08 agosto, 2009

««Raul Solnado««


Hoje choram os lírios, porque morreu
O homem, poeta maior num mundo de actores
Tantas as palmas, as lágrimas os ramos de flores
Jeito de menino, sorriso aberto, a vida acabou

Não temam pelo actor, deixou-nos o apogeu
De uma obra que plantou, de todas as cores
Foi menino e soldado, cantou sonhos e canções
Foi rei da traquitana, apoteose, jubileu

Hoje choram os palcos, ficaram mais pobres
O pano caiu pela derradeira vez
O homem morreu, o actor engalanou de amores

As palavras que o poeta escreveu, com avidez
Em cada acto, do teatro das saudades
As luzes se apagaram pela milésima vez….



Raul Solnado 1929-2009

«« Crónicas da tia Alziraaã , Virei uma ledy ««


Vocês querem saber o que me aconteceu, nem sê diga se conti.
Um dia destes o mê Manel achega-se ao pé de mim e diz-me, olhando bem no fundo do meu olho, com aquele olhari que me mete os cabelos das costas im pé.
- Alzirã, ó mulher, tu tens que ir fazer um daqueles cursos avançados, aquêlis, que o nosso primêro inventou para que deixassem da havêri anafabetos no nosso pais. Intão tu na vês que falas mal pra caramba, é como assim uma mistura de espanholi portugalês entre a barragem do Alquêva e raia espanholã, tens que ter tento mulhéri, até a vaca da Zulmira tirou esse curso, virô uma dama.
Ah não, disse cá pós meus botões, se vaca da Zulmira conseguiu ê tamêm consigo, Se assim o disse, assim o fiz.
Vesti o meu vestido ás ramagens e dirigi-me ao centro das novas opurtunidadis, côsa mais linda, tanta mesa e tantos computadoris, ah… nunca tinha visto iguali, e aquelas senhoras todas de um lado pó outro e os cavalhêros, belos homis sim sinhôri, O mê Maneli à vista delis parace um pirum depenado.
Receberã-me muito bê, o piori foi a quntidade de coisas que tive que escrevêri, parecia o testamento do mê ti Zei, mas pronto tudo passou, lá tirei o bêdito curso e agora já sei escrever como uma ledy, digam lá que é mentira, se forê capazes, uhmmm…

07 agosto, 2009

«« Mulata ««


Um fervilhar de vida constante
Germina sob os meus olhos incrédulos
Recordo em surdina tempos antigos
Em que o homem dava passos de gigante

Ai Lisboa terra de mouro amante
Princesa de uma colina que contrapôs
Nas cordas de uma guitarra abraços
Que marinheiros deixaram distante

Em terras de sonho, além mar se deram
A uma donzela de olhos de azeitona
Corpo de sereia, dos filhos que nasceram

Brilhou a mais bela mulata ,anémona
Fusão de dois mundos que transpuseram
Oceanos e demónios, a esperança veio átona…

06 agosto, 2009

«« Cronicas da tia Alziraaaã ...... Ser politico cânsãa««


Estava eu prá qui a pênsari com os meus botõeees, e nã resisti, tivi que dividir as minhas apoquentaçõeess com vocemecêsss.
Coitadinhooo daquêli senhori lá prós lados da capitálii, aquêêliii que foi obrigado a aceitari aqueli terrenozinho em terras de S. Toméii , ai coitadinho, o esforço que êli nã fêezz ainda por cima têvi qui agradicêri, foi só por beim parecêri que ele aceitou, poiis clarum. E agora condenado a seti anos de prisão, assiiim, sem mais nim menos.
Seti anos tem o mê gato,por cada ano de vida tá claroo.
Mas vai-se candidatári di novo, há granda homi, dessa cepa já nã se fazeêm
Outra coisa que me têem moido o juizo, a D. Ferreira Leitii, fez uma rasia completa, queriam tacho, tá claroo, queriam mas ela nã deu, é cá das minhaas tem tomatis entri as pernas, pena tari entraditadita na idadee, senão era mulher para fazer de Portugal mais uma provincia de Espanhaãa, há isso eraã.
Aiii, e o nosso primeiro, aiii tadinho, tanta pena qui tenho delie , ta~bom homi, lindo de se lhe tirar o chapéuu e ódepois tanta promessa, aiiii mas tantas, pareciam o cruzeiro da sinhora di fátima em dia de procissão, esqueceu-se de tudo, sabéem é que o magano come muito quêjo, de Nissa, todos sabe~em que o quêjo tira a mimória.
E digãoo-me lá, aquela coisa lá prós lados de Acochêtii, como é que ficôuu, o homi éra inocênti nã é verdadi, claro só podia, coisas da reaçãum, inveja é o que elis têem é por êli ser tã bonito, na próxima vez que êli venha inaugurari mais um lari ao Alintejo vô-lhi oferecêri um corno da minha cabra zulmira, por causa do mau olhado…
A genti por aqui estamos muito bêeem servidos, o nosso presidênti da juntaã é tã bom homi, até joga fotibóli com os rapazes cá da terra, em terrenos baldios porque nã temos campo de fotibóli, mas joga é o que interessaã, e é um cavalhêroo dá sempre um cravo ás damas no vinti i cinco de Abril e no dia da mulhêriiii uma rosa virmelha . Tadinhooo…
Agora vou batêri a sorna á sombra do chapárro, fiquei cânsaditaaã com tanto dari à linguaã, beijinhosss

