16 outubro, 2009

«« O amor és tu ««



A aresta perfeita do ferro em brasa
O bocado de barro na mão do oleiro
A cinza que mantêm vivo o braseiro
O pássaro ferido que avista a casa

É olhar e ver o inteiro
Erros e virtudes na mesma balança
O eixo do meio que equilibra a temperança
Em pratos iguais pedaços de cheiro

Dançar ao luar uma só dança
Horas sem dormir em noites a fio
Desnudar o outro de fio a pavio
Enlaçar a vida com fitas de esperança

Saltar sem medir a profundeza do rio
Olhos nos olhos com emoção
Sempre que cair encontrar uma mão
Ao roçar de pele sentir o fascínio

O amor é e será um mistério
É o entregar da nossa razão
É dizer sim e dizer não
É olhar-mos de frente sem nenhum desvio

É conseguir preencher o vazio
Que o tempo abriu em socalcos negros
É o sarar as feridas, apaziguar os choros
O amor és tu, que me resguardas do frio.

15 outubro, 2009

«« Amor é ««


Amor é


Deslizar num mar sem razão
Caminhar de costas voltadas
Mesmo assim de mãos entrelaçadas
Respirar o mesmo ar sem ovação

Amor é não reparar nas aguas paradas
Onde se afogam alguns cansaços
Indo desviando os estilhaços
Que se amontoam nas almas rasgadas

Pelo desejo de seguir caminho
Onde as encruzilhadas nos conduzem
E os desejos se entre-cruzem
Na mais alta árvore construir o ninho

Amor é doces que lambuzem
As mãos e a boca
Saciar a sede em coisa pouca
Olhar em frente ir mais além

Assim é o amor em tudo o que toca
De manhã à noite um farto festim
Desejar que não tenha fim
Ao raiar do dia beijar tua boca.

«« Viver ««


Vesti um velho vestido sovado
Enchi-me de mim e caminhei ao acaso
Pelo percurso observei o fracasso
Do dia que me olha num tom agastado

Reparei no teu passo apressado
Ensaiando uma dança num breve compasso
Dancei contigo no momento escasso
Esqueci o dia e o meu vestido sovado

Passado tempo ainda me vejo
Dançando contigo a dança do crer
Lado a lado desbravando o desejo

De olharmos os dois o sol a nascer
De sorrir pró dia que aprendeu a viver
Ao entrar na dança do acontecer

14 outubro, 2009

«« Penhasco ««


E se eu cair do mais alto penhasco
Porque o passo apressado se esquece de medir o tempo
E o tempo contrafeito esquece-se que é tudo menos perfeito
A perfeição sentindo-se invadida na sua privacidade
Dá um empurrão na minha insanidade
Essa, a insanidade veste-se da mais louca leviandade
Com vestidos de veludo lavrado a pecado
O pecado coitado, mete mãos ao trabalho e deixa-me louca
É aí que descubro que sou poeta de coisa pouca
Num pouco de nada escrevo os meus versos
Que bradam aos céus contra os arremessos
Da vaidade em que me banho sempre que escrevo
Nunca perguntei, afinal quem sou
Porque as palavras me saem em rodos de insatisfação
Porque me entrego à luxúria da criação
Apenas sei que me desnudo e me dou
Correndo o risco de cair do penhasco
Mas, nesse dia cairei em queda livre
Porque escrevo sem medir as palavras
Acorrento-as faço delas minhas escravas
As palavras levam as mãos à cabeça e bradam aos céus
És poeta mas pouco, os versos jamais serão teus.

Acabaram de voar, caíram nos olhos seus.

13 outubro, 2009

«« Uivos ««


Na clareira onde uivam os lobos...
O dia amanhece sem medo, mas tarda.
Até a lua se espreguiça na retirada.
As doninhas entreabrem os olhos, logo após.

O uivo arrepiante dos ventos amargos.
 Fustigam sem dó a alma que aguarda...
Que o pó lhe cubra a dor, disfarçada...
Em risos bolorentos de tão antigos!

Na clareira onde uivam os lobos...
As gentes caminham sem rumo certo.
As mentes amorfas entreabrem os lábios.

A terra cobra, quer quebrar o pesado arreio.
Que um passado lhe pôs sobre as costas.
O povo esse,.. adormeceu pelos cantos!

«« O Inverno que tarda ««


Desmembras-te em fissuras de sal
Aqui e ali socalcos macios recordam a água
Ai de ti que tentas disfarçar a mingua
Como quem se despe do fel e do mal

A terra em Outubro é assim afinal
O chão ressequido lembra uma tábua
Onde se espreguiça a formosa lua
Provocando o sol que cobre o beiral

Deste Alentejo ardente em dor
Os sobreiros gemem chamando a chuva
As gentes gritam em silencio o pavor

O Inverno que tarda, e o vento não muda
As chuvas não caem, a terra envelhece
Bramemos aos santos, algum que lhe acuda

10 outubro, 2009

«« Tortura ««


Desmembro-me em cada gesto ido
Em cada vasculhar de alma, a tortura
Que afugenta o carinho e a brandura
Do que poderia ser, assim perco o sentido

Igual à cor de um velho e sovado vestido
Que em tempos vesti com ternura
Nos dias frios me envolvi na formosura
Nas cores alaranjadas, do desconhecido

Agora quando o gesto virou chumbo
Em cada descoberta na longa estrada
Tudo se repete, feio é este mundo

Em que tudo se perde vira nada
Gestos embrulhados em prata amarela
Porque o ouro, esse, é prata disfarçada.

09 outubro, 2009

«« Alma a descoberto ««


Caminho vazia de mim
Desembrulho na evolução do dia
A minha fantasia
Vasculho o principio e o fim
Quem diria

Encontrei o recanto bolorento
Onde guardo fios de vento
As achas da minha fogueira
Se atearam nesse momento
E aí subi a fatigante ladeira
Do esquecimento

Caminho vazia de mim
Com a alma a descoberto
Os lobos, esses
Viram-me as costas
A minha pele está morta
Os lobos querem a alma
A minha levou-a o vento.

07 outubro, 2009

«« Angustia recalcada ««


Acordo envolta num véu de incerteza
O dia que trará, o sol brilhará, talvez!
O mundo avançará perderá a mesquinhez
A água correrá para o mar em correnteza

Eu não olharei o dia com estranheza
Apenas pela diferença envolta em trepidez
Neblina cruzada, presa na timidez
Minha angustia recalcada encoberta na beleza

De cada amanhecer, no voar da andorinha
Num bolero de Ravel onde me deleito
Na terra que chora pela chuva miudinha

No melro que canta melodias a preceito
Eu me espreguiço de uma noite mal dormida
Acordei envolta na ausência, estranheza não tem jeito.

01 outubro, 2009

«« Bola de sabão ««


O amor gira numa bola de sabão
Lembrando o feto no ventre materno
Assim me anafo eu no frio do Inverno
Aconchegada a ti em alento e devoção

Por vezes um desvio a falta de atenção
Um remoer, uma duvida, um vazio interno
Uma mágoa quebrada num abraço fraterno
E volta ao normal, o carinho e afeição

Assim é o amor que nasce e não morre jamais
Eleva-nos ás alturas num colorido balão
Solta-se no vento em sorrisos e ais

Assim quero viver presa na tua mão
Desnudar-me na água quente do sentir
Elevar-me em espiral na bola de sabão