perdida numa floresta de cartolina
Que cheira a mofo e a bolas de naftalina

Bolas que teimam em subir a colina
Da ilusão desmedida, será ratoeira
Que os sentidos me pregam, será cegueira
De quem não enxerga o virar da esquina

Porque me sinto o espremedor de arame
Por onde se esvai a água da lavagem
Das rotinas que se impõe por mais que brame

Queria ser a fresca aragem
Que penetra pela janela
Mas não, sou espremedor de arame, a lavagem

«« Suspensa ««


No fundo de um nada estão as amarras
Que suspendem a imaginação remota
O caminho é uma seta sem ponta torta
Que nos impede de abrirmos as asas

No fundo de um poço estão as lágrimas
Com que lavamos a alma estafada
Por vezes ficam suspensas em quase nada
Quando deslizam, caem em ponta de adagas

Frias e cruéis afiadas nos momentos insípidos
Em que nos sentimos uma coisa incerta
Nesses instantes baixamos os braços

Como quem atraca numa ilha deserta
Sabendo nunca encontrar o local seguro
Ou a mão que nos traga átona na hora certa

24 outubro, 2009

«« O teu olhar ««


Deixa que durma junto ao teu peito
Como quem sabe que será a ultima
Vez, em que a vida solta fios de espuma
Colorida, anunciando o amor eleito

Por essa hora meu amor, o sol contrafeito
Adormece embalado na bruma
Que envolve a noite como uma pluma
Esvoaçante em ondulado perfeito

Se me embalares nesse ondular
Dormirei descansada, na noite fria
Porque a lua teimará em nos aconchegar

Nos braços do sol que acabou por ficar
Reflectido nos raios de luar cintilante
Onde me revejo, o teu aveludado olhar

«« Poema síntipo .... Insónia frustrada ««


Insónia frustrada.

Olho a lua envergonhada
Envolta na sua aura amarelada
Procuro na sombra reflectida
O significado da angustia desmedida

É o reflexo insípido do Outono

Sai-me a resposta sem peso ou medida
Como se tudo fosse uma aguarela colorida
E a lua lá está, parece rir de tudo e de nada
Acena-me num bocejo orvalhado pelo frio da madrugada

A lua não sabe, ajudou-me a vencer uma insónia frustrada.

23 outubro, 2009

«« Passaporte ««


Se eu me aninhar por um momento
Nos braços da morte, será que ela é quente
Será que me aquece do frio invernal
Ou será apenas um seguir em frente
Transladar de ilusões, em amor carnal
Se eu me aninhar por um momento
Nos braços da vida, será que é gélida
Será que destoa do mundo irreal
Por onde as duvidas circulam em queda
Livre de tudo o que é consensual
A morte e a vida, a mesma moeda
Da alma que nasce sabendo que morre
Agora digam-me vale a pena a guerra
Que se tenta travar entre o bem e o mal

Se eu me aninhar esquecida do norte
Que o universo traçou um dia
Ai de mim perdi o passaporte
Para viajar pela vida sem grande agonia.

«« Deus e o Diabo ««


Quantas duvidas, em negligencias amontoadas
Perco as estribeiras as respostas são falésias
Por onde deslizo aos trambolhões revoltos
Ás vezes misturam-se com reflexos coloridos

Deus e o Diabo de que são feitos afinal, indecisão
Que escorrega por entre os dedos, gorda frustração
Que se empanturra nas ideias preconcebidas
De uma sociedade de certezas descabidas

Deus e o Diabo são o fruto incauto dos meus receios
Neles me revejo, são eternos companheiros
São a capa descartável que visto no momento

Em que a minha razão se sobrepõe ao agoirento
Baixar de ombros, quando as certezas se direccionam
Para a força transcendental da fé enraizada

19 outubro, 2009

«« Terra destemida ««


Terra destemida


Abrem-se brechas na terra húmida
Cobre-se de rubro a charneca envaidecida
As papoilas crescem em farto festim
Tecem um manto vermelho, ai de mim

Olho embevecida, uma lágrima que cai

Olho mais adiante um tufo de alecrim
É a primavera que rompe em tal frenesim
O Alentejo ardente aos poucos ganha vida
As margaridas lembram uma larga avenida

E o tempo pára com a força desta terra destemida

18 outubro, 2009

«« Mágoa ««


Acordei, com a preguiça de quem quer ficar
Por entre os lençóis do esquecimento
De quem quer por um breve momento
Esquecer-se de si, tentando sonhar

Que morreu, e um dia ao ressuscitar
Trará umas asas, e voará solta no vento
Ou será uma barra de frio cimento
Onde a mágoa deslize sem acentuar

Os pontos fracos de quem sonha alto
De quem se esquece que é um naco de nada
De quem tropeça no insípido asfalto

Do mais, acordei imaginando-me arrastada
Por breves instantes despi-me de mim
Tão breves e tão leves, fui uma árvore tombada

17 outubro, 2009

«« A mente ««


Engalana-se ou amarra-se a mente
A nebulosidade é sábia ou gélida
Caminha ao acaso sempre distraída
Por vezes é uma lança crua e dormente

Que insiste em sobressair delirante
Envolta em glorias à partida
Escusas ou brilhantes, puta de vida
Que foge do olhar num breve instante

E o dia que teima em amanhecer, sorri
Envolto num sol que não vira as costas
Á mente que teima em dizer morri

Tem razão o dia, a mortalha é bandeira
Que erguemos a nosso belo prazer
Basta que a ideia voe na hora certa