«« Demasia ««

Abrem-se em cutiladas profundas
Aos poucos se vai avivando a magoa
Que deixas em cada migalha jogada
Como se fosse o apogeu que ambicionas

Ofereces tão pouco de tudo, mãos esticadas
Percorrem um caminho sem encruzilhada
Exigem demais para quem dá quase nada
Oferecem demais num nada que desfraldas

E eu, tropeço nessa dádiva impotente
Finjo uma alegria que nunca tive
Sempre consigo olhar-te de frente

E tu vives na ilusão que eu sustive
Acreditas que sempre dás em demasia
Carregas as certezas,só que eu sou mais livre…

05 agosto, 2009

«« Promessa ««


Que ciúmes das pedras da calçada
Pedras frias que pisas sem ter pressa
No silencio vais deixando uma promessa
Que teima em estar contigo atracada

Que um dia ao pisares essa calçada
Os teus passos, soarão ligeiros na travessa
As pedras vão dizer, que pressa é essa
Que te impele a correr na caminhada

Vais seguindo sem ver nada na jornada
Ao longe uma clareira intransponível
Entre ti e o horizonte uma luz esbranquiçada

Que te fala num dialecto inaudível
É minha alma que te chama tresloucada
Que te conduz no meio do impossível.

«« Um fado ««


Diz-me porque os rios correm para o mar…
Em Setembro voltam as marés vivas,
Porque Lisboa tem sete colinas…
Porque o fado é dolente, e fala de amar.

E o poeta, ai o poeta, sempre a discordar,
Do mundo que enlouqueceu, falta-lhe as rimas,
Para escrever os versos das suas derrotas,
Do dia que tarda em nascer, quer ver o sol brilhar.

Diz-me porque os rios correm para o mar…
Porque corro eu, no balanço dessa água,
Porque rio de tudo o que estou a pensar.

Porque quero me desnudar da mágoa ,
Em Lisboa das sete colinas, um fado
Melódico, um povo vestido de mingua.

«« Cansada ««


Caminhas tu à deriva
Sem amarras p`ra te agarrar
Caminhas tu à deriva
Cansada, de tanto andar

Esperar o que a vida não tem
Ou por ti passou e não viste
Esperar num olhar de desdém
Que te traga uma estrela em riste

Que te traga o amanhecer
Uma palavra, um bem querer
Um gesto, um pedaço de ser
Uma nova vida a nascer
Uma canção por escrever
Um poema por dizer
Uma mão estendida em sinal
Da crença, que a ti conduz
No fundo do túnel a luz
Um germinar de emoção
Pedaços de carinho paixão
Seiva viva a renascer

Esperar que a vida te traga
Um novo dia, amigo
Um bem querer na palavra
De mãos dadas caminhar
Esquecer as aguas passadas

Estás cansada de esperar…
De olhar e não ver…
De um nada acontecer…
Ou será que é p`ra esquecer…

04 agosto, 2009

«« Amigo ««


Procuro na colina distante
A resposta aos meus medos
Perco-lhe o trilho, volto ao começo
Torno a procurar, no vento suão
Por vezes consigo, sentir a fascinação
Que o vento carrega na devastação
Tal como a terra
Que se encontra dorida
Escaldada p`lo sol, no mês de Agosto
Assim está minha alma…
O reflexo dessa mágoa
Escorrega na lágrima que desliza
Cai na terra em brasa, abre uma lagoa
Onde os insectos saciam a sede
Na salmoura da minha existência

Procuro ao longe, a luz que fugiu
Nas cauda do vento suão
Na colina uma flor floriu
Eras tu meu amigo, irmão…

02 agosto, 2009

«« Até sempre, ou até nunca mais««


Hoje despedi-me dos sonhos
Enterrei-os bem fundo no areal da desilusão
Vou fechar a minha solidão, vou trancar-me com ela no sótão
Amarelecido onde um dia quase aprendi a sorrir
Talvez tranque também o breve momento onde o sonho foi possível
Nesse momento escrevi, sobre mim, sobre a minha vida , sobre o meu sonho e a minha ilusão…
O poeta é um fingidor, disse Fernando Pessoa
e eu atrevi-me não só a fingir como a acreditar em todo esse fingimento

O despeito o cinismo o oportunismo e acima de tudo o desamor acabaram por matar a capacidade de sonhar...