04 março, 2009

««Loucos««


Deixem o mundo aos loucos
Os sãos estão em declínio
Dêem o mundo aos loucos

Eles mantêm o fascínio
Da loucura transparente
Talvez acabem com o martírio
De um mundo tão dependente

Deixem sonhar o demente
Sua loucura é sadia
Teima em chamar de gente
A noite que queria ser dia

Louco que a mão estendia
Apontando a degradação
Da vida que dependia
De outra vida em escravidão

Os loucos jamais calarão
O seu grito de revolta
Ao verem tombados plo chão
Pedaços de criança morta

Nesta era que está tão torta
A loucura faz sentido

Apenas o louco transporta
Nos seus olhos o colorido
De os homens viverem unidos

Dêem o mundo aos loucos
Os sãos estão em declínio
Por tão pouco.

««Inverno de saudade««


Num Inverno de saudade, triste a sorte minha
Caminho por entre o crepúsculo, transbordante da dor
Esta saudade nefasta encontra-me sempre sozinha
Não deixa que em mim germine, uma nova chama de amor

Minha saudade gasta em descontentamento
Afoga-se nas águas de um rio transbordante
De palpitações, sussurros presos num momento
Saudade, já reflectes uma sombra decadente

Desnudo-me saudade na indiferença
Da libertinagem que a ti me segura
Entristece-me saudade, viraste minha crença

Transporto-te na alma, entre réstias de loucura
Em alamedas sem cor trilhadas à nascença
Trémula saudade que te afogaste em ternura

03 março, 2009

««Saudade popular««


Saudades das suas mãos
Remexendo o meu cabelo
De noitinha ao serão
Junto ao muro do castelo

Saudades dessa aflição
De como temia perdê-lo
Com o tempo vi que não
Que não era assim tão belo

Dei-lhe um grande bofetão
Pisei-lhe o tornozelo
Ainda o deitei ao chão
E cheguei-lhe a roupa ao pêlo

Saudades que pesadelo
Desse namoro de verão
O rapaz era um caramelo
Só eu dizia que não

Minha mãe com o chinelo
Trouxe-me à razão
Pela encosta era vê-lo
A fugir em aflição

Meu namoro no castelo
Virou mexerico de verão
Ainda hoje sinto o apelo
De me embalar na paixão

««Saudade viraste fado««



Saudade és tão Portuguesa
Pelo mundo estás espalhada
Fazes parte da tristeza
Que no cais está ancorada

Nas correntes foste levada
Aos quatro cantos do mundo
Saudade mulher amada
De um Português vagabundo

Vagabundo, poeta fecundo
Levas-te saudade a eito
Teu amor foi tão profundo
Que a cantaste em verso insuspeito

Ai saudade que grande feito
De Camões até Pessoa
Zarpaste levando no peito
Saudades desta Lisboa

Por terras da Índia, de Goa
Do Brasil a Santiago
Pelas mãos de Malhoa
Saudade viraste fado

«« Nem sempre a saudade é espera««


Transpus a porta de um bar
Para falar à saudade
Recusou até me olhar
Renegando a verdade
Ai saudade, louca saudade
De um amor que nem chegou
Madeixas de infelicidade
Nos meus cabelos deixou
Socalcos de esperança morta
De saudade, meu rosto marcou

Finalmente, sorriu e cantou
Acompanhada á guitarra
Um fado que me emocionou

Vira as costas à desgraça
Caminha de braços abertos
Nem sempre a saudade é madrasta
De quem perdeu os afectos
Tem saudade que é tão casta
Que nem os mais fortes ventos
Separam do pensamento
Tal a virtude que encerra
Saudade nem sempre é espera
De um sonho, que dorme ao relento

Olhei a saudade valente
Virei costas a sorrir
Transpus a porta do bar… segui em frente

