06 maio, 2009

«« pedra no sapato ««


Falta-me não sei o quê
Talvez a razão do porquê
Falta-me a trave mestra
No tempo que ainda me resta
Tão somente o meu quinhão
De terra em composição
Aquele ombro amigo
Que esteja mesmo comigo
Dói esta pedra no sapato
Que me rói ao desbarato
Sem penas ou compaixão
Queria só o meu quinhão
De terra , só tenho mato.

Por vezes sou um ingrato.

05 maio, 2009

«« Sem volta ««


Percorro um caminho sem volta
Sem desvios, ou encruzilhadas
Percorro um caminho sem volta
Estrada fora sou arrastada

Arrastada ao Deus dará
Ora aqui ora acolá
Salto muros e barrancos
Rebolo feito uma bola
Salto, salto aos solavancos
Pedindo aqui e ali esmola

E se algo me consola
É saber que não vou só
A todos a vida enrola
Todos cabem na sacola
De nenhum ela tem dó
Afinal viramos pó
Nada somos nada seremos
Desde o dia em que nascemos
Até ao dia em que morremos

Somente o que fizemos
De bom ou errado na vida
Apenas isso levaremos
No dia da despedida
Amanhã serás esquecida
Teu corpo de terra coberto
Tua alma destemida
Voará em céu aberto

Nem isso temos de concreto.

04 maio, 2009

«« No teu abraço ««


Escondi-me no teu abraço ternamente
E, dormi o sono dos justos,apenas incompleto
Acordei e vi que sonhei simplesmente
Sono conturbado, meu sono encoberto

Abracei-te numa manhã de sol , quente
Senti o bater compassado do coração
Chamei-te meu verbo incandescente
Anafei-me, conduziste-me pela mão

Percorremos alamedas em botão
Ao som do chilrear da passarada
Fiz-me tua nesse instante com paixão

Perdia-me no teu abraço, novamente
Percorria esse caminho incompleto
Para te amar, nada seria diferente

03 maio, 2009

«« Longas conversas ««


Tenho longas conversas, com o despeito
Umas silenciosas, outras de viva discussão
Confesso que até lhe ganhei o jeito
Tornou-se fácil, conversar até mais não

Converso, converso, de coisa nenhuma
Desilusão descabida de nada ser
Sonhos imperfeitos viraram espuma
Esfumaram-se entre os dedos sem doer

Nestas minhas conversas, pergunto
Mas o meu companheiro nada me diz
Parece desconhecer o dito assunto

Responde despeito, será que é peçonha
Ou a vida perdeu-se de mim ao nascer
Responde despeito, terás tu vergonha

«« hoje apetece-me chorar ««


Hoje, apetece-me chorar
Não sei se é por mim
Ou por nada
Hoje apetece-me chorar
Pelo que não vi
E já esqueci
Apetece-me chorar
Aqui e ali, mais adiante
Ou mais atrás tanto faz
Apetece-me chorar
Pelo que esqueci
Apetece-me chorar
Por mim
Amanhã chorarei por ti.

02 maio, 2009

«« Lágrimas em decomposição ««


Lágrimas em decomposição
De mão em mão
Nevoeiro negro, de luto
Vagueia pelas clareiras
Da imaginação aos solavancos
Pernoita em fundos barrancos
Do egoísmo
Pensando quase agonizo
Mas finjo , e vejo, e,
Digo não , e digo sim
Ai de mim

Lágrimas salgadas
Sem dores
Sofrimento portador
De angustias e desamparos
Compassados pelos acertos
Do raciocínio
Empresta-me o fascínio
Irreal do sobrenatural
Daquilo que não domino

Lágrimas de lamurias contidas
Virgem negra distraída
Caminhando pela tumba
Vazia da dúvida
Duvida que se abeira
Sempre que perco a estribeira
Com lágrimas em demasia
Asfixia
Afogo essas lágrimas
Em aflição

Rezo um credo incompleto
Ao correcto
Realismo secreto
Do nada concreto
Do certo ao incerto…

«« Não me ensinaram a ser mãe ««


Não me ensinaram a ser mãe
Fui-o por instinto, verdade
Necessidade de amar com vontade
Vontade de conceber a vida, um outro ser
Vontade de ser mulher
Não me ensinaram a ser mãe,
Com isso tenho que viver
Talvez isso, tenha que agradecer

Sou mãe na dor, na alegria
Na fantasia das horas felizes
De alguns momentos infelizes
Saro as cicatrizes

Sou mãe quando digo não
Quando digo sim, mesmo,
No assim-assim
Não me ensinaram a ser mãe
Plantei flores no meu jardim
Tratei-as e reguei-as, sim

Sou mãe por convicção
Pela continuação do ser
Sou mãe quando finjo não ver
Em tudo o que ensinei
Mãe em tudo o que desejei
Sou mãe, e orgulho-me
Das sementes que plantei.

01 maio, 2009

«« Luxúria és rainha ««


Luxúria erva daninha
Do prazer és rainha
A culpa não é tua
É minha…

Encontro-me nua
E… crua
Envolta na lua
Prazeres carnais
E outros que mais
Luxúria,
Estandarte em arraiais
Abres as portas
Aos vícios mundanos
Dos pobres humanos
Insanos…

Masturbação dos profanos
Desvios morais
Dos seres normais
E, outros que tais
Luxúria,
Vendavais, em ais

Tantos prazeres consensuais
Nos pecados capitais…

«« Maio ««



Maio sofrido Maio
Perdido nas gerações
Cantaram-te como o gaio
Entre lutas e revoluções

Mar de multidões
Ideais soltos sem tempo
Tentas soltar os grilhões
Desde o norte ao barlavento

Maio do meu contentamento
Perdi a vontade em cantar
As lutas em movimento
Perdi, perdi a vontade em sonhar

«« Diz ««


Diz o que a alma atormenta
O que tarda a dizer
Nesse olhar a entristecer

Quais os segredos que guardas
Os desejos que resguardas
O que não, consigo ver
Diz, porque páras a olhar
Como se fosses abraçar
O vento que teima em passar
O céu, as estrelas a bailar
Abrigaste-te em altos muros
Os muros do silencio
Ladeados por extenso rio
Prisão que te mantêm cativa
Tal qual andorinha ferida
Suspiro solto sem tempo
Que transporta a neblina
Que desvanece esse olhar
Olhar, que quer falar
O medo de arriscar
O tentar ser feliz
Diz…