««Encontrei a saudade««


Encontrei a saudade
Perdida numa viela
Menina de pouca idade
Que triste vida a dela
Caminhei pela cidade
À porta de um bar, estava ela
Bêbada de infelicidade
Dando ares de mulher fatela
Vestida de vaidade
Não sei se chore, ou finja não vê-la

Com a saudade deparei
Ao olhar aquele velho
Louco logo o imaginei
Só porque falava com o espelho
Louca sou eu, agora sei
Que não lhe pedi conselho
Sobre as saudades que terei
Se um dia me olhar no espelho
E reparar que virei
Velha, sem querer sê-lo

Num segundo encontrei
A saudade de lado em lado
Era tanta que fiquei
Com o meu andar cansado
A custo lá me afastei
Da saudade do passado
Não consegui conter-me, chorei
Há saudade por todo o lado
Toda a gente que encontrei
À saudade vinha abraçado

Assim terminei o dia
Com saudades a gemer
Meu coração sofria
De saudades a valer

02 março, 2009

««Porque calas««


Conta porque calas
Esse grito travado
No peito guardado
Que te corrói a alma
Como bicho de contas
Que se aloja na ponta
De madeira bichada

Sim responde
Porque calas
Em silêncio mudo
Afastado de tudo
Sonhos e anseios
Quebrados a meio
Por um luto profundo

Luto de morte anunciada
De uma guerra derrotada
Pela insensatez da vaidade
Que te faz parecer covarde
Neste mundo de faz de conta
Em que já nada conta
A não ser as nossas verdades

As verdades dos outros
Parecem leviandades
Depressa concluímos
Sem pensar nas cicatrizes
De um pensar tão infeliz
Julgamento sem juiz
Num tribunal sem contexto

Conta.
Porque és um mudo torto
Porque atiras foguetes pró ar…
Mesmo na derrota

««Procura««


Olham para mim com um olhar escancarado
Ás vezes sinto-me transparente, outras neblina
Decididamente faço parte de um quadro esborratado
Sou uma peça que não encaixa na rotina

Na poeira desta vida passo agastada
Vaguei-o de alma tresloucada na noite fria
Percorro caminhos por uma terra assombrada
Se eu morresse agora , talvez se fizesse dia

Pergunto meu Deus, será que no mundo existe alguém
Que me olhe nos olhos, na magia do olhar, sem me fazer chorar
Me puxe prá vida, me faça ir sempre mais além

Cansada do mundo, perdi a vontade de sonhar
Tantas são as duvidas que me consomem
Se continuar na procura, o que será que vou encontrar

01 março, 2009

«« Descalça de tudo ou nada««


Caminho descalça num tempo de nada
Fugindo de um mundo escuro , tresloucado
Talvez buscando uma ternura amachucada
Em águas paradas de um lago gelado

Caminho descalça num campo sem trigo
Procurando nas migalhas de uma paixão
Um pouco de calor, a certeza de um abrigo
Uma luzerna de sol, no estender da tua mão

Caminho sem fim, encontro-me perdida
Grito palavras sem som, grito palavras calada
Palavras de quase nada , de dor tingida

Cansada parei no cimo de uma chapada
Olhei os campos agrestes, afinal era seguida
Por sonhos de menina, no romper da alvorada

««Labaredas cintilantes««


Tuas mãos ensaiam uma dança desconcertada
Desnudando todo o meu corpo embriagado
Percorrem minha entranhas mais sagradas
Conduzes-me por um caminho de tudo ou nada

Nessas mãos deposito minha alma enlouquecida
De mulher criança, dormindo ao relento, coberta pla lua
Num breve instante perco-me da minha vida doída
No sabor da tua boca que me chama tua

Por entre labaredas cintilantes, escancaro o olhar
Os raios de sol precipitam-se pela janela
Acariciam-me os cabelos, fazendo-me despertar

Acabei de pintar a mais bonita aguarela
Que repousa nas paredes de uma galeria invulgar
Esperando que o sol a enlace, e não mais se afaste